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spacca faz barba, cabelo e bigode de d. pedro II na livraria cultura, em sp

Orlando

24/04/2014 08h00

um dos trabalhos mais difíceis e emblemáticos na vida do desenhista é se reinventar. seja pelo excesso ou falta de talento, por condições do mercado, por oportunidades que passam pelo caminho.
o paulistano joão spacca de oliveira é um que faz isso desde os seus tenros 15 anos.
reza a lenda que ele, garoto,  foi procurar trabalho com o quadrinhólogo álvaro de moya, diretor de programação da tv tupy, com as mãos vazias. chegando lá, moya perguntou sobre seu portifólio e ele disparou à queima-roupa: “o que vc quer que eu desenhe?''
arrogante ou confiante, o fato é que o spacca é um desses caras que enfrenta o trabalho de frente e é bom em tudo.
rascunha bem, caricatura bem, cartuniza bem, finaliza bem e pesquisa muito, muito bem.
para chegar a um quepe ou a uma polaina corretos, rabisca 200 vezes se for necessário até que o objeto, vestimenta ou cenário lhe sejam íntimos.
no caso de pesquisas como as feitas para “as barbas do imperador'' que lança neste sábado, não foi diferente.
muitos esboços, informações cruzadas, precisão histórica.
abaixo, entrevista com o rato de sebo, spacca:

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blogdoorlando – vc é um artista que começou cedo na publicidade, migrou para o jornalismo, passeou pelo quadrinho de banca e, depois, para para a pesquisa histórica.
como vc vê essa ciranda?
Spacca – Ótima pergunta, essa nunca me fizeram! O trabalho atual, de certa forma, soma tudo o que fiz ou tentei fazer (você esqueceu do desenho animado): com os storyboards, aprendi noções de enquadramento de cinema e tive que desenhar de tudo; na animação, desenvolvi o desenho de personagens; no jornal, lidei com a política; no quadrinho, ensaiei meus primeiros roteiros; e hoje conto em HQ a história dos governos passados.

blogdoorlando – seu nome se tornou popular quando ocupou o espaço da charge na folha e nas páginas do niquel náusea. qual era a diferença entre esses espaços e onde eles se encontravam?
Spacca – A charge da Folha foi uma das coisas que lutei para conquistar, e o que eu queria era justamente cair na “fogueira” da redação, ser testado todo dia, aquela coisa tensa. E eu atribuía uma importância muito grande para a atuação política por meio do desenho (influência de Henfil, Angeli etc) e achava que aquilo era uma coisa de grande responsabilidade. A Níquel era quase o contrário: liberdade total para experimentar, uma revista feita entre amigos que gostavam das mesmas coisas. E, na época, como existia a Chiclete, parecia muito natural ser cartunista e fazer revista também. Depois que acabou é que percebi o quanto aquela experiência foi uma coisa rara.

aureliano chaves, ulysses guimarães e collor

aureliano chaves, ulysses guimarães e collor

blogdoorlando – o spacca do cartum e da caricatura tem uma liberdade no traço e nas idéias que dão espaço ao rigor da associação de idéias e pesquisa do spacca chargista e desenhista de roteiros históricos.
o que esses dois desenhistas têm em comum?
Spacca – Bem, apesar de fazer as caricaturas dos debates da SIB, não sou especializado em caricatura. Se for comparar o Spacca chargista e o desenhista histórico, acho que a obsessão pela exatidão é a mesma. Lembro que nas charges eu ficava “editando” o desenho depois de pronto, mexendo o balão pra lá e pra cá, avaliando o peso de elementos do cenário. Talvez não pareça que naqueles desenhos eu tivesse tanta preocupação, porque o estilo era mais dinâmico – eu me inspirava no Glauco, no Henfil, no Tex Avery. Mas, pelo que me lembro de mim mesmo, eu era bastante tenso para criar e desenhar, embora aquilo saísse rápido. Minha concepção de desenho na época tinha a ver com o que o Herman Lima disse uma vez do chargista – que o desenho “saía fumegando” das mãos do artista.
Hoje, porém, desenho mais lentamente e capricho mais, talvez porque tenha passado a admirar outros artistas, e busco um resultado melhor. Ou porque as histórias que faço têm partes dramáticas, ou delicadas, e sinto que o desenho precisa ser diferente para dar conta dessas passagens mais emocionais.

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blogdoorlando – por que a opção pelas histórias com personagens reais?
Spacca – Honestamente, não sei. Sempre gostei de biografias. Gostava de ver filmes contando a história de artistas, Toulouse Lautrec, Mozart, van Gogh. Mesmo em ficções como “Os Três Mosqueteiros”, fiquei fascinado quando descobri que o Cardeal Richelieu havia existido de verdade. E o Júlio César e a Cleópatra de Asterix… Me dá um prazer muito grande estudar um personagem a fundo, sua psicologia, suas relações, como ele pratica uma profissão que não é a minha. É como uma grande caricatura, ou uma grande charge.

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blogdoorlando – quanto tempo vc trabalha na concepção de um livro como santô ou as barbas do imperador?
Spacca – O Santô não é um padrão muito normal… Foi meu aprendizado. Comecei a pensar nele aos 15 anos, e concluí o roteiro aos 39. Os outros foram uma média de dois anos cada um. O “Barbas” também foi atípico, deu uma arrastada: quatro anos. Mas peguei outros trabalhos durante. Não achei ruim que tenha levado tanto tempo, ele e eu amadurecemos no caminho. 🙂

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blogdoorlando – d. pedro II sempre foi um personagem ligado às artes e à tecnologia. fotografou e viajou muito.
isso o faz um governante diferente? no que isso mudou o brasil?
Spacca – D. Pedro II teve uma história muito estranha, diferente de qualquer coisa que existiu. Pra começar, era um rei fora da Europa; era culto, tinha aqueles interesses variados (por línguas mortas e tecnologia de ponta), mas também, visitando hospitais e quartéis, parecia mais um secretário de obras públicas, se preocupando com coisas prosaicas como os encanamentos e a cozinha; tinha aquela nobreza e dignidade, e ao mesmo tempo era de fácil acesso; patrocinava cientistas, músicos, pintores e literatos, consciente de que – palavras dele – queria “formar uma elite”, isto é, ele tinha uma política cultural, para por meio da cultura “organizar moralmente uma sociedade”. Agora, no que isso mudou o Brasil, não faço idéia – teria que especular que outra alternativa existia. Os outros países da América latina eram repúblicas turbulentas e instáveis, mas isso se deve a muitos outros fatores além do governante – as diferenças entre Espanha e Portugal, por exemplo, que as colônias herdaram.

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blogdoorlando – como vc evita as armadilhas da “história oficial”?
Spacca – Estou sempre me opondo a “histórias oficiais”, não tanto por ser oficial (de cima, contada por vencedores), mas sobretudo quando é apenas uma versão distorcida, errada, exagerada, simplista etc. Um dos remédios é tentar ser abrangente, procurar ver a mesma história contada por outros atores, e considerar o entorno, as outras histórias relacionadas. Por exemplo, a história do Brasil durante 300 anos fez parte da história de Portugal, e a de Portugal está entrelaçada com a dos outros países europeus, com o Oriente, com a história da Igreja, com o império muçulmano etc. Pelo menos uma noção do que se passa em volta você tem que ter. Outro, é evitar ficar preso numa escola, numa linha de interpretação – história econômica, marxista, ou do cotidiano, ou das idéias etc. Minha visão de “historiador amador” é semelhante à de quem faz um filme de época, e tem que se preocupar com figurino, cenário, armas antigas, transportes, etc; ou seja, para recriar a História, tem que pensar em tudo o que o ser humano experimenta e precisa… Parece muita coisa, mas é o que os literatos sempre fizeram para escrever seus romances.

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blogdoorlando – esses temas são propostos pela editora ou vc que se adianta na pauta?
Spacca – cada um tem uma história. Santô foi projeto meu, Debret foi uma idéia minha para uma HQ com o tema “viagem”, “D.João” foi convite, “Jubiabá” foi escolha minha, para um convite para fazer um livro do Jorge Amado; e “Barbas” surgiu como complemento natural do D.João, sugestão da Lília Schwarcz.

blogdoorlando – “as barbas” está em fase de lançamento. qual o outro projeto que v já tem e vista?
Spacca – A Lília quer fazer “República” para completar a trilogia (é a chamada “República Velha”, nome que ela não gosta), ainda não tem nada escrito e não sabemos como será, só algumas idéias.

Flyer

a sessão de autógrafos começará logo após o debate.

 

 

 

 

 

Sobre o autor

Orlando Pedroso é artista gráfico e ilustrador, trabalhou com praticamente todas as publicações da grande imprensa. Foi colaborador da Folha de S. Paulo de 1985 a 2011. Ilustrou mais de 60 livros infanto-juvenis e é co-autor de “Livro dos Segundos Socorros” e “Não Vou Dormir” – finalista do prêmio Jabuti de 2007 nas categorias “ilustração” e “melhor livro”. Foi vencedor do Prêmio HQ Mix de melhor ilustrador nos anos de 2001, 2005 e 2006. Expôs nas mostras individuais como “Como o Diabo Gosta”(1997) , “Olha o Passarinho!”(2001), “Uns Desenhos” e “Ôtros Desenhos” (2007). Em 2008, faz uma exposição retrospectiva de 30 anos de trabalho como artista convidado do 35º Salão de Humor de Piracicaba.- É autor dos livros Moças Finas, Árvres e do infantil Vida Simples, e membro do conselho da SIB – Sociedade dos Ilustradores do Brasil.

Sobre o blog

Este blog trata de artes gráficas, ilustração, cartum, quadrinhos e assuntos aleatórios.