Blog do Orlando

ciclofaixas improvisadas podem colocar ciclistas em risco em sp
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Orlando

são paulo é uma cidade que cresceu desordenadamente e hoje paga um preço alto por isso.
na verdade, ela continua crescendo pra cima, com um bum de empreendimentos imobiliários que não se via desde o milagre econômico nos anos 70.
onde havia três ou quatro casinhas, sobe um espigão com algumas dezenas de apartamentos, garagens e muitos, muitos carros.
a ineficiência do transporte público somada à facilidade de crédito para a compra de um automóvel para chamar de seu, fez da cidade uma verdadeira arapuca em que não se consegue ir para lá ou para cá sem que os nervos fiquem à flor da pele.

o prefeito haddad, para alegria de uns e ódio de outros, comprou uma briga e decidiu apertar os carros entre faixas exclusivas para ônibus e outras destinadas a bicicletas.
entre ciclovias e ciclofaixas, a cidade conta com uma malha de mais de 230 km de extensão ainda timidamente usadas para desespero de motoristas afunilados em seus corredores.
ainda que aumentando em número, a maior parte de ciclistas usa esses espaços para o lazer durante os fins de semana.
medo, calor e as sinuosas ladeiras da capital são alguns dos motivos alegados por aqueles que “iriam” para o trabalho de bike caso não tivessem ainda que brigar por espaço com ônibus ou conseguissem chegar lindos e cheirosos ao escritório.

se as faixas aumentarem e forem implantadas ações que dificultem o uso de automóveis, em alguns anos as bicicletas poderão, definitivamente, fazer parte da paisagem urbana paulistana como em outras cidades cosmopolitas do planeta. menos carros, menos barulho, menos poluição.
isso já seria o suficiente para que essa mudança acontecesse.

mas, como todo plano de curto prazo, há falhas. e falhas perigosas que podem colocar em risco a vida de usuários das ciclofaixas.
estas, diferentemente das ciclovias que são planejadas e que possuem um piso uniforme e seguro, são apenas uma tinta vermelha aplicada em cima do péssimo asfalto da cidade. buracos, depressão, bocas de lobo, pedriscos e toda a sorte de imperfeições fazem parte da “pista” de duas mãos que, fosse usada de forma massiva, não comportaria duas bikes no mesmo espaço.

exemplo é a rua joão moura, a meio caminho da estação vila madalena no sumarezinho. fiz o trajeto à noite e voltei na tarde seguinte. é um perigo.
uma distração e a roda pode escorregar ou travar em alguma das centenas de imperfeições da pista.
quando um ciclista vem, o outro é obrigado a invadir o espaço dos carros. a joão moura é uma rua de tráfego intenso e não muito bem iluminada à noite.
a poucos metros da estação, antes de uma curva e do semáforo da av. heitor penteado, a faixa termina. dali pra frente vc que se vire.
o uso de bicicletas é um hábito saudável. faz bem para o coração e para as pernas.

faz bem para as pernas mas nem por isso as ciclofaixas precisam ser feitas nas coxas.

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orlando pedroso lança filosofias em sp e solta o verbo no próprio blog
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Orlando

Capa Filosofias 72

em novembro de 2003 abri uma página no fotolog. ali passei a postar trabalhos pessoais, feitos à mão em grandes formatos e que nunca haviam sido publicados.
em maio de 2006 resolvi fazer do espaço um tipo de diário onde eu pudesse expressar sentimentos e pontos de vista que poderiam partir de experiências pessoais, de histórias ouvidas ou histórias criadas por livre associação.
em um momento, muitos desses micro-contos passaram a ter vida própria e eram criados a partir de fragmentos de conversas, de palavras soltas, de sensações emprestadas.
nesses 8 anos produzi mais de 730 frases. 190 delas estão no livro filosofias baratas me são as mais caras editado pela editora global e lançado hoje, em são paulo, com preço especial.
o prefácio é do frasista gaucho fraga e o projeto gráfico do carioca marcelo martinez.
para não queimar o meu filme e me auto entrevistar, pedi para algumas pessoas que acompanham meu flog e meu trabalho há anos fazerem algumas perguntas. vamos lá:

Marcelo Martinez – Como era sua rotina na criação dos desenhos? Sei que vc costumava fazer no início do dia, como um “esquenta” antes dos outros trabalhos, mas… existia alguma regra mínima? Só um por dia ou podia fazer mais? Havia algum tempo-limite auto-impingido?
orlando - eu chegava muito cedo ao estúdio e havia criado uma página no fotolog, onde postava trabalhos inéditos que vinha produzindo paralelamente ao profissional.
eram desenhos grandes que eu fotografava e postava sem muito critério.
como adoro me dar obrigações, decidi que faria um desenho por dia para o fotolog e as frases começaram quase que por acidente.
eu abria um bloco, olhava o papel, ele pra mim e saia algo. desenhava, pintava, fixava, escaneava e postava no flog. isso durava uma hora e pouco, provavelmente. aí o dia começava. fiz isso religiosamente por meses. uma frase por dia.
aí é aquele momento em que a criatura domina o criador e as frases brotavam do nada, no sono, no banho, na espera do dentista.
o rigor e a disciplina do início deram lugar a algo, digamos, mais inspirado.

Aponto 72

Fabio Moon – Você é um artista de diversas técnicas, do lápis às canetas nanquim, das tintas ao photoshop. Quanto da escolha do material para cada trabalho é consciente, e quanto é por acaso, pela proximidade da mão no momento da criação?
orlando - eu gosto de experimentar, de sujar a mão e a descoberta de possibilidades é um exercício fascinante. há mistérios, como a aquarela, por exemplo. tenho dificuldade, tenho medo.
mas uso as tintas de forma não acadêmica, adapto ao meu jeito e às minhas limitações.
O que me interessa é desenvolver o que eu chamo de “inteligência gráfica” que é o que permite seu trabalho ser identificável independente do material que se use.

Fabio Moon – No caso em questão, como você chegou na escolha dos matérias usados no livro: frases em “giz?'' preto, desenhos em tonalidades quentes (mesmo quando temperados com alguns verdes e azuis) e essa cara forte do “feito à mão''?
orlando - desde sempre eu gostei do gestual, da marca do pincel no papel. eu havia descoberto o lápis sangüine. vi o argentino crist trabalhando com ele e fiquei apaixonado. aí fiz uma miscelânea: lápis carvão preto, sangüine e lápis caran d’ache aquarelável.
fui descobrindo o que e como fazer durante o processo.
a tipologia, por exemplo, foi mudando dia-a-dia e ficou mais solta e agressiva.

Sim meritissimo

Xandolino – Como foi o processo de ilustrar as frases? Você juntava um punhado delas para ilustrar depois ou a concepção visual já vinha na sequência do texto?
orlando - eu considero o “filosofias” um livro de texto, literatura. os desenhos não tem importância nenhuma a não ser em alguns poucos casos em que estão entrelaçados para a compreensão, como no caso dos enforcados ou do seu pinto.
a princípio eu fazia as frases na hora. depois elas começaram a se acumular nos caderninhos e eu as ia finalizando conforme o tempo e disposição. passada a fissura, mantive uma freqüência mas sem me estressar.

Spacca – “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar” definem você e a sua arte?
orlando - mais ou menos.
é verdade que dou muita chance para o acaso, pros bons e maus ventos mas gosto de ter o controle. justamente o legal de nosso trabalho é vc ter um certo rigor, disciplina e ainda dar chance para o improviso e o erro.
eu, aliás, acho que as grandes descobertas acontecem exatamente aí.A quimica

 

Spacca – Num poema desenhado, ou num desenho poemado, quem ilustra quem?
orlando - nesse caso específico, faço questão de diminuir a ilustração a uma quase insignificância.
no filosofias o texto sempre veio antes. ele que reina.
o desenho é, nesse caso, aquilo que nós profissionais detestamos: um tapa buraco, um enfeite.
apesar de achar que tem alguns desenhos bacanas, confesso que tive esse desejo sádico de fazê-los enfeites.
me perdoe.

Xandolino – As frases sempre lhe vieram prontas, como aparecem no livro, ou havia um processo de ‘lapidação’ até chegar na estrutura ideal? O mesmo aconteceu com as ilustrações?
orlando - algumas vêm prontas, como se alguém soprasse no ouvido. outras vem em fragmentos. anoto e retomo. em alguns caso dá certo mas em outros boto pra dormir mais um pouco. muitas vezes por meses. há os casos daquela que vc acha pronta, lê no dia seguinte e pensa: que merda é essa? o que eu queria dizer?

Cabelereiro

Fabio Moon – Quem é mais importante no livro: a palavra ou a imagem? Quem carrega quem? Ou quem carregou, lá no início, quando essa brincadeira começou?
orlando - o mais importante é o conjunto, a combinação inédita de frase e desenho mas o texto sempre vem antes. ele é o que carrega a idéia, a rima, a sacada.
sempre fui fã de frases. adorava o leon eliachar que publicava na revista manchete lá no início dos anos 70, millôr, stanislaw ponte preta, barão de itararé e, mais tarde, dalton trevisan.
lá pelas bandas de 2006 eu estava lendo e relendo suas micro histórias. ele é capaz de contar uma com começo, meio e fim em duas ou três linhas.

Ricardo Antunes – O Orlando é um ilustrador que gosta de poesia e texto ou um poeta que gosta de ilustrar?
orlando - o orlando é salada mista. não é um poeta. isso seria pretensão.
gosto de desenhar, gosto de brincar com palavras, gosto de fotografia e artes gráficas.
se existe uma mágica, é a de juntar tudo isso e dizer: sou eu!

Para ele

Xandolino –  Ao longo dos anos, enquanto concebia as ‘filosofias baratas’, quais outros autores você conheceu que lhe inspiraram ou que até tinham um estilo semelhante mas você não conhecia?
orlando - sempre volto aos que citei acima.
os relançamentos dos livros do millôr recentemente e a coletânea do leminsky foram gratas surpresas.
e sempre tem os queridos luis solda, de curitiba e o fraga, de porto alegre (que aliás fez o prefácio do livro), que são mestres do frasismo.
o seu trabalho mesmo, xandolino, conheci por essa afinidade e gostei muito.

Marcelo Martinez – A série das “Árvres” pintou no meio da produção do “Filosofias”, não? Vc pretende continuar com as filosofias, abrindo espaço para eventuais outras séries no meio, ou o vasto material produzido (que acredito que já daria um segundo volume) já satisfaz sua sede filosofal?
orlando - eu faço várias coisas ao mesmo tempo e isso não é um grande problema para mim. o importante é eu estar “embalado”. Um desenho pede outro e quando vc vai ver, tem uma centena deles.
continuo fazendo frases e, acredite, postando no mesmo fotolog de sempre.
pra quem não sabia onde isso iria dar, já tenho um bom número, não?

Decidiu ficar

Rubens Menezes –  Está no título que essas filosofias lhe são as mais caras, e apenas dias atrás você lançou “Com a palavra, O Ilustrador'' em parceria com a Ale Kalko e o Negreiros, pela Mandacaru, além disso de longa data você mantém um blog no UOL com mais opiniões escritas do que ilustrações. Nós estamos vendo o começo de uma nova fase para o Orlando Ilustrador, um Orlando Escritor? E vem mais por aí?
orlando - por um motivo ou outro, sempre escrevi. não com método, não com intenções literárias mas sempre escrevi.
aí volto à história das limitações. não consigo me ver escrevendo um romance, por exemplo. sou muito imediatista e acho difícil que tenha fôlego para escrever algo além de pequenos contos.
ao mesmo tempo, o projeto da mandacaru e o blog me fazem refletir, puxar pela memória (que, cá entre nós, não é das melhores) e juntar peças. às vezes dá certo. :>)

Rubens Menezes – Já faz um tempo que te vemos variar e experimenta novos suportes, indo de papel kraft em formato grande até o iPad. Qual é o seu suporte predileto? Onde você se sente “jogando em casa'' quando está desenhando?
orlando - pois é, a gente se sente confortável em alguns formatos e isso pode ser um perigo. é ótimo quando vc precisa apagar um incêndio e resolver um desenho para um jornal ou revista mas se arriscar é fundamental.
a cobertura da flip foi um desses desafios. eu tinha um ipad fazia mais de ano mas nunca tinha feito nada nele que não rabiscar uma coisinha ou outra.
aprendi a lidar com o programa um pouco mais de uma semana antes do evento e a adrenalina de vc ter que resolver ideia, desenho, técnica, envio, etc, é indescritível.
no trabalho, definitivamente, eu gosto de estar na zona de guerra.

Fraga – Ilustração, cartum, foto, frase, oficinas. Nessa altura do seu baita portfólio, o que ainda falta experimentar?
orlando – nossa, tanta coisa… uma relação homoafetiva, por exemplo… :>)
mas, veja, estou chegando naquela curva de idade em que vc tem a clara sensação de que não vai dar tempo de tudo. nem de produzir tudo, de viajar muito, de falar outras línguas, de conhecer mais gente, de não ter que pensar em grana, de ler mais livros, visitar mais museus e galerias.
meio pessimista, mas real. eu, aliás, me considero um otimista cético.

Fraga – Há cada vez mais desenhistas e menos mercado. Se fosse convidado pra ministro da economia/cultura/ trabalho, que agitos tentaria na área?
orlando - cada vez fica mais claro que as coisas só acontecem com dinheiro. num país com economia forte tem para todo mundo. o dinheiro, evidentemente, não traz criatividade mas atrai e banca criativos.
vc vai dizer que na miséria também tem gênios e eu vou concordar. várias das artes brasileiras vêm dos morros, do agreste e de outras áreas menos favorecidas.
viver dessa arte é que é o nó.
a grana permite que a arte seja produzida e consumida.Dizimo

 

Ricardo Antunes – O tema mais recorrente em suas frases ilustradas são as relações afetivas, em especial o quanto é complicado amar. O amor e a paixão vão continuar sendo sempre uma boa fonte de inspiração para a ilustração/poesia/música?
orlando - sim, sempre serão. e é incrível como a gente precisa falar sobre isso.
mergulhando no processo, vc começa a se interessar por tudo quanto é assunto e a ser um observador mais atento a detalhes. um olhar, um adjetivo, uma lembrança, amor, sexo, traição, afetividade, carinho. uma pitada de piada ou uma rima improvável e o caldo está feito.

Ricardo Antunes – É frequente encontrar ótimos ilustradores que também escrevem bem, provavelmente por lerem muito e pela pesquisa constante. Qual a importância do texto para você como ilustrador?
orlando - ilustrador é um bicho estranho. se esconde, tem dificuldades em demonstrar afeto, de manter um círculo de amizades. talvez a maioria de nós se esconda atrás de textos alheios e se sinta protegido aí.
as listas na internet mostraram que muitos de nós escrevem, conseguem colocar uma ideia em pé e defendê-las.
isso é muito bom e pode ser um começo.
muitos já se arriscam a produzir suas próprias histórias para livros infantis, por exemplo.
saber ler é outro ponto fundamental para a profissão. sem saber ler e interpretar um texto, o desenhista pode desistir de ser um ilustrador.

Gostava

Cecília Laszkiewicz – Lavou a alma?
orlando - cada trabalho legal é uma forma de lavar a alma. o filosofias ficou guardado muito tempo esperando ser publicado e isso aconteceu na hora certa. ficou lindo, como eu queria.
o formato, as cores, o quanto as pessoas se identificam com os textos fazem dele algo muito especial.

Cecília Laszkiewicz – A frase que faria pra essa matéria é :  
orlando:
disse
tudo,
disse
como
queria.
enquanto
ele
chorava
o
povo
dançava
e
ria.

 

Filosofiasflyer2

vendas pela internet a partir de quinta-feira, dia 4.

 

 

 

 

 

 

 

 


chupar pode ser gostoso mas copiar é fundamental
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Orlando

Perereca

um dos grandes dramas dos novatos é achar seu estilo.
a palavra causa tremores e a obrigação de se achar uma forma absolutamente pessoal de desenhar pode ser uma tortura especialmente em tempos como os nossos em que temos tudo à mão mas pouquíssimas referências.
explico: muitos dos profissionais (de imprensa, especialmente) começaram a desenhar e a desejar publicar porque viam páginas duplas, desenhos maravilhosos e bem editados em jornais e revistas.
hoje, talvez, tenhamos mais títulos nas bancas mas, ironicamente, menos espaço para publicar e os que publicam também estão aprendendo como os novatos que ainda brigam consigo mesmo em seu próprio quarto.
por outro lado, temos em um simples monitor, o mundo. museus, exposições, publicações, blogs e sites. mas não é a mesma coisa.
a publicação na banca demonstra que alguém pode viver de seu desenho, que ser profissional é estar lá e com as contas pagas.
profissionais também vivem esse drama. vivem comparando seu trabalho com os dos colegas, vivem se questionando se o desenho não está envelhecendo, se a fonte de ideias está secando.
eu mesmo tinha mais de 10 anos de profissão e vivia às turras com meu traço, com a não intimidade com certos materiais e com uma inevitável inveja branca quando via algum desenho matador publicado aqui e ali.

pois bem, tenho falado muito sobre isso com garotos que me procuram para mostrar portifolio.
todos, sem exceção, se desesperam na tentativa de achar um traço para chamar de seu, para desenhar mãos, desenhar pés, dar expressão, usar perspectiva e eu digo simplesmente que tudo já está inventado e o que nos resta é copiar. sim, copiar.
copiar é diferente de chupar.
copiar é estudar o trabalho de outro para entender como ele chegou lá.
num “piratas do tietê”, do laerte, por exemplo, tem tudo para se começar bem. tem anatomia, uma infinidade de expressões, profundidade, perspectivas, navios, movimento, claro/escuro, arquitetura e mãos, muitas mãos.
copiar o laerte é um bom começo.

modelo vivo é sempre outra boa opção mas nem sempre se pode ter um profissional à mão. podemos, então, observar os passageiros do metrô, do ônibus, transeuntes na rua, parentes em casa. modelos não precisam, necessariamente, estarem pelados.
e se a questão é anatomia, vamos aos gregos. nas estátuas gregas encontramos todos os músculos e posições que precisamos para entender o corpo humano. um bom livrou ou o querido google resolvem fácil.

quando falo em copiar, os olhos se arregalam mas, como disse, copiar é diferente de chupar. vc copia para aprender, para entender, não para mostrar para os outros ou colocar no portifolio.
se a gente copiar um, o outro, mais outro, mais aquele e tantos quanto puder dos quadrinhos, da ilustração até os pintores clássicos, mais chance de se criar um repertório próprio. ele será a soma de tudo o que se copiou mais o que se descobriu de si próprio passado por uma peneira.
o que pingar no papel é nosso estilo.

coincidentemente estou lendo “vida”, a biografia do guitarrista dos stones, keith richards e o que me chamou a atenção logo de cara (fora o fato de ele ter tomado todas e ainda assim se lembrar de coisas) é a obsessão por tentar tocar igual aos guitarristas de blues de chicago. ele e mick jagger queriam chegar à crueza daquele som e, para isso, colocavam a bolachona na vitrola e faziam infinitas sessões de escuta e tentativas.
ele não queria ser um compositor. queria ter uma banda que soasse como um jimmy reed, como jimmy rogers, pat hare, caras que tocavam com muddy waters e chuck berry.
escutar, escutar, copiar as notas, tentar reproduzir.
vc só fica bom repetindo à exaustão.
keith não perseguia seu estilo. queria ficar bom como os heróis americanos que ele escutava nos compactos simples que conseguia com amigos em londres.
anos depois, numa dessas encruzilhadas, percebeu que conseguia compor algo, que era bom em criar riffs, que podia decidir por uma afinação mais aberta e, finalmente, ter sua assinatura em algumas das músicas mais importantes do rock mundial.
keith richards todo mundo conhece. e ele começou copiando.
o truque está em saber o momento de se desgarrar de seus mestres e passar a ter uma identidade, um dna reconhecível.

no desenho, é a mesma coisa. treino, observação, repetição, curiosidade.
se dar a liberdade de errar e tirar proveito disso.
o estilo, aliás, pode estar escondido atrás de erros e não na tentativa de se fazer tudo certinho mas isso a gente só descobre fazendo.
e fazer dá um certo trabalho.

 

 

 

 


caco galhardo lança coletânea de tiras de lili, a ex
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Orlando

capa lili
caco galhardo começou publicando a tira os pescoçudos na folha de s. paulo em 1996. de lá para cá, criou uma série de personagens que tratam de relacionamentos ou da falta de, como chico bacon e a lili, uma ex que vive para infernizar a vida do pobre do reginaldo.
lili, agora, vira livro e reúne uma seleção das melhores tiras publicadas na folha.
toninho mendes, que edita o livro, diz:
“Lili é uma personagem que segue uma tradição marcante no desenho de tiras e quadrinhos no Brasil. Desde J.Carlos com sua Melindrosa, passando pela Super Mãe de Ziraldo, A Tânia da fossa de Jaguar, A Mônica de Mauricio de Souza, O Casal Neuras de Glauco e a Rê Bordosa de Angeli. Lili é contemporânea e satiriza uma situação cada vez mais constante no casamento: as separações, o ciúme e um sentimento de perda generalizado que se transforma em raiva, ódio e vingança. Tudo trabalhado com ironia e um humor fino e cortante.”

abaixo, entrevista com reginaldo. quer dizer, caco:

blogdoorlando – vc já tem uma boa galeria de personagens. como surgiu a lili?
Caco Galhardo - Minha ex-mulher ficava horas no telefone com suas amigas recém separadas, falando sobre seus ex-maridos. Comecei a achar graça e criei a personagem da mulher obsessiva pelo ex.

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blogdoorlando – vc, aliás, tem algum personagem preferido?
Caco Galhardo - Chico Bacon e Lili.

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blogdoorlando – a lili, como outros personagens femininos de quadrinhos é rodeada de dilemas e tormentos. isso é uma sina delas?
Caco Galhardo - Obsessões são uma poderosa fonte para quem trabalha com humor. Nesse aspecto, a psiquê feminina é um prato cheio.

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blogdoorlando – a lili foi adaptada para a tv. como foi a escolha da maria casadevall e o quanto vc ficou contente com o tratamento dado à série?
Caco Galhardo - Comecei a desenvolver esse projeto há dois anos, pelo meu interesse em dramaturgia e a vontade de participar desse momento incrível da televisão. A experiência foi riquíssima, um puta aprendizado e o resultado foi melhor que o esperado, tô muito feliz com a série. A Maria Casadevall foi indicação do diretor Luis Pinheiro e foi, disparado, o maior acerto da série. Ela é uma atriz genial.

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blogdoorlando – o livro traz alguma tira inédita? como foi feita a edição?
Caco Galhardo - É coletânea das tiras publicadas na Folha. Foi idéia do Toninho Mendes, uma figura lendária, mitológica, pontual na HQ nacional. Foi um prazer enorme fazer esse livro com o Toninho, ele amarrou tudo de um jeito muito legal, com o lançamento do livro casado com a exposição dos originais na Galeria Ornitorrinco. Todas as tiras já estão num site de pré-venda: http://liliaex.lojaintegrada.com.br/.

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blogdoorlando – vc estava trabalhando no texto de uma nova peça de teatro. como está isso?
Caco Galhardo - Já estou com uma nova peça escrita, chama “Flutuante''. Agora é levantar grana, produção, elenco, sala. Dá um trabalho da porra, mas a recompensa é imbativel. Se tudo correr bem, estréia ano que vem.

covite caco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


revista as periquitas reúne produção feminina em desenhos e textos
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Orlando

maria claudia frança nogueira, a cartunista crau da ilha nasceu em 1956 mas é cria, de fato, do “grilo”, “balão” e “pasquim” publicados no início dos anos 70. depois, colaborou com “o bicho”, editado pelo fortuna, fazendo cartuns, textos e ajudando na produção.
em 1977 foi morar em ilhabela, litoral de são paulo, e trabalhou com várias publicações como imprensa livre, jornal da ilha e diário do litoral norte, entre outras.
foi funcionária pública, fez ativismo ambiental, escreveu 3 livros, trabalhou num projeto de resgate do samba caiçara.
hoje, morando em florianópolis, estuda engenharia de aquicultura e tem um taxi.
com a facilidade da internet conseguiu encontrar antigas parceiras e retomar a idéia de uma publicação que reunisse a produção de mulheres cartunistas, ilustradoras, quadrinistas, escritoras.
nasce, assim, com o apoio da pesquisadora cris merlo e do editor franco de rosa, a revista as periquitas.
mariza dias costa, ciça alves pinto, claudia kfouri, natalia forcat, germana viana e lorena kaz (que assina uma das duas capas) são algumas das integrantes. há, também, a participação da tatuadora carla rissatto e uma longa entrevista com laerte.
abaixo, entrevista com crau:

Capa Crau

blogdoorlando – como surgiu a idéia de uma publicação só com mulheres?
Crau - Foi ainda no milênio passado quando reencontrei pessoas do meio, o Gualberto e o JAL. Eu havia passado um longo tempo atuando em outras áreas e, eventualmente, desenhando mas fora dos grandes centros. Gualberto, alegando que quase não havia cartunistas mulheres, provocou: – Por que será que as mulheres começam a fazer mas não persistem no cartum? Respondi: Pois, agora, estou pensando em fazer uma revista de mulheres cartunistas. Ele e o JAL adoraram a idéia e logo me passaram o contato de dezenas de meninas que estariam fazendo cartum e quadrinhos. Era o início dos anos 90 e poucas pessoas usavam o computador, muito menos a Internet. Escrevi cartas para quarenta mulheres que, ou desenhavam, ou faziam roteiros, ou criavam histórias completas ou cartuns, de que fui tendo notícia, pelo Brasil afora. E elas chegaram a me mandar trabalhos. Foi o primeiro movimento nesse sentido, mas como eu morava no mato e não tinha estrutura alguma para produzir uma revista, o projeto ficou incubado no ninho.

blogdoorlando – e como a revista foi viabilizada?
Crau - No ano 2000, envolvida em outro projeto de vida, de música, entreguei de presente a idéia da revista com a sugestão de nome “A Periquita'' para que a pesquisadora de quadrinhos Cristina Merlo fizesse acontecer. No ano passado a Cris me reencontrou e disse que havia um editor interessado em produzir a revista e os dois me intimaram a editá-la. Era o Franco de Rosa que, aliás, tem como sobrenome um nome de mulher. Como já é outro tempo e A PERIQUITA deu cria, agora somos AS PERIQUITAS.

Cica

blogdoorlando – há muitas mulheres ilustrando mas poucas se dedicando ao cartum. por que?
Crau - Quando fazíamos OBicho com o Fortuna, no Rio dos anos 70, havia algumas cartunistas  tentando trabalhar. Naquela época eu conhecia pelo menos três que faziam algum tipo de humor gráfico: a Ciça n'A Folha, a Mariza (OBicho, O Pasquim), a Patrícia Mendonça (na Crás) além de mim, que apenas iniciava n'OBicho. Se havia essas atuando, imagino que houvesse outras, ocultas ou até mesmo envergonhadas de se apresentarem diante da profusão produtiva e visível dos talentos masculinos. Mas desde a caricaturista Rian (1886-1981), o desenho de humor deixou de ser exercido exclusivamente por homens.
Talvez o tempo de criação das mulheres seja um pouco diferente da dos homens e isto nos torne invisíveis.
Desde que convidei as meninas para esse mesmo projeto no século passado, criamos quadrinhos, cartuns e outras obras,  além de cabelos brancos, filhos e netos. Algumas cresceram na profissão, outras decolaram, mas continuam a dizer que “não há mulheres cartunistas”.
Reflito se nosso próprio senso de humor se manifeste de diferentes maneiras e possa às vezes não ser reconhecido. Mas não gosto de limitar o conceito “cartunista'' somente para quem faz piadas desenhadas, mas estendê-lo para quem interpreta o mundo mediante mensagens gráficas, seja em forma de narrativa nas histórias em quadrinhos, seja pela visão crítica do desenho de humor, como faz Mariza.

blogdoorlando – como foram escolhidas as participantes?
Crau - Lembrei da Mariza, da Ciça, da Thaís Linhares, da Natália Forcat,  a quem já havia convidado na edição da Primeira Periquita. Chamei também outras amigas de quem respeito o trabalho como a Ana Viegas, que considero uma plena humorista do traço que nem sabia que era. Ela me indicou a Luiza Nasser e a Claudia Kfouri. O Franco trouxe e citou mais algumas que fiquei caçando na Internet e assim foram chegando a Lorena, a Alessandra Mattos, a Dadí, a Maria Rita, as argentinas e todas as demais. Como o critério principal era “ter algo a dizer'', descobri uma sobrinha de dez anos, a Bibi, que sabia fazer roteiros bem engraçados e resolveu desenhar.

Claudia Kfouri

Nesse período de chocadeira das Periquitas (levou um ano) fiquei feliz ao constatar que aconteceu pelo menos uma edição de revista, “Mulherada'',  com cartuns de mulheres trabalhando exclusivamente o tema “gênero'', e que a Folha abriu um espaço exclusivo para tiras feitas por mulheres, o que parece ter levantado um pouco o manto da invisibilidade. Só para deixar dito, As Periquitas não têm as questões de gênero como tema exclusivo, embora neste número isso tenha aflorado em diversas páginas.

blogdoorlando – o laerte concedeu uma grande entrevista, não?
Crau - Sim. Grande, em tamanho e uma histórica entrevista. Foi um papo delicioso entre comadres em que muitos paradigmas foram expostos e questionados, que durou mais de três horas e  foi um “isso'' para transcrever. Laerte, além de ser uma referência no cartum, sempre foi ativista de causas político-sociais e não podia deixar de estar presente, já que se propôs a se encarnar em mulher. Já como precursor de Arlete, personagem consultora sobre assuntos polêmicos,  forneceu uma perspectiva histórica do feminismo e sobre a presença da mulher no cartum.

Capa Lorena

blogdoorlando – a revista vai ser distribuída onde? onde ela poderá ser encontrada?
Crau - A revista vai ser distribuída em bancas, juntamente com a Caros Amigos e poderá ser encontrada em algumas livrarias ou encomendada pela internet.
Deverá estar nas bancas a partir do dia 15.
Serão feitos diversos eventos de lançamento em algumas capitais e outras cidades como Florianópolis, Curitiba, Ilhabela, Santos e não sei mais onde.

Serviço:

As Periquitas
Data: 29 de outubro
Horário: das 19h às 21h30
Local: Casa das Rosas – Espaço da Palavra
Endereço: Av. Paulista, 37
Editorial Kalaco
96 páginas
Capa dupla com slip
Formato 20,5 x 27,5 cm
Preço de Capa: R$ 39,90