Blog do Orlando

movimento passe livre tem que decidir pra onde vai o bonde agora
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Orlando

um dos grandes trunfos do governo lula foi atender a uma demanda reprimida por bens de consumo através de crédito fácil.
a população carente pôde ter acesso a um sem número de móveis, eletrodomésticos, carros, etc. em muitas e suaves prestações.
agora, parece haver um outro tipo de demanda e não há banco que possa resolver. não, pelo menos, nos moldes tradicionais de empresto e cobro.

a festa ontem foi bonita.
centenas de milhares de jovens tomaram as ruas de várias cidades do país e fizeram, na grande maioria, manifestações pacíficas e ordeiras.
sem violência, sem vandalismo e, ao que parece, os garis tiveram muito pouco trabalho pela manhã, pelo menos em são paulo. não havia nem as latas e garrafas que todo carnaval espalha pelo chão. não havia confetes também.
ficou claro que vários grupos estavam lá por uma causa e essas causas são muitas.
a demanda é enorme e esse passa a ser o grande problema do movimento passe livre.

ontem, pela rede, vários simpatizantes insistiam que as manifestações são pela redução da passagem do precário transporte oferecido à população numa tentativa de manter o foco.
temo que isso fuja do controle.
veja que até agora nenhum partido conseguiu capitalizar absolutamente nada a seu favor. muito pelo contrário. os poucos manifestantes que carregavam bandeiras do pt e do pstu foram obrigados a recolhê-las diante das vaias e gritos de “sem partido”.
esse, talvez, seja o grande diferencial do movimento que acontece. não há partidos com megafone dizendo vão pra lá, venham pra cá.
a coisa é tão maluca que, enquanto as ruas eram tomadas, dois dos líderes do mpl estavam sendo entrevistados pelo roda-viva, da tv cultura. ou é muito desprendimento ou é uma confiança inabalável de que todo mundo saberia o que fazer mesmo sem a presença deles.

durante anos, gastamos uma bala com boas escolas para nossos filhos. gastamos numa escola privada o que gostaríamos que o estado gastasse na pública e, sendo assim, nada mais natural que essa garotada de mochila nas costas passe a engrossar o caldo.
tirando os que já estão colocados na empresa do pai, os que acreditam que se matando no mercado financeiro vão ser algo na vida ou os que estão estudando fora do país, todos os outros estavam lá.
ontem o caldo foi engrossado também por muitos desses pais, por irmãos mais velhos e amigos destes que cumpriram pelo menos uma parte do gigantesco trajeto da manifestação. é, verdadeiramente, uma maratona!
seguranças das lojas filmavam e alguns zeladores de prédios expunham seus tímidos cartazes reivindicando algo. havia lençóis em algumas janelas.

mas, voltando ao mpl, os garotos estão num impasse.
abraçam todas essas demandas ou fincam o pé na questão da passagem e reduzem o movimento.
a primeira opção não é uma decisão fácil mas a segunda parece, agora, impossível de acontecer.


o silêncio dos culpados e o barulho dos inocentes
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Orlando

na edição deste sábado, dia 15, da folha de são paulo, o comandante-geral da polícia militar, coronel benedito roberto meira disse que os repórteres deveriam saber se posicionar na cobertura de confrontos.
disse ele que, se não quiserem se machucar,  ficassem atrás da linha dos policiais.
pura verdade.
em direção aos policiais, as armas eram os gritos de “fora a repressão”, “sem violência”, “abaixo a tarifa” e outras palavras de ordem que poderiam machucar somente ouvidinhos muito sensíveis, não os de profissionais tão acostumados aos estampidos de tiros e bombas.
na linha de frente dos manifestantes, ninguém com pau, pedras ou qualquer outro instrumento de guerra, como demonstram as centenas de fotos espalhadas pela web, jornais e revistas.

tiros de borracha podem matar. e se não matam, podem causar sérios danos. machucam, mutilam e se a intenção é dispersar, são totalmente dispensáveis.
vítimas desses tiros, jornalistas acabaram não só por cobrir o evento, mas por abrir os olhos intactos de seus patrões e editores.
a partir de quinta o tom da cobertura mudou radicalmente. finalmente percebeu-se que essa movimentação toda não trata dos R$0,20 da passagem mas é muito mais o reflexo do descontentamento generalizado. tarifas, educação, saúde, caos urbano, violência,  inflação, corrupção, descaso.

prova disso, a sonora vaia que a presidente dilma levou ontem na abertura da copa das confederações, em brasília.
enquanto o pau comia fora do estádio entre polícia e manifestantes, os 70 mil pagantes mostraram todo o seu descontentamento a uma presidente que se portou como uma colegial tomando um pito do diretor da escola na frente dos pais.
o constrangimento era visível e ela se limitou a recitar a frase decorada e dar como aberto o campeonato.
as câmeras focalizavam joseph blatter e dilma. josé maria marin, desafeto da presidente, foi cortado fora.
ê, edição!

mas o que tem me chamado a atenção nos últimos dias, é o estrondoso silêncio da classe política, a verdadeira culpada por tudo isso.
nenhum representante do povo nas ruas, nenhum dando declarações, nenhum se posicionando contra ou a favor.
nem mesmo o arroz de festa das causas perdidas, o senador eduardo suplicy, deu as caras.
certamente estão muito ocupados nos bastidores tentando achar uma solução para o impasse que as manifestações têm causado ao destino de seus partidos.
declarações ou posicionamento desastrados podem melar algumas intenções para as eleições do ano que vem.
a imobilidade do prefeito haddad, político que respeita as decisões do partido, pode ser o resultado desse imbróglio em que o pt se meteu.
o governador alckmin, por sua vez, tem menos a perder. endurecendo, ele pode tentar agradar a ala da chamada “onda conservadora”, especialmente de são paulo.

dilma parece cada vez mais se isolar no poder. se isolar e ser isolada.
as balas de borracha do fracasso nas urnas dóem para esse povo. melhor não botar o nariz na rua.

não sou dado a teorias da conspiração mas não posso deixar de imaginar uma situação de fritura da atual presidente e uma eleição disputada com a volta de um lula salvador da pátria.
não sei.
fica registrado aqui e só o tempo dirá.


marcelo martinez enfia o nariz num livro infantil
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Orlando

marcelo martinez é um desses artistas pra lá de versáteis. quadrinhos, ilustração, projetos, aulas e idéias, muitas idéias.
na verdade, o que mais me dá inveja nele é a memória. ele lembra de personagens, epsódios, filmes, detalhes de filmes e de historietas que leu quando tinha cinco anos.
um inferno!
depois de produzir algumas centenas de projetos gráficos – muitos premiados – lança seu primeiro livro infantil.
sorte dele, sorte do joão, sorte nossa.

fala, martinez!:

 

blogdoorlando – vc já produziu zilhões de livros de outras pessoas.
finalmente sai um seu!
Marcelo Martinez - Pois é! Vim dos quadrinhos e do humor, e construí minha carreira como um designer que tem um estúdio especializado em projetos para mercado editorial. Sou coautor de alguns títulos (como o “livro-Jogo das Copas Globo Esporte”, que criei para a Casa da Palavra), mas esse é meu primeiro livro infantil. Já tem mais dois na fila – um sobre monstros e um romancezinho sobre futebol.

blogdoorlando – vc sempre foi um aficionado por quadrinhos, animação, filmes trash e cultura inútil.
isso tudo e ter um filho em fase de alfabetização é juntar a fome com a vontade de comer, né?
Marcelo Martinez - Ô, se é. Eu podia argumentar que é tudo junto, pela ótica do design, da comunicação visual – até porque, no fundo, é mesmo. Mas poder apresentar às novas gerações um box com a primeira temporada de Jonny Quest é tão importante quanto ensinar o hino do Flamengo lá em casa, rs. Compartilhar estas coisas é muito legal – desde que ele mantenha aquelas mãozinhas longe da minha coleção de robozinhos.

blogdoorlando – como surgiu a idéia desse livro?
Marcelo Martinez - Eu ficava brincando de desenhar com meu filho, um começava uma forma e pedia para o outro continuar. Eram coisas simples, como explicar que um risquinho em cima dos olhos pode fazer o personagem ficar bravo (v) ou triste (^), por exemplo. Ao mesmo tempo, sempre fico naquela coisa de tentar sintetizar o desenho o máximo possível, como um logotipo, uma marca. O 20 disfarces vem desse exercício, de tentar definir uma forma diferente da outra com o mínimo de traços possível. A medida em que ia produzindo as artes, postava algumas no facebook, e ficava feliz em ver que as pessoas curtiam o ganso ou a bruxa, sem perceberem que a base do desenho era um mesmo homenzinho narigudo.

blogdoorlando – e a negociação com a editora foi doce?
Marcelo Martinez - Dulcíssima. A editora Daniele Cajueiro soube que eu iria entrar em contato com ela, e antes mesmo que eu enviasse o email ela me escreveu. Resolvemos tudo rapidinho. O livro foi feito como eu queria, com uma editora dialogando e apontando caminhos. Só demorou para sair, rs.

blogdoorlando – o que vc acha que o sindicato dos homenzinhos narigudos vai achar do seu livro?
Marcelo Martinez - Eles são muito organizados! O que tem de narigudo na minha timeline é brincadeira! Como dizia o Steve Martin, “deve ser maravilhoso acordar na sua casa pela manhã e poder sentir aquele cheirinho de café… lá na Colômbia.”

blogdoorlando – e o dos homenzinhos com nariz pequeno?
Marcelo Martinez - Estes têm outras preocupações. Homenzinhos com nariz pequeno cheiram mal (tu-dum-tss) <http://instantbutton.me/buttons/ba_dum_tss_20120309002530.html>

serviço:
“20 disfarces para um homenzinho narigudo”, de Marcelo Martinez
Literatura infantil.
Editora Nova Fronteira
formato 20 x 20 cm, 48 pp, cores, brochura.
isbn: 978-85-209-3205-6

http://www.facebook.com/20DisfarcesParaUmHomenzinhoNarigudo

Lançamento no 15º Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens
Sábado, dia 15 de junho, 17h
Centro de Convenções Sulamérica (Av. Paulo de Frontin, 1 – Cidade Nova – Centro – Rio de Janeiro)


manifestações: os meninos estão sozinhos mas são milhares
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Orlando

alexandre beck

ontem, a primeira coisa que me ocorreu vendo aquela garotada cantando em frente a igreja da consolação foi: cacete, esses caras estão sozinhos!
havia um buraco entre os meninos que seguravam o abre-alas do movimento e a polícia.
esse buraco deveria ser preenchido por intelectuais, artistas, políticos, gente que deveria falar: vai, polícia, atira agora.
não havia ninguém ali.
os garotos estavam sós, protegidos só pela fé de que deveriam fazer o que ninguém está fazendo por eles.
pelo jeito, políticos e artistas estão muito ocupados com seus projetos para as próximas eleições ou com a captação de incentivos para os próximos shows.

os garotos estão sozinhos mas são milhares.
precisou que meia dúzia de jornalistas tivesse tomado bala na cara para que a imprensa, finalmente, percebesse e noticiasse quem comeca a baderna, quem é o verdadeiro vilão da história.

geraldo alckmin no sptv diz que a polícia deve preservar a integridade e o direito dos cidadãos irem e virem, de manterem seu comércio aberto.
diz que a polícia deve preservar o patrimônio público.
estivesse ele lá, teria visto justamente a polícia colocando todos em risco e iniciando a confusão.
as bombas usadas podem cegar, mutilar gente e não se pode dizer que isso é manter a ordem.

a ação da polícia do estado é um desastre.
desastre.

e os meninos, sozinhos.
sozinhos mas são muitos.


polícia paulista provoca a violência nas manifestações em sp
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Orlando

pense uma ação desastrada. pense agora uma ação completamente desastrada.

fomos de ônibus (passagem R$3,20 a testa) do sumaré ao centro.
no final da consolação o aviso de que o coletivo desviaria o caminho por conta da manifestação.
todos descem.
caminhamos até encontrar a massa enorme de manifestantes na av. ipiranga.
nenhum problema, nem palavras de ordem nem manifestações exacerbadas.
todos cantavam e, tivesse eu mais habilidade com o celular, teria postado algo na rede dizendo que tudo estava lindo e emocionante.

foto: cecília laszkiewicz

o comboio começa a caminhar rumo à rua da consolação em paz absoluta.
na esquina da consolação com a maria antonia a polícia faz um cordão e dá-lhe bomba.
são paulo é um estado rico. não vai economizar nessa hora, não é?
o povo recuava enquanto a tropa de choque chegava por trás despejando bombas e tiros.

foto: cecília laszkiewicz

veja bem, tivesse a polícia acompanhado e garantido o direito de protesto, essa turba teria subido a consolação na paz, cantado seus hinos, seguido rumo à paulista ou outra avenida e pronto.
o que aconteceu foi algo absolutamente surreal.
parte da garotada correu para a rua rego freitas, outra avançou para a praça roosevelt.
na praça, havia um cordão impedindo a passagem e as bombas começaram a chegar pelo alto.
imagine um monte de gente encurralada, bombas e tiros vindos pelo alto por todos os lados.
algo explode no meu pé quando consigo subir uma escada e assim, tardiamente eu sei, conheço as novas obras da praça roosevelt.

foto: renato bacci neto/ curativo feito por equipe da matilha cultural/ obrigado!

o povo dispersa e se protege do gás das bombas que não param de cair.
tivesse o comboio subido em ordem, tudo estaria sob controle.
com a dispersão, centenas de pessoas se espalham por ruas e ruelas do centro enquanto outros subiam a consolação e a augusta.
o trabalho da polícia é infinitamente maior e esses grupos espalhados começam a esparramar lixo, quebrar lixeiras, por fogo.

podemos discutir se existe infiltração de grupos políticos, se existem vândalos ou anarquistas infiltrados mas não há a menor dúvida de que qualquer rastro de violência que possa ter havido foi por conta da ação ignorante da polícia do estado.
a força da contenção era infinitamente maior do que o momento exigia.
não existe nada que justifique uma ação como essa.

se a intenção era cortar o mal pela raiz (percebam que a manifestação mal havia começado), o que o estado está conseguindo é criar um clima de revolta sem tamanho.
insisto que as manifestações que acontecem agora no brasil já se descolaram dos R$0,20 da passagem de ônibus e espelham uma insatisfação generalizada pelo o que acontece no país.

ironicamente, dispersando, provavelmente a polícia só faz aumentar a união e o coro dos descontentes.

foto: cecília laszkiewicz


memorial recebe a 10ª bienal brasileira de design gráfico neste fim de semana
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Orlando

sexta, sábado e domingo são dias reservados para o design gráfico em são paulo.
o memorial da américa latina, na barra funda, recebe a maior exposição sobre o assunto jamais montada no brasil pela adg, associação dos designers gráficos. são centenas de trabalhos selecionados entre o milhares enviados e que dão um panorama de a quantas anda o design no país.
além disso, uma intensa programação com palestras, conversas e visitas guiadas.

a seguir, uma entrevista com bruno porto, um dos organizadores da mostra:

 

blogdoorlando – esta é a 10ª edição da bienal. o que ela traz de diferente de outras edições?
Bruno Porto - É a maior de todas as Bienais que a ADG Brasil realizou desde sua primeira edição, em 1992, com cerca de 50% a mais de trabalhos que a média das três últimas edições. É a que tem a mais ampla seleção de projetos, cobrindo não apenas 2 mas os últimos 4 anos da produção de design no Brasil ou de brasileiros no exterior, e abrangendo outras áreas, como ilustração, artes plásticas, moda, design de produto, animação etc. É a que teve o maior e mais variado júri, composto por 89 profissionais nascidos ou residentes em 8 Estados brasileiros e 13 países. É a primeira que foi pensada desde seu início em possíveis itinerâncias internacionais, sendo 100% bilíngue, dividida em 4 eixos que podem ser transportados independentemente, e com um eficiente suporte interativo que permitiria até mesmo dispensar o aspecto físico da maioria de seus trabalhos, tornando-a totalmente digital. Mas o que me dá mais orgulho mesmo é de ser a mais sustentável de todas as Bienais: a inscrição, o pagamento, a primeira fase de envio dos projetos e do julgamento foram feitos inteiramente online, economizando recursos naturais e poupando o bolso e o acervo dos designers. O catálogo da Bienal é um app bilíngue, com cerca de 4000 imagens, centenas de textos e dezenas de vídeos, apresentando os projetos de maneira muito mais completa que um livro conseguiria. E sem mencionar o custo final: o download do app é gratuito.

calendário pindura, do grupo beleléu

blogdoorlando – com tantos trabalhos inscritos, como foi escolher os participantes da mostra?
Bruno Porto - O sistema online de votação permitiu que 64 jurados espalhados pelo mundo analisassem os 1910 projetos dando notas quanto a sua qualidade, originalidade e em que grau haviam cumprido seus objetivos. O olhar do júri foi muito amplo, equilibrando generosidade e rigidez, e foi muito rico por termos profissionais estrangeiros e brasileiros vivendo no exterior nesta etapa da seleção. Chega-se a um outro patamar quando se tem o papa argentino da tipografia Rubén Fontana, o premiadíssimo artista gráfico chinês Chen Hangfeng, o editor de design da Taschen Julius Wiedemann, que mora na Alemanha, ou artista gráfico brasileiro-americano Marcus Villaça, que mora na Hungria, analisando projetos que vem ultrapassando as fronteiras do nosso país, como fontes digitais, marcas, e-pubs e games. A seleção online durou duas semanas, e a seguinte, presencial, uma. Esta segunda etapa, em São Paulo, contou com 39 jurados analisando os 725 projetos mais bem avaliados na etapa online, e definindo 71 Destaques do Júri. Alguns destes jurados já haviam participado da primeira etapa, o que foi bastante válido, pois podiam enfatizar a qualidade dos projetos que haviam sobrevivido ao corte, e ir mais fundo nas discussões. Mesmo se realizando em São Paulo, engana-se quem pensa que esta etapa teve um olhar unicamente local – neste júri haviam mais de dez jurados de outros Estados, como Paraná e Rio de Janeiro, além de um dos argentinos mais brasileiros que conheci – Hugo Kovadloff – e de um francês, Loic Dubois, idem. Para se ter a idéia da diversidade, o mais jovem membro do júri nasceu em 1985, e o mais velho, em 1939.

capa de gustavo piqueira e jaca

blogdoorlando – há uma programação bastante intensa entre sábado e domingo. o que vc destacaria?
Bruno Porto - Uma dos ações sustentáveis da Bienal foi termos um final de semana de abertura que permitisse – e estimulasse – pessoas de fora de São Paulo a visitarem à Bienal. A Bienal para mim é um encontro, os projetos você pode conferir no app (risos). Queríamos criar a possibilidade de mais gente se encontrar, se ver, trocar. Por isso a cerimônia de abertura e premiação dos Destaques do Júri é numa sexta-feira à noite, emendando em uma Conferência no sábado, das 9h às 15h, com apresentações de seis cases sensacionais de projetos selecionados (de SP, RJ, SC, GO, MG, PR), e uma mesa redonda que conta com três renomadíssimos membros do júri: a jornalista, curadora e escritora Adélia Borges, o especialista em políticas públicas de design Gabriel Patrocínio, e o designer belga Mario Van Der Meulen, uma das maiores autoridades em design gráfico sustentável, que mora na Ásia há 13 anos. No domingo, Mario faz uma palestra imperdível chamada Design in the Sustainable Era, eu faço uma visita guiada à Bienal, tem o lançamento da terceira edição da revista Leaf e um bate-papo com dois monstros latino-americanos da ilustração, o colombiano Jairo Buitrago, que vive no México, e o chileno Gonzalo Cárcamo, que vive no Brasil. E tudo isso é de graça!

projeto de alceu nunes e samuel casal

blogdoorlando – eventos como esse acabam suprindo um pouco as deficiências dos cursos, não? 
Bruno Porto - Eventos como a Bienal e o IlustraBrasil complementam o que se aprende na sala de aula. Boa parte do que se leva da universidade veio por meio dos colegas, da troca, da dica do professor depois da aula ou de alguma interação que aproxima o mercado da academia. Ter um evento balizado por uma associação de reconhecidos profissionais é uma garantia de qualidade do que está sendo passado, é diferente de alguns eventos caça níqueis que pululam por aí.

catálogo da exposição macanudismo, da mandacaru design

blogdoorlando – qual a importância de entidades como a adg? 
Bruno Porto - É criar um referencial para o mercado e para os próprios profissionais. Não do que é bom ou certo, mas do que uma parcela relevante – em quantidade e qualidade – de profissionais atuantes acredita ser o melhor para sua categoria. A Bienal é um exemplo disso: os próprios profissionais escolhendo o que consideram seu melhor, de maneira independente. Sem a ADG Brasil não existiria uma bienal de design gráfico, e todos perdem com isso. Os designers sentiram isso na pele quando pela primeira vez em duas décadas não houve uma Bienal, em 2011 – que foi o que nos levou a ampliar o escopo desta edição para 4 anos – pois a Associação estava enfraquecida, com uma redução brutal de sócios pagantes. De repente sentiram-se perdidos, não havia mais para onde enviar os trabalhos, não havia a exposição ou o registro do que havia sido produzido naquele período. Sem o associado não existe associação, e não existem as ações que as associações promovem pelo bem da categoria. O texto do Henrique Nardi, membro da atual diretoria, na apresentação da Bienal menciona a luta de três décadas pela regulamentação da profissão que está prestes a ser aprovada no Senando. Isso foi uma conquista exclusiva das associações, que se uniram e mobilizaram seus membros não só para desenvolver um projeto de lei que atendesse os requisitos políticos e legais mas para pressionar os deputados. A primeira coisa que qualquer político procura saber é quantas pessoas você representa. Se a sua associação tem poucos membros, dificilmente sua categoria será escutada. O que fizemos foi criar um pool de associações nacionais e locais – de design gráfico, de produto, de jóias, moda etc – que mostrasse os milhares de designers espalhados por todo o país. Se você quer ser ouvido, junte-se a uma associação.

projeto de carlo giovani

blogdoorlando – e como anda o design brasileiro com tantos sobe-e-desce da economia e com tantos contrastes ainda?
Bruno Porto - É inegável que o mercado de design se aqueceu com este novo papel que o Brasil assumiu nesta segunda década do século, em parte por ser a bola da vez dos destinos esportivos mundiais, em parte por que a tecnologia finalmente está permitindo que se assimile o ethos brasileiro para o mundo. Embora ainda pulverizada, houve uma valorização do design nas esferas governamentais por conta do reconhecimento da importância da Economia Criativa. Discute-se mais, aprende-se mais, e aos poucos devem surgir soluções para os entraves legais que ainda sobretaxam a importação de equipamentos de trabalho, ou não compreendem a sazonalidade de alguns projetos que obrigam a contratação temporária de funcionários. Hoje o maior problema do mercado do design brasileiro é apenas o de todo brasileiro: estar cercado de Brasil. Pagamos impostos absurdos que não se convertem em serviços de qualidade. O cidadão designer precisa de saúde, de telefone, de transporte público, de segurança, para poder exercer sua atividade.

a programação completa da bienal está em: http://www.bienaladg.org.br

 

 

foto: david fox

quem é bruno porto
Designer gráfico, educador, curador de mais de dez mostras de artes gráficas e autor de livros de como “Vende-se Design”, “Memórias Tipográficas”, “Asian Graphics Now!” e “Logotipo X Logomarca: a batalha do século”. Usa vários chapéus, como o de Coordenador Geral da 10ª Bienal Brasileira de Design Gráfico, o de coordenador executivo da Bienal de Tipografia Latino-Americana Tipos Latinos, o de coordenador do curso de design gráfico do Centro Universitário IESB, e os de membro do Conselho Diretor da SIB – Sociedade dos Ilustradores do Brasil – SIB e do Conselho Consultivo da Adegraf – Associação dos Designers Gráficos do Distrito Federal. É um carioca de 1971 ainda em fase de adaptação a Brasília, para onde se mudou no ano passado depois de morar quase seis anos em Xangai.

 

serviço:
10ª bienal brasileira de design gráfico
De 14 a 30 de Junho de 2013
Galeria Marta Traba do Memorial da América Latina
3ª a Domingo, das 9h às 18h

Fundação Memorial da América Latina
Av. Auro Soares de Moura Andrade 664, Barra Funda
São Paulo SP  tel_11.3823.4600

www.memorial.org.br

entrada gratuita


manifestações: protestos vão muito além de R$0,20
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Orlando

 

foto: marlene bergamo/folhapress


há uma tensão no ar e ela não parece ser causada apenas pelo recente aumento das tarifas de ônibus e metrô em são paulo.
a vida está cara, as perspectivas de futuro cada vez mais distantes no horizonte, insegurança, baixos salários, trânsito, impostos e pouco retorno são alguns dos muitos ingredientes que estão fervendo no caldeirão.
um espetáculo do crescimento que ficou na promessa, passagens caras e tudo errado, são os componentes das manifestações que aconteceram nestas duas semanas.
junte-se a isso uma polícia que definitivamente não é a britânica e pronto, está feita a confusão.

o grupo passe livre organizou o protesto, foi para as ruas com faixas e palavras de ordem. tentou que a manifestação fosse pacífica mesmo obstruindo ruas e avenidas no meio do horário do rush, mesmo não havendo controle sobre quem entra ou não na marcha.
convenhamos, protestos são para fazer barulho e um protesto sobre transporte público não poderia acontecer em outro local se não por onde as pessoas transitam com suas centenas de milhares de carros particulares.

depois, há um mérito tremendo nisso tudo: nos acomodamos em assinar pela rede petições higienizadas sem nem mesmo saber em profundidade sobre do que se tratam. assinamos e damos como missão cumprida. essa garotada está fazendo o que todos deveríamos fazer: ir pra rua, reclamar da ordem estabelecida e, se há mesmo, uma demanda crescente por melhores serviços, moralização da política, melhoria do ensino, etc, nada mais natural que os protestos explodam.

lembrar que essa é a polícia que temos. obtusa, mal remunerada, mal treinada, parte pra cima dos baderneiros.
talvez, numa outra perspectiva, devessem se juntar ao coro e exigir pra si também, melhores condições de trabalho.
mas isso é outra história.

prefeito e governador estão em paris para tentar trazer a expo 2020 para são paulo. lindo.
lula e sérgio cabral, governador do rio, fizeram o mesmo com as olimpíadas e a copa.
o que ganhamos?
estádios super faturados, atletas e infra-estrutura esquecidos. que tipo de investimento houve no que realmente era necessário?
parece que muito pouco e atletas sem patrocínio tentarão nossas parcas medalhas com o esforço próprio outra vez.

R$0,20 são muito pouco perto do que esses protestos estão deixando claro. existe uma insatisfação generalizada e ela está estampada nas ruas pelo tamanho das manifestações.
pais, professores, médicos, empresários deveriam se juntar ao coro dos descontentes e ampliar a discussão, dizer em alto e bom tom “não, políticos, a coisa não está boa pra ninguém, não!”

políticos, aliás, têm usado o argumento de que 97% dos brasileiros apoiam a redução da maioridade penal para apressar o trâmite de leis que atendam esse desejo.
ora, se uma pesquisa apontasse um número alarmante de políticos considerados corruptos, esse trâmite para que todos fossem defenestrados aconteceria?
não, né?

pois então, os meninos estão fazendo a parte deles pacificamente.
a baderna é o retrato.
o quebra-quebra ninguém vai apoiar mas ele é a manifestação óbvia de um sentimento represado.
e tem a raiva.
e motivos pra raiva não faltam.

 


prazo é um negócio para se furar
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Orlando


tempos atrás, numa segunda-feira, abro meus emails e encontro um que me chamou a atenção.
era uma mensagem de sábado enviada por um um colega convocando todos os ilustradores a largar a prancheta naquele instante e preparar uma picanha.
além da receita e de dicas de como preparar o churrasco, o simpático email trazia um tom de rebeldia: “larguem a prancheta e façam um churrasco!”

isso ficou martelando minha cabeça por muito tempo. pensar que profissionais como nós ainda são escravos de prazos impostos por determinado tipo de cliente ou por prazos que acreditamos ter que cumprir a qualquer custo.
havia aquela outra história do cara que não podia sair de casa porque “de repente” o cliente liga.
como assim “de repente liga“?
se vc falar não vou estar no fim de semana, nos falamos na segunda, ele não vai ligar e a segunda-feira, cá entre nós, está logo ali.

evidentemente existem casos e casos mas urgências, na maior parte das vezes, só existem na cabeça desses abilolados que sentem um certo prazer em deixar um profissional de stand by pelo simples prazer mesmo.
quantas vezes corremos com um trabalho para saber que, 15 dias depois, ele continua parado porque o diretor de arte teve que passar outra coisa na frente, que o cliente viajou ou que a matéria ficou pra outra edição.
mas aí, ignêz és muerta e o aniversário de seu filho já foi, naquele encontro de amigos só faltou vc assim como tantos outros eventos que abrimos mão e que o tempo não vai trazer de volta.

cumprir prazo está no top list dos bons profissionais, evidentemente.
isso agrega valor, estreita relações com seu contratante e com o cliente mas cabe também ao profissional saber ler as entrelinhas de um trabalho e perceber se aquela corrida insana, uma virada de noite ou um fim de semana perdido valem o esforço.
geralmente é fácil perceber que não mas ainda insistimos em ser profissionais. profissionais demais, no caso.

há outras situações onde o processo criativo é doloroso. vc tem que criar um logotipo, uma campanha, ilustrar um livro e o estalo simplesmente não vem.
isso acontece e há de se respeitar esse tempo. muitas vezes é preferível atrasar e ter certeza de que se está entregando algo de qualidade do que cumprir o prazo com uma idéia mal pensada e mal executada. dizer que atrasou porque acha que dá pra fazer melhor não é vergonha e pode evitar que vc seja espinafrado ali na frente.
o ideal é que fôssemos máquinas que cuspissem idéias e trabalhos bem finalizados mas não é assim que acontece.
pelo menos não sempre.

uma vez eu estava às turras com um livro infantil. não é que estava ficando ruim, ele simplesmente não acontecia. papel, tintas, musiquinha e eu olhava pra mesa, dava as costas, ia pra geladeira, ia regar as plantas, ia olhar os emails. mudei de mesa, de ambiente, de lugares e nada. já estava estourando o quarto prazo quando um colega diz: é que ele não está pronto na sua cabeça.
bingo!
o livro precisava acontecer primeiro na minha caixola, depois migrar para o papel.
aceito isso minha vida ficou muito melhor e entendi que prazo é uma data pra vc furar quando vc precisa.
apesar de ser prazeroso entregar tudo antes da data limite, tirar aquilo da frente, emitir a nota, etc, faz parte da vida aceitar que nem tudo é como queremos ou acreditamos que devesse ser.
depois, como disse, existem datas que não se repetem e não tem trabalho que valha ou pague certos prazeres.

ser profissional é cumprir prazos mas também se entender como artista e ser humano.
e o ser humano vem antes de tudo.
bom churrasco a todos!

 

texto originalmente publicado na edição 33 da revista ilustrar.
para baixar a revista gratuitamente:

http://www.revistailustrar.com/