Blog do Orlando

o desenho continua sendo o suporte para uma idéia
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Orlando

semanas atrás conheci na flip o ilustrador português joão vaz de carvalho, que lançava o livro “a avó adormecida'', com texto de roberto parmeggiani. ele veio ao brasil a convite da editora dsop.
simpático e cordial, se mostrou preocupado com a situação do mercado.
ele tem um trabalho primoroso e artesanal. tinta, pincel, ângulos inusitados e aquele cheirinho bom da tradição européia do desenho.
mas eis que a questão dele é exatamente essa. estaria esse tipo de trabalho fora de moda? estaria ultrapassado? deveria ele migrar para o computador?
essa é uma questão que passa pela cabeça de centenas de ilustradores do planeta.
até onde o computador pode favorecer ou benificiar um artista?

que o computador é uma ferramenta maravilhosa, não há dúvidas. mas daí ele ser um tipo de ditador que se impõe como única alternativa, há uma distância.
no brasil temos artistas como fernando vilela, odilon moraes, ionit, samuel casal que investem no processo artesanal do desenho, do recorta e cola, do cava e imprime, da sucata, etc.
o computador deveria ser só mais uma ferramenta.

ironicamente, eu estava na flip fazendo o caminho inverso.
a pedido do uol, estava lá para fazer uma cobertura visual do evento e, para isso, escolhi desenhar num ipad, instrumento com o qual minha intimidade era perto do zero.
tenho um ipad há cerca de um ano, um ano e pouco e o máximo que havia feito era alguns poucos rabiscos pra ver qual era. mas minha curiosidade sempre esbarra numa preguiça monumental de descobrir ferramentas, atalhos e todas essas coisas que fazem os olhos da meninada brilharem.
já falei aqui que só atualizo sistemas e programas quando chego perto de ficar incomunicável com os colegas. gosto de saber onde estão os pincéis e traquitanas e detesto que mudem tudo de lugar a cada atualização.

bom, tive perto de um mês para descobrir como o sketchbook pro funcionava, como eu lidaria com ele, que cara eu queria dar aos desenhos e, pior, como enviaria as artes a partir da tenda onde as palestras estariam acontecendo.
e eu não sou muito esperto para essas coisas, confesso, mas assuntando aqui e ali, fui achando um jeito, uma forma de trabalhar que eu pudesse me sentir confortável.

neste ponto, volto ao português joão vaz. acho que todos devemos trabalhar de forma confortável. manual ou digitalmente, tanto faz.
o desenho continua sendo o suporte para uma idéia, uma emoção e tem, para os profissionais, a obrigação de transmitir algo além do que os olhos podem ver.

portanto, tinta ou pixels, tanto faz. o que importa, de verdade, é o desafio.
abaixo, alguns desenhos feitos na tentativa de domar o ipad e do trabalho na flip:

das primeiras tentativas

das primeiras tentativas

 

das primeiras tentativas

das primeiras tentativas

 

das primeiras tentativas

das primeiras tentativas

 

das primeiras tentativas

das primeiras tentativas

 

das primeiras tentativas

das primeiras tentativas

 

chegando lá

chegando lá

 

das primeiras tentativas

das primeiras tentativas

na flip

na flip

na flip

na flip

 

na flip

na flip

 

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roger cruz e davi calil fazem parceria com adoniran barbosa
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Orlando

roger cruz e davi calil já são figurinhas carimbadas no circuito dos quadrinhos e ilustração nacionais. fazem parte de um seleto grupo que vem procurando mais e mais formas de expressão para mostrar que, muitas vezes, duetos e outras combinações podem funcionar tão bem quanto o trabalho individual.
há cada vez mais artistas procurando alternativas de expressão e, ainda, procurando publicar seus trabalhos em papel, em formato de livro.
pelo jeito, a era digital cumpriu seu papel (sem trocadilho) e o livro ressurge com um novo frescor ou com um outro status, como o vinil vem fazendo.
mais interessante ainda, que um desenhista de heróis e um aquarelista de mão cheia se juntem para buscar inspiração num personagem paulistano, ingênuo mas não menos cosmopolita.
adoniran barbosa, com seu sotaque e rimas recheados de um humor completamente particular aparece em quaisqualigundun trazendo vários de seus amigos do bixiga, bairro tradicional italiano de são paulo, e redondezas.
o resultado é uma hq de 75 páginas recheada de poesia e, digamos, ginga. uma ginga de são paulo mas ainda assim, ginga.
abaixo, entrevista com os autores.

 

QUAIS_CAPA1_4-FINAL

Blogdoorlando – a pergunta inevitável: por que adoniran?
Roger Cruz - Porque sempre gostei desse universo sobre o qual ele escrevia, dos personagens que ele retratou ou talvez tenha inventado.
As histórias de personagens das camadas mais pobres da população de São Paulo, a beleza que ele enxergava nas situações mais corriqueiras do cotidiano, a maneira que ele encontrou para traduzir o jeito de falar dessas pessoas.
Conheço essas músicas desde moleque, mas as histórias das HQs surgiram quando comecei a me perguntar quem seriam esses personagens das músicas, de onde teriam vindo e o que os levou até aquele momento descrito pelo Adoniran.
Davi Calil - Fui convidado pelo Roger, que já havia concebido o projeto. Topei na hora porque sempre fui fã de Adoniran, adoro desenhar velhinhos e ficava imaginando como seriam os personagens dele no meu desenho.

QUAIS_063

Blogdoorlando – as histórias são factuais ou inventadas?
Roger Cruz - São inventadas mas inspiradas nas idéias centrais das músicas Saudosa Maloca, Samba do Arnesto, Apaga o Fogo Mané e Samba no Bixiga.
Inventadas pensando no que mencionei antes, nas perguntas que eu fazia enquanto ouvia as músicas.
Por exemplo, na HQ Maloca, quem era o Doca? Quem era Matogrosso? Quem narra a história? O Adoniran? Alguém que contou para o Adoniran?
De onde vieram? Como se conheceram? E por aí vai.
A partir daí, criei para cada um, histórias que fizessem sentido, que se interligassem e tivessem uma lógica dentro do universo criado pelo Adoniran.
Se você conhece as músicas, vai identificar e perceber mais detalhes nas HQs.
Mas penso que, se não conhece, as histórias funcionam bem também.

QUAIS_007

Blogdoorlando – vcs têm alguma ligação especial com o bixiga, italianos e samba?
Roger Cruz - No meu caso, apenas com o samba por causa do Adoniran e de outros sambas e sambistas que gosto.
Conheço o Bixiga mas nunca fui frequentador do bairro.
O Adoniran teve uma relação de amor não só com o Bixiga mas com São Paulo.
E ele acabou escrevendo não só sobre São Paulo mas sobre metrópoles e sobre quem vive nelas, e isso gera indentificação com os causos que ele contava mesmo para quem é de fora de Sampa.
Davi Calil - Só com algumas cantinas. Eu cresci no interior de SP, em Guararema, uma cidade pequena onde rolava muito samba de mesa nos botecos, conheci Adoniran frequentando esses lugares na minha adolescência. Cheguei até a ter um grupo que tocava samba. Tínhamos uma sessão Demônios da Garoa, onde só tocávamos Adoniran.

QUAIS_015

Blogdoorlando – como foi para vc, roger, escrever para outro artista desenhar? E como foi pra vc, calil, desenhar o roteiro de outra pessoa?
Roger Cruz - Esta é a primeira vez que apenas escrevo uma HQ.
Quando escrevi a primeira HQ do Quais, eu pretendia desenhar o projeto e cheguei a fazer  estudos e algumas páginas da Maloca.
Aí, conversando com o Davi, descobri que ele também era fã do Adoniran mas a conversa ficou por aí.
Algum tempo depois, eu estava sem tempo para desenhar a HQ e vi algumas aquarelas do Davi que tinham a cara do projeto.
Resolvi arriscar, o convidei e ele topou.
Os roteiros que passei para o Davi são exatamente os mesmo que faço quando eu vou desenhar.
São esboços de página já com balões e recordatórios, rabiscos rápidos com sugestões de composição de cena e enquadramentos.
Como eu desenho, fica mais fácil rabiscar o que quero na cena do que descrever com texto.
Foi uma experiência muito legal e tranqüila. O Davi é amigo de longa data e artista de quem sou muito fã.
Davi Calil - Desenhar um roteiro do Roger Cruz foi demais. O Roger é um baita profissional de HQ e sempre fui fã do trabalho dele. Várias das páginas do roteiro ele me enviou com sugestões de ângulos de câmera o que ajudou a incrementar muito a narrativa. O legal é que ao mesmo tempo que ele deu várias sugestões também me deixou a vontade pra fazer o que eu queria, no estilo e técnica que eu preferisse. Foi ótimo, um puta aprendizado.

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Blogdoorlando – e como foi o processo? O quanto um interferiu no trabalho do outro?
Roger Cruz - Em alguns momentos, discutimos sequências nos roteiros, em outros, sobre a arte.
Trocamos muitas idéias durante todo o processo todo mas cada um teve autonomia para decidir como e o quê fazer para contar as histórias do álbum.
Davi Calil - Sim, foi como um bate bola. Eu mandava uns esboços de personagens, o Roger já usava o design deles nos esboços de páginas, depois eu via tudo e desenhava no papel de algodão pra poder pintar em guache ou aquarela (variei as técnicas de uma história pra outra.

QUAIS_008

Blogdoorlando – quanto tempo levou da concepção até o livro pronto?
Roger Cruz - Escrevi a Maloca em 2011. Mas como a história ficou na gaveta por muito tempo, acho que é mais certo contar a partir do momento em que recebemos o apoio do ProAC.
Penso que levaríamos um ano para produzir o livro com calma, mas tivemos alguns atrasos causados por problemas com os direitos das músicas.
Não me lembro precisamente, mas acho que levamos um ano e meio, da concepção ao livro impresso.
Davi Calil - Eu comecei a mexer na história da Maloca no final de 2011, parei por uns meses, inscrevemos o projeto no Proac e quando fomos selecionados retomamos a produção. No final de 2013 eu finalizei a última das 75 páginas. Em 2014 nós fizemos os ajustes finais (revisão de texto, ilustras para capa, abertura de capítulos) pra poder lançar em julho.

QUAIS_033

Blogdoorlando – vcs têm algum outro projeto juntos em vista ou esse deu a conta?
Roger Cruz - A experiência foi muito boa e acho que a dupla funcionou bem pra caramba.
Já conversamos sobre outras possíveis parcerias mas ainda não temos nada certo.
Talvez na próxima, trocando funções ou trabalhando juntos na mesma página.
Mas, por enquanto, os dois tem trabalhos e projetos pessoais pra tocar.
Davi Calil - Pois é, a parceria funcionou muito bem. No momento eu estou investindo em projetos pessoais, mas não descarto a possibilidade de trabalharmos juntos no futuro.

 

serviço:

exposição de originais e lançamento do álbum
quaisqualigundun

de roger cruz e davi calil
100 páginas
papel couche fosco 80gr
capa cartonada
galeria ornitorrinco
av. pompéia, 520
pompéia – São paulo – sp
dia 12.08.2014
a partir das 18h

para comprar pela internet :

http://ugrapress.webstorelw.com.br/products/quaisqualigundum-roger-cruz-e-davi-Calil

preço: R$45

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


cartunista reinaldo lança o “a arte de zoar” na flip e no rio
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Orlando

reinaldo figueiredo é humorista, cartunista, ator, baixista e gente finíssima.
o texto poderia terminar aqui mas cabe mais um pouco.
reinaldo, junto com hubert e cláudio paiva, fez parte da segunda geração de cartunistas do semanário pasquim, editado entre os anos 70 e 80.
ele, inclusive, chegou a ser um de seus editores.
com hubert e cláudio paiva fundaram o planeta diário, tablóide de humor que depois se fundiu com o casseta popular dando lugar ao casseta&planeta.
casseta&planeta viraram programa de humor onde reinaldo eternizou, entre outros, o personagem devagar franco, sátira ao ex-presidente itamar.

o cartunista reinaldo está lançando mais um livro, o a arte de zoar, uma coletânea de cartuns e quadrinhos publicados no jornal o globo, piauí e playboy entre outros.
não bastasse os cartuns serem uns melhores que os outros, foram valorizados pelo lindo projeto gráfico de marcelo martinez, do laboratório secreto do rio de janeiro.

a estréia do livro acontece na flip, em paraty, a partir de quarta-feira, dia 31.
reinaldo e hubert, aliás, abrirão o evento ao lado do cartunista jaguar e vão falar sobre millôr fernandes, o homenageado do evento.
abaixo, entrevista com o zoador:

Zoar 01

blogdoorlando – o pasquim foi o primeiro lugar que vc publicou? como vc se tornou um cartunista?
Reinaldo - Sim. Quando me perguntam como eu cheguei no Pasquim eu respondo “Cheguei a pé'', porque morava perto da redação do jornal. Fazia desenhos para mim mesmo e nunca tinha publicado nada. Um dia criei coragem e fui lá no casarão da ladeira Saint-Roman, em Copacabana. O Jaguar e o Ziraldo me receberam muito bem, gostaram dos desenhos e publicaram logo uma página inteira com meus cartuns. Aí comecei a mandar desenhos toda semana, depois passei a frequentar a redação, fazia ilustrações, etc. Fiquei lá de 1974 a 1985, e, na minha última fase, fui um dos editores.

Zoar 08

blogdoorlando – o brasil sempre foi o país da piada e tinha uma tradição muito forte de cartum. vc acha que de certa forma a charge fez sombra para a velha e boa piada?
Reinaldo - É que a atualidade sempre interessa a mais gente…os detalhes da política, os escândalos, as fofocas das celebridades, essas coisas. A piada pela piada, o cartum de humor puro e atemporal sempre tem menos apelo, infelizmente…

blogdoorlando – passada a ditadura e sem inimigos claros, vc acha que a charge perdeu o sentido?
Reinaldo - Não, é claro que não perdeu o sentido. O humor político não funciona só nas ditaduras ou regimes fechados ( aliás, aí mesmo é que quase não existe, com censura prévia e jornais fechados, etc…). A charge faz sentido em qualquer lugar e época. É um tipo de jornalismo de humor.

Zoar 07

blogdoorlando – seu livro traz cartuns e quadrinhos sobre vários temas. como vc os escolhe?
Reinaldo - Não é nada muito planejado, são temas que eu acho que dariam uma boa piada. Eu só me preocupo em fazer uma coisa que não fique tão datada, que também possa ser compreendida daqui a algum tempo. E, na verdade, ultimamente tenho evitado um pouco temas políticos. Tenho preferido os temas culturais,  tipo segundo caderno. Mas agora, com a campanha eleitoral, muita coisa bizarra vai acontecer. Então, acho que vai ser difícil evitar…

blogdoorlando – qual sua rotina de trabalho na prancheta e qual sua relação com os instrumentos digitais?
Reinaldo - Não tenho muita rotina. Pode ser a qualquer hora. Geralmente quando começo a desenhar já tenho uma imagem pronta na cabeça. Faço uns esboços, umas tentativas e depois parto para o desenho final. No momento, estou usando muito caneta tinteiro molhada no naquim e, depois, aquarela para colorir. Uso o computador  para fazer alguns últimos retoques e, às vezes, para aplicar uma cor chapada no fundo. Mas para este livro, colori no computador vários desenhos que tinham sido publicados em preto e branco.

Zoar 06

blogdoorlando – com o programa na tv o cartunista tomou forma ou seja, saiu das sombras de um estúdio solitário. como vc lida com essas duas personas?
Reinaldo - Sem problema. São os dois lados da mesma moeda. Na TV usei muito do meu lado desenhista para ajudar na caracterização de vários personagens. No personagem Devagar Franco, por exemplo, eu ajudava as cabeleireiras a “desenhar'' o topete do Itamar . Era uma caricatura viva.

Zoar 03

blogdoorlando – a garotada sempre produziu fanzines, geralmente xerocados e mal acabados. hoje podem fazer um zine com acabamento profissa e pipocam encontros como a feira plana, em sp; a parada gráfica, em porto alegre ou a comicon, no rio. como vc vê essa onda? vc recebe coisas de novatos?
Reinaldo - Estou acompanhando. Já fui a vários desses eventos. Infelizmente, perdi alguns…Tem muita coisa boa: os caras da revista Beleléu, a editora Bolha, a editora Lote 42, o Bruno Maron e a turma da novíssima revista Xula…

blogdoorlando – e parece que, na contra-mão, o livro de humor está voltando…
Reinaldo - Tomara que sim…Meu modesto desejo é que esse meu livro se torne um best-seller. Se o livro de poesia do Paulo Leminski , contra todas as expectativas, foi para a lista dos mais vendidos, por que o público em geral não pode se interessar por um livro de humor gráfico? E ele é bom porque não é um e-book… É um Book, com B maiúsculo, um objeto muito bem bolado pelo diretor de arte Marcelo Martinez…

Zoar 02

blogdoorlando – quais seus próximos projetos?
Reinaldo - Tenho um projeto, mas não de humor gráfico. É um programa de TV, sobre música e humor. O título é “Música Para Zoar''…

Zoar 05

a arte de zoar
de reinaldo
editora objetiva
144 páginas
full collor
lançamento na flip a partir do dia 31.07.2014
lançamento no rio:
14.08.2014
livraria da travessa
r. visconde de pirajá, 572 – ipanema
a partir das 19h
preço: R$49,90

 

 

 

 

 

 

 

 


sib critica avaliação de ilustração em prêmios e concursos literários
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Orlando

a sibsociedade dos ilustradores do brasil, vem ao longo dos últimos 13 anos pautando questões da atividade de ilustradores e artistas gráficos.
uma das pautas é a forma como a ilustração é avaliada nas principais premiações literários como o jabuti, por exemplo.
a literatura – e especialmente a infantil e juvenil – tem alcançado níveis de excelência internacionais com ótimos projetos gráficos e um destaque inédito do desenho em livros com textos e nos chamados livros de imagem.
muitas das obras logram sucesso de vendas e em concursos exatamente por conta desses princípios mas acabam premiados como se somente o texto fizesse parte delas.
questionando esses critérios, a sib publica em seu site uma carta aberta que pretende abrir a discussão e promover uma reflexão sobre critérios que já não espelham a realidade do livro ilustrado no país.
abaixo, a carta na íntegra:

 

Livro ilustrado = texto + ilustração

Os livros atualmente editados no Brasil, em particular aqueles ilustrados, têm colhido elogios. O segmento editorial brasileiro tem oferecido aos leitores um montante considerável de obras bem cuidadas, projetadas e caprichosamente ilustradas. A força da literatura brasileira tem sido reconhecida em todas as praças, inclusive nos eventos literários internacionais – Bogotá, Frankfurt, Bolonha, Caracas – e  ainda mais destaque adiante terá – em Paris, Londres e Nova York, segundo se diz – já a partir de 2015. Um desempenho notável, em boa parte justificável pela qualidade editorial e pela excelência das ilustrações pelas capas e no miolo de livros para públicos diversos.

Já há algum tempo, na lista fechada da Sociedade dos Ilustradores do Brasil, temos discutido contudo sobre alguns pontos controversos. Muito embora haja consenso em torno do mérito, na prática, detectamos a necessidade de ajustes finos nos contratos que assinamos com as editoras e nos critérios de análise crítica destinados ao objeto livro ilustrado. A maioria concorda que uma obra literária contemporânea, quando ilustrada com generosidade, é fruto do enlace autoral entre duas expressões: a palavra e a imagem. Muitas vezes ousando alternar distanciamentos e aproximações furtivas. Recursos que se cruzam, por vezes se bicam, e também se afagam. Tanto faz o tom dessa relação íntima. A condição de autor é também hoje – tanto para o escritor quanto para o ilustrador – um pressuposto burocrático obrigatório nas inscrições de obras ilustradas em editais e vendas especiais.

Algumas ilustres reflexões sobre o Jabuti e outros prêmios literários.

A despeito disso, persiste um certo desconforto entre ilustradores e escritores com relação aos critérios seletivos aplicados (ou não aplicados) à ilustração por alguns dos mais consagrados concursos literários do país. Focamos aqui o tradicional Prêmio Jabuti, promovido pela Câmara Brasileira do Livro (CBL), o Prêmio Literário Fundação Biblioteca Nacional, da respectiva instituição (FBN) e o Prêmios Literários da Academia Brasileira de Letras. E realçamos, como um contraponto positivo, a perspectiva da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, que há anos certifica obras em categorias bem estruturadas e a partir de critérios mais assertivos e mais justos. Que fique claro: antes deste dossiê, muitos colegas já enviaram seus questionamentos aos organizadores dos primeiros dois concursos citados. Procuramos apurar as respostas, no entanto, não logramos obtê-las.

Decidimos enviar esta carta aberta aos representantes da CBL, da FBN e da ABL, bem como tornar público o debate, com o intuito de obter respostas e esclarecimentos sobre os pontos relevantes logo abaixo discriminados, que foram levantados por diversos colegas ilustradores:

Prêmio Jabuti

Entre as categorias, registramos as seguintes questões (vide categorias):

categoria_Melhor Capa

Esta categoria deve assegurar que todos os colaboradores criativos sejam citados. Embora o prêmio seja conferido ao designer responsável, que assina o projeto gráfico, a participação autoral do colaborador – muitas vezes bastante significativa – precisa ser registrada.

categoria_Melhor Livro Infantil

Aqui há mais um problema substancial. O livro ilustrado remete à sinergia da canção popular. O texto está para a letra, assim como a ilustração está para a música. Nos melhores momentos, uma dimensão é indissociável da outra. Ou seja, o “Melhor Livro Infantil” resulta da combinação entre as duas abordagens narrativas. Ambas precisam ser reconhecidas nos livros mencionados. Fosse para julgar apenas o conteúdo de texto, o regulamento deveria solicitar aos concorrentes que submetessem ao júri tão somente o conteúdo de texto original.

categoria_Melhor Livro Juvenil

Nesta categoria, em geral, a contribuição autoral do ilustrador tende a ser menos significativa. Se sua participação for excepcional, mais relevante que de hábito, adequado nos parece premiá-lo também. Assim como na categoria supracitada, o conteúdo de texto é que deveria ser avaliado, desacompanhado de projeto gráfico e ilustrações.

NOSSAS SUGESTÕES:

> Para contornar os aspectos acima mencionados, em vez das quatro atuais sugerimos sete categorias:

Melhor Texto de Literatura Infantil (a contemplar somente o texto)

Melhor Texto de Literatura Juvenil (a contemplar somente o texto)

Melhor Livro Infantil (a contemplar texto e ilustração)

Melhor Livro Juvenil (a contemplar texto e ilustração, quando devido)

Melhor Ilustração (a contemplar somente a ilustração nos livros adultos)

Melhor Ilustração de Livro Infantil (a contemplar somente a ilustração infantil)

Melhor Ilustração de Livro Juvenil (a contemplar somente a ilustração juvenil)

> Além disso, também recomendamos que especialistas em texto e imagem na literatura infantil e juvenil sejam sempre convidados a integrar a comissão julgadora.

Prêmio Literário Fundação Biblioteca Nacional

Neste concurso promovido pela FBN muitos estranham a ausência de pelo menos uma categoria relacionada à ilustração, pelos motivos já mencionados. Premia-se o projeto gráfico, por um lado. Mas a produção autoral de ilustração, que nos parece também significativa do ponto de vista da contribuição literária, não é contemplada. É no âmbito da literatura infantil e juvenil, sublinhamos, que ocorrem as mais ousadas experimentações de linguagens, as mais criativas arquiteturas poéticas e sintaxes cruzadas. O público leitor, de todas as idades, é mais amplo, permeável e entusiasmado. Os livros ilustrados também são mais expressivos estatisticamente, tanto na produção, quanto no reconhecimento crítico e nas vendagens. Daí o nosso questionamento.

Ilustríssimos representantes da Câmara Brasileira do Livro, da Fundação Biblioteca Nacional, da Academia Brasileira de Letra e de outras instituições organizadores de prêmios e concursos, o debate está aberto. As suas considerações podem ser enviadas para o email contatosib@sib.org.br aos cuidados do Conselho da SIB. Estamos ansiosos por recebê-las. Participem.

Prêmios Literários da Academia Brasileira de Letras

A Academia Brasileira de Letras também contempla escritores de diferentes gêneros literários, inclusive os de Literatura “Infantojuvenil”, mas ignora a coautoria narrativa dos ilustradores. Tanto o escritor quanto o ilustrador merecem receber, quando devido, o Prêmio ABL de Literatura “Infantojuvenil”. Questionamos também a expressão, grafada aqui entre aspas, porque há um problema de critério. É preciso discriminar a Literatura Infantil da Literatura Juvenil, como há tempos recomendam inúmeros autores e especialistas brasileiros e estrangeiros. Lembramos que muitos eventos, fóruns e festivais pelo mundo têm evidenciado a sinergia autoral cada vez maior entre textos e imagens na produção de obras literárias contemporâneas.


renato guedes salta dos quadrinhos para as telas em são paulo
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Orlando

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é cada vez maior o número de desenhistas que volta ao papel, ao sketchbook, às tintas, pincéis, bico de pena e nanquim.
e é crescente o número de artistas que se atiram rumo às tintas, telas e formatos grandes. são artistas cansados dos limites que o trabalho comercial impõe e, mesmo que continuem trabalhando profissionalmente e cumprindo prazos, dedicam parte do seu tempo a pesquisar novas/velhas técnicas.
renato guedes, reconhecido quadrinista, mestre na arte de fazer heróis serem cada vez mais heróis é um desses.
abre hoje a exposição “imersão'' que traz telas em formatos gigantes e com personagens vivos, melancólicos e cheios de esperanças e dores.
abaixo, entrevista com o artista santista:

blogdoorlando – renato, conte um pouco de seu início de carreira e de como começou a publicar fora.
Renato Guedes - Comecei como ilustrador. Fiz muita publicidade, ilustração editorial e fazia mil trabalhos ao mesmo tempo. Mas queria trabalhar com quadrinhos e concentrar minha carreira aí. Então procurei o estudio Art & Comics, que faz o agenciamento de artistas e contato com as editoras americanas. Preparei um portifolio e logo nos primeiros meses consegui meu primeiro trabalho que foi a adaptação da série Smallville para quadrinhos. Trabalhei entre DC Comis e Marvel Comics por 13 anos.

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blogdoorlando – durante esse período vc tinha outras atividades com desenho? algum hobby fora dele?
Renato Guedes – O meu hobby sempre foi fazer minhas próprias coisas, meu próprio material, seja estudando desenho, pintando e até mesmo brincando um pouco com escultura. O problema que a indústria de quadrinhos demandava todo o meu tempo e nunca consegui ter uma atividade paralela regular.

blogdoorlando – quadrinhos demandam um tipo de paciência diferente do da pintura. fale um pouco sobre isso.
Renato Guedes - Sem dúvida! Principalmente por que a produção de quadrinhos se tornou muito industrial com pouco compromisso com a parte criativa. O ritmo é enloquecedor, os prazos massacrantes e as decisões editoriais que limitam a criação do artista. Então a pintura me serviu como uma válvula de escape em toda essa chateação. Fazer algo que eu gosto, desfrutar o processo e ter um trabalho 100% meu, encontrei na pintura. Uma paixão e também de certa forma uma terapia. Pintar, mexer com o material e poder desenvolver um trabalho sem aquelas interferências editoriais que tanto me chateavam.

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blogdoorlando – a pintura, de certa forma como o cartum e a charge, deve resolver a idéia num quadro só….
Renato Guedes -  Talvez a charge e o cartum precisem fechar uma idéia mais precisa, ser resolvida de forma mais direta. A pintura acho que tem um limite maior de deixar a idéia aberta, muitas vezes apenas sugerida. Acredito que a maneira de compor e chegar ao resultado final dessa idéia e composição, sim, sejam bem parecidos na hora de criar um cartum e/ou uma charge.

03

blogdoorlando – antes de começar a pintar vc esboça no papel ou faz tudo direto ba tela?
Renato Guedes - Geralmente faço um estudo prévio. Muitas vezes um estudo a lápis, um estudo digital de cores e outras vezes um croqui de pintura. Mas prefiro não manter um processo para não me cansar, não me entediar. O processo vai surgindo junto com a idéia e o que pede a pintura e sua composição.

04

blogdoorlando – tem essa opção por figuras solitárias e melancólicas, mulheres bem torneadas. o quanto o quadrinho ainda influencia sua pintura?
Renato Guedes - A influência do quadrinho acho que é muito pouca. Obviamente, 13 anos de mercado americano, de quadrinhos me ajudaram muito no ritmo de trabalho, principalmente na rapidez para compor. Creio que a escolha de ângulos, esboço e até a maneira de trabalhar a luz de uma maneira dramática que me agrade trago da experiência dos quadrinhos. Porém procuro não me pautar na hora de pintar. A idéia é pouco a pouco ir desconstruindo meus processos.

blogdoorlando – e a opção pelos grandes formatos?
Renato Guedes - Quanto aos formatos também acho que é outra maneira de não me limitar. Extrapolar as pinceladas e ter uma área maior para trabalhar me deixam mais livre na hora de trabalhar. Ajuda muito no gestual. O dificil é reduzir o formato! É cada vez maior, vira uma obsessão.

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blogdoorlando – vc gosta de futebol, né?
Renato Guedes - Gosto muito. Já fui mais fanático mas sou um apaixonado por futebol. E como bom santista, acostumado com craques como Pelé, Pepe, Coutinho, Robinho, Neymar, admiro o futebol bem jogado. O mais irônico é que nesse mundo dos quadrinhos quase ninguém gosta de futebol, samba, etc… eu sou totalmente o oposto!

 

 

serviço:
Exposição “Imersão”
Abertura: 22.07.2014
a partir das 19h
de 22.07.2014 a 16.08.2014
Horário: de segunda a sábado, das 10h às 19h
Galeria Ornitorrinco
Av. Pompéia, 520 – São Paulo – SP
Tel.: (11) 2338-1146
Site: www.galeriaornitorrinco.com.br
E-mail: contato@galeriaornitorrinco.com.br
preços sob consulta

Renato Guedes
www.facebook.com/RENATOGUEDES.art

 

 

 

 

 


johnny winter me deu uma das maiores lições da vida
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Orlando

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o lendário guitarrista johnny winter morreu ontem de causas não reveladas em um hotel em zurique, na suiça.
ele estava em meio a uma turne pela europa e se apresentaria nos próximos dias no canadá.

nunca fui um grande fã ou conhecedor de blues mas tinha amigos que sim e que me emprestavam seus disco na década de 70.
minha história com johnny winter acontece no ano de 1983 no também lendário hammersmith odeon, em londres. bandas como duran duran lotavam os teatros da cidade mas londres é uma cidade que abriga fãs de todos os tipos.
por curiosidade, comprei os ingressos e lá fomos nós.
a abertura foi feita por um power trio heavy metal. garotos de 20 e poucos anos que explodiam seus hormônios ainda frescos em saltos, piruetas, muito barulho, caras, bocas e pouca música.
eram, pelo menos, esforçados.

no show principal, o artista texano entra no palco acompanhado somente de seu chapéu preto de cowboy.
pernas dobradas, frágil, parecia que iria cair de tão franzino.
ovacionado pela platéia, faz um ok, a banda entra e um roadie vem pendurar a guitarra em seu pescoço.
a partir dali, tive uma das maiores lições de minha vida.
o guitarrista não mexia nada além de seus punhos e dedos. era quase uma estátua albina mas o som era de uma clareza, velocidade e força hipnotizantes.
ele não precisou fazer caretas, saltar, nem chacoalhar a cabeleira. a música acontecia em algum outro lugar, dos punhos pra frente.
a economia de energia fazia contraponto com as centenas de decibéis que saiam de sua palheta.

saí dali com a certeza de que não precisamos gastar nem desperdiçar tanta energia para fazer o que fazemos.
nunca achei que tantos anos depois estaria eu aqui escrevendo sobre isso.
resta agradecer o toque. obrigado, johnny.
b. good!