Blog do Orlando

alfaiate da ilustração, junior lopes abre exposição em são paulo
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Orlando

junior lopes, paraense de 48 anos, logo percebeu ao chegar em são paulo em 1999, que teria que inventar algo diferente para se destacar entre os ilustradores que admirava. essa é uma das questões que mais aflige os profissionais do traço: como sair do lugar comum e criar uma marca própria e identificável.
pesquisando, trocou o papel por tela, as tintas por tecidos, as retículas por tramas de linha e desenvolveu uma combinação absolutamente particular de criar ilustrações e, principalmente, retratos.
expôs seus trabalhos em são paulo, piracicaba, porto alegre e moçambique.
foi escolhido pela conceituada illustration now!, da editora taschen um dos 150 melhores ilustradores de 2014 além de ter participado da campanha da levi’s, leão de ouro em cannes, em 2004.
abaixo, entrevista com o alfaiate da ilustração:

blogdoorlando – como foi migrar do papel, do traço para o corte/costura? :>)
Junior Lopes - Vontade natural de fazer algo novo… Cheguei de Castanhal (PA) em 99 e sabia que na área de ilustração tinha que ter um diferencial pois aqui em São Paulo a quantidade de ilustradores excelentes é irritante.

JeY_baixa

blogdoorlando – vc parte de fotos, recortes e o que mais? como é o processo?
Junior Lopes - Já mudei bastante, mas quase sempre parto de referências fotográficas e vou dando ctrl+c, ctrl+v. Copio imagens  em alto contraste e vou colando meus layers naturais (retalhos de tecidos) sobre tela.

loureed_baixa

blogdoorlando – como vc escolhe os materiais e os formatos? os formatos aumentaram também desde o início, não?
Junior Lopes - Essa é a parte lúdica do processo. Vou para o Brás, na zona central de São Paulo, compro retalhos de tecidos que acho interessantes e procuro extrair das tramas e texturas dos tecidos um pouco da personalidade do retratado… É sempre uma surpresa o resultado… sempre.

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blogdoorlando – vc pensa em tratar de outros temas que não sejam baseados em referências?
Junior Lopes - Sim… Os retratos são meu ganha pão, pois faço muita encomenda e, basicamente, sobrevivo deles. Naturalmente o desejo é expandir para outros temas. Na exposição que abre hoje, tem o “A Ponte”, inspirado num quadro do Monet, e que foge do retrato. Quero mais pra frente fazer uma exposição erótica, desenhada sem referências fotográficas.

taxi_baixa

blogdoorlando – a exposição é uma retrospectiva ou há trabalhos novos e antigos?
Junior Lopes - É uma retrospectiva, abrangendo os primórdios (comecei em 2000), passando pelos originais da campanha da Levi’s, que ganhou um Leão de Ouro em Cannes (2003) e avança para os inéditos de hoje, que são a maioria.

blogdoorlando – como foi ser indicado pela illustration now! e receber o leão de ouro?
Junior Lopes – Nossa profissão é solitária e receber prêmios, além da importância artística, é um afago no ego. Mostrando que tem que batalhar muito para se conseguir reconhecimento. Meu trabalho é diferenciado, até pelo material que uso e esses prêmios comprovam que tô seguindo na estrada certa…ou na errada… tanto faz… rs

 

 

JL

SERVIÇO

Exposição “Retalhos de Junior Lopes”
Período: 26 de fevereiro, às 19h (abertura), até 31 de março.
Horário: de segunda a sábado, das 10h às 19h
Local: Galeria Ornitorrinco (Av. Pompeia, 520 – São Paulo – SP)
Tel.: (11) 2338-1156
Site: www.galeriaornitorrinco.com.br
E-mail: contato@galeriaornitorrinco.com.br
Entrada: Gratuita
Compras: através de pagamento em dinheiro ou cartão de débito/crédito.
Preços: de R$1.500 a R$5.000

 

 

 

 

 

 

 

 


refém da burocracia, cidadão paga caro e mico ao mesmo tempo
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Orlando

cena I
às 22h30 de domingo retrasado somos parados pela polícia rodoviária de boracéia, litoral norte de são paulo.
um jovem soldado me pede os documentos e constata que o licenciamento do carro estava vencido desde novembro.
falha minha, esqueço todos os anos de pagar o licenciamento no prazo. não vem boleto, aviso ou qualquer sinal de fumaça e acabo por esquecer.

muito educadamente ele diz que devemos ligar para alguém vir nos buscar porque o carro vai ser apreendido.
como assim apreendido? lavra a multa e amanhã cedo resolvo o documento. o carro está todo em ordem, minha habilitação está em dia, estou sóbrio e de óculos!
não teve acordo.
é a lei.
argumentei que não haveria ninguém que pudesse, àquela hora, se desbarrancar de são paulo para nos resgatar. na real, a quem vc pode recorrer a qualquer hora do dia ou da noite e pedir que largue tudo para ir até bertioga lhe buscar porque vc se esqueceu de pagar um bendito imposto?
os senhores podem pegar um ônibus, sugeriu o jovem.
alou?!?!

nossa sorte foi que amigos saíram 10 minutos depois de toque-toque, nos encontraram naquela situação na beira da estrada e nos aliviaram do peso de uma volta brancaleônica pra casa.
um outro policial, também muito educado, me explicou o passo a passo da burocra enquanto concordava com o absurdo da lei.
na argentina é diferente, disse ele. o senhor já foi pra lá? – perguntou.

na manhã seguinte, às 8h estava eu na porta do poupa tempo. em 50 minutos estava com o documento devidamente quitado e no bolso.
se as coisas no brasil funcionassem como o poupa tempo, tudo seria muito diferente!
bom, foram-se perto de 180 reais.
voltei para casa. a segunda etapa era ligar para o pátio em bertioga para saber quanto eu deveria pagar pelo guincho.
o atendente demorou para localizar o protocolo já que o carro havia dado entrada já era pra lá de meia noite.
e o que tenho eu a ver com o peixe?, pensei.
quase 340 reais mais pobre, tiro 2 cópias de minha habilitação, do documento do carro, imprimo o recibo do pagamento do guincho, junto com a via de infração e sigo, de taxi (mais 200 dilmas, na brodagem), até um posto rodoviário perto de bertioga.
duas horas e trelelé depois, estou diante de um policial de meia idade que confere minha papelada.
tivesse chegado meia hora antes, teria que esperar. estariam em hora de almoço
ele preenche à mão outra guia, prende tudo com um clipe e diz que o pátio fica a 8 km no sentido santos.
o pátio, de uma terceirizada, tem um balcão comprido com um vidro espelhado na frente. vc precisa se abaixar para ver se tem alguém ali para atendê-lo.
na fila, um grupo de homens e mulheres discute como fazer para pagar as taxas e trazer os comprovantes de volta a fim de retirar seus veículos também confiscados.
nada perto, nada fácil, nada informatizado.
esperei ser chamado num lugar que parecia a ante-sala do inferno de quente.
para liberar o carro vc tem que assinar um documento que atesta que o veículo está sendo entregue perfeito como entrou.
vc quer que eu olhe o motor para ver se nada foi retirado ou trocado? – disse ao entediado manobrista.
vcs poderiam pelo menos ter lavado… – brinquei antes de pegar a serra de volta e de ter perdido um dia inteiro de trabalho.

 

cena II
juquitiba, 1h30 – estou lendo na sala quando escuto um estouro na rua e a luz se apaga.
lanterna e conta na mão, ligo para a aes eletropaulo.
feita a reclamação, o atendente diz que uma equipe de emergência está indo para o local.
vemos que uma árvore havia caído e que, provavelmente, algum galho triscou a rede causando o curto que desligou a chave do transformador.
às 7h da manhã o telefone toca. é alguém da empresa querendo saber se a energia havia sido normalizada.
não.
às 10h, outro telefonema informando que estão a caminho.
às 13h, sem notícias, ligo novamente para a eletropaulo que abre novo pedido.
o mesmo para mais quatro ligações feitas até a noite.
os atendentes não têm acesso a movimento nenhum, não sabem onde estão as equipes de atendimento, nem têm acesso a qualquer outra informação.
então, abrem novos pedidos com novos números de protocolo que não servirão para nada.
hoje, às 7h30, 30 horas depois do desligamento do fusível e ainda sem energia elétrica, volto ao telefone.
passo a passo de gravações, novo número de protocolo, a atendente refém de uma situação que não lhe permite nada além de repetir as mesmas cantilenas que já sei de cor, diz que vai passar o caso para seu supervisor. o mesmo, provavelmente, que os atendentes de ontem disseram não ter acesso.
meia hora depois, recebo uma ligação no celular. é uma gravação dizendo que meu pedido será atendido prontamente.
neste instante,  31 horas e meia depois, resta esperar enquanto botamos tudo da geladeira e do freezer no lixo.

 

 

 

 

 


a incompetência do governo e o medo das crianças
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Orlando

Escovar os dentes 72

 

a falta d’água, provavelmente, será assunto para o resto do ano. salvo um milagre, as torneiras tossirão ar seco na maior parte das residências de são paulo durante os próximos meses.
depois de anos de descaso, agora começou aquele corre clássico brasileiro de tentar se resolver as coisas a toque de caixa, sem licitação e com acordos de bancada.
e se tem uma área onde não acontecem milagres é exatamente esse de obras. elas demandam estudos (mesmo que feitos nas coxas), grana e tempo, muito tempo mesmo com a urgência mordendo os calcanhares.

mas o que eu queria falar é que, independente das burocracias, fico surpreso como lidamos com as coisas.
ontem, assistindo a um telejornal, vejo (de novo!) um reporter entrevistando uma criança. como sabemos, algumas escolas estão operando com torneiras secas ou quase secas. não se pode escovar os dentes, lavar as mãos ou lavar pratos e copos.
indagada sobre isso, a criança diz: “sem água as plantas morrem, os bichos morrem, a gente morre! e eu não quero morrer!”
além do bônus para quem economiza muito e multa para quem desperdiça um pouco, temos que usar esse expediente de fazer terror com crianças sempre?
a questão da água no planeta é grave. no brasil, muito grave. em são paulo, gravíssima. mas temos que penalizar crianças com bichos-papões o tempo todo?
água não é só higiene. escrevi sobre isso aqui.
como essa criança, também não quero morrer de sede. aliás, não quero morrer de jeito algum mas o foco das reportagens deveria ser outro.
enquanto os cidadãos se sentem acuados em (se tiver sorte de ter algumas gotas no cano) tomar seu banho de 2 minutos, milhares de prédios continuam sendo erguidos no estado.
mas eles geram emprego, dirá algum esperto e eu posso até concordar. mas, veja lá, não estamos numa situação de emergência?
emergência pra mim significa estado de alerta em todos os níveis, não só na nossa pia.
e tem a dengue!
com as pessoas estocando água de forma inadequada, a prefeitura da cidade calcula que haverá uma epidemia da doença no município.

são paulo, rica em rios e córregos hoje poluídos e canalizados, depende da água vinda de fora. os projetos de captação de chuva se limitam a iniciativas individuais ou privadas.
pelo governo, essa água toda que cai do céu de graça pode ir ralo abaixo ou o cidadão que se vire fazendo gambiarras em suas calhas ou ar condicionado.
assim, teremos um 2015 lidando com urgências da mesma forma que sempre lidamos: no improviso e jogando a responsabilidade nas costas do contribuinte.
a criança da reportagem, provavelmente, não vai morrer de sede mas ela e seus amiguinhos não vão escovar os dentes ou tomar banho como mereceriam.
vão crescer com medo disso, daquilo e daquilo mais enquanto governos as tratarem como culpadas de uma incompetência que só pertence a adultos engravatados e eleitos por seus pais.

 

 

 

 

 

 


férias, artigo em extinção
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Orlando

Fechado 72

houve um tempo em que desenhistas se empregavam.
eram funcionários de revistas, jornais, estúdios ou agências de publicidade.
e como todos os trabalhadores legalmente registrados, tinham direito a fundo de garantia, folgas semanais, recebimento por horas extras e, claro, férias de 30 dias remuneradas.
silenciosamente as relações de trabalho foram mudando.

passamos pelos yuppies, pela re-engenharia, pela terceirização que, num passe de mágica se transformou na maior lorota dos últimos tempos: o empreendedorismo.
profissionais – e não só desenhistas – passaram a ser donos de seu próprio negócio tomando para si todos os custos e responsabilidades que antes eram de seus antigos patrões, como aluguel de um espaço, computador, telefone, máquina de café e manutenção de uma estrutura mínima para atender seus clientes.
o que poderia significar liberdade e horários flexíveis, pode ser exatamente o contrário.
em muitos casos o mercado se tornou um leilão e o talento artístico por si só não basta.
o “empreendedor” precisa se tornar um gerente de seu próprio negócio acumulando funções específicas como ser seu proprio rp, o rh, o financeiro, o almoxarife, o criativo, o funcionário dedicado e, claro, vidente para enxergar o que o futuro lhe reserva.

quem está no mercado nos últimos 35 anos nunca trabalhou sem que alguma crise estivesse batendo na porta. e todas elas fizeram muita marola. petróleo, plano collor, bresser, crise do japão, crise da argentina, na coréia, desvalorizações do cruzeiro e do real só para ficar entre algumas, trouxeram ventos fortes que balançaram nossos barquinhos sem dó.
tivemos também a crise do papel, a entrada da internet e uma mudança radical mas ainda sem definição dos meios de comunicação, especialmente os impressos.
hoje é praticamente impossível sobreviver e pagar contas só atuando na imprensa.

esse “se virar nos 30” a que somos submetidos empurra boa parte dos profissionais a uma eterna vigilância.
novembro é o mês de se garimpar trabalhos que segurem dezembro e janeiro, justamente os meses em que poderiam estar desfrutando das economias do ano e descansando ou conhecendo outros lugares.
ao contrário, são meses de preocupação e indefinição.
férias, mais do que merecido descanso é o período que nos proporciona um certo desligamento da rotina, a reciclagem das baterias e um balanço do ano anterior.
e não me venha com férias de uma semana!
férias são 30 dias em que vc vai se desligando lentamente, faz a curva e vai, também lentamente, se preparando para a volta ao batente.
férias de 30 dias deveriam estar na constituição. serem obrigatórias com aval do ministério da saúde pública.
emendamos um ano no outro, sem intervalo e isso não deve fazer muito bem não.

eu proporia uma outra emenda constitucional que reservasse 15 dias entre um ano e outro. uma espécie de limbo entre o dia 31 de dezembro e o 1º de janeiro.
nesse período não haveria obrigações, nem trabalho, nem contas vencendo, nem nada.
impossível, eu sei, mas #ficaadica.

 

 

 

 

 

 

 

 


a tragédia de charlie hebdo e 4 pequenas reflexões
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Orlando

o sangue dos jornalistas do charlie hebdo respingou em tudo quanto é redação de publicações do mundo inteiro e fez a rede ferver também.
ataque à civilização, ataque à liberdade de imprensa, endurecimento das relações ocidente e oriente, o recrudescimento da polarização entre a frança e mulçumanos, questionamento entre fé e religião, o velho embate entre direita e esquerda são alguns dos pontos levantados pelos internautas brasileiros.
por outro lado, há os que não compreendem o porque de a morte de 12 jornalistas terem mais repercussão do que as 160 da ocupação do morro do alemão, das 180 mil de sírios, os massacres na líbia ou no iraque, os flagelados da somália, etc.
de certa forma, o mundo já foi pior e mais sangrento. o que chamamos de civilização foi construído a duras penas e em camadas. os direitos e liberdades conquistados, aliás com muito sangue, são os estandartes que carregamos na esperança de um mundo mais justo e fraterno. daí um atentado desse naipe nos afrontar tanto. bárbaros continuam se matando, pensamos, e tudo bem. eles que se entendam. no nosso quintal, não.
lembrar que a “civilização'' foi construida por países colonizadores e opressores!

para os cartunistas, o impacto é fulminante seja pela perda de referências como o wolinski, seja pela nova régua que talvez tenha que ser usada daqui para frente para medirmos qual o limite de nossa liberdade.
algumas outras questões também me batem:

1.
jornais do mundo inteiro se unem contra a o ataque à liberdade de imprensa publicando capas e cartuns dos charlies.
lindo.
mas qual desses jornais e revistas bem estabelecidos publicaria espontaneamente um cartum com a santíssima trindade (deus, cristo e o espírito santo) fazendo “trenzinho”? ou de um cartunista e um mulçumano se beijando na boca?
eu arriscaria, sem muito medo de errar, que nenhum.
a religião é tabú dentro das redações.
não se mexe com a igreja, não se mexe com o clero e, mais recentemente, muito cuidado com evangélicos.
rafael campos rocha publica seu “deus, essa gostosa” no caderno ilustríssima da folha, laerte já publicou a tirinha “deus”, o quadrinista kipper publicou “deusinhos”, na folhinha. são exemplos do uso de temas sagrados sem sacrilégio. não há insulto ou ofensa. e, sejamos honestos, exceções na imprensa brazuca.
o cerco à liberdade de imprensa, no brasil, existe. mais velado aqui, mais explícito ali mas existe mesmo que parta do próprio jornalista ou cartunista.

2.
por outro lado, um cartum com padres dançando sem cueca ou de um cristo com o espírito santo entalado nos fundilhos não é para ser publicado num veículo da grande imprensa.
transgressões e certos tipos de experiências gráficas devem ser feitas em veículos próprios, independentes como foram o “o malho”, “careta”, “o pasquim” e “a casseta popular”, só para ficarmos em quatro exemplos.
inexplicavelmente essas publicações desapareceram e não deram lugar a outras.
gente querendo fazer humor escrachado e profano há de ter.
o que nos impede de criarmos novos veículos que reunam os malvados brasileiros é a pergunta que não cala.

3.
o atentado ao charlie hebdo aconteceu durante uma reunião de pauta que é quando se decide o que vai entrar ou não na próxima edição.
essa é uma cena!
senhores entre 40 e 80 anos sentados discutindo, trocando idéias, fazendo piadas!
no brasil, isso acabou. cada cartunista virou uma ilha e isso é péssimo.
tive a sorte de ainda pegar os fechamentos da página “vira-lata”, do angeli e os do jornal “movimento”.
neles, cartunistas como angeli, fortuna, laerte, alcy, os carusos, jotinha, nilson, etc. chegavam, conversavam e faziam na hora os desenhos que estariam na página em algumas horas.
não havia melhor escola.
quadrinistas ensaiam montar coletivos, publicar juntos, abrir editoras. mas quadrinhos são um exercício de paciência, leva tempo, não há muita chance para arrependimentos.
e, tirando o marcatti, não há ninguém rompendo a barreira da decência e bons costumes do irreverente brasil.

4.
na reunião de pauta havia pelo menos dois senhores da terceira idade: cabu, de 75 anos e wolinski, de 80.
talvez poucos na frança ou em outro lugar se mantenham produtivos e criativos com essa idade.
no brasil há, mas você imaginar qualquer um deles se deslocando semanalmente para uma reunião na redação é quase impossível.
quase tão impossível quanto você encontrar algum “cabeça branca” entre as dezenas de iniciantes que compõem nossas redações hoje.
wolinski continuava inquieto e inspirador.
mesmo de uma forma torta e trágica, continuará dando o exemplo do velhinho que saia de casa para se dedicar a algo em que acreditava.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


cartunistas deram 4 passos rumo à certeza de que não podem se render
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Orlando

toda violência é condenável.
a é território sagrado, a liberdade também.
e, da mesma forma que um avião cai por uma sucessão de erros, atos terroristas também acontecem por uma série de fatos que se acumulam ao longo do tempo.

hoje, pela manhã, três terroristas encapuzados invadiram a redação do semanário charlie hebdo armados com fuzis e gritando “vamos vingar o profeta!”.
em 2012 a publicação estampou um cartum que mostrava o profeta maomé. pelas leis islâmicas maomé não pode ser retratado, muito menos numa situação satírica.
apesar dos apelos do governo francês, o desenho foi publicado e a redação do charlie hebdo foi incendiada.

a fé é território sagrado mas a religião tem lá seus meandros. a religião pode fazer com que a fé vire ódio e intolerância.
a liberdade é território sagrado mas tem uma fronteira de linha tênue que faz uma dança que pode ser vista com vários olhares.
eu poderia falar de liberdade de imprensa e todo esse escudo que usamos para dizer o que os outros não querem ouvir. mas não, prefiro falar da liberdade de modo amplo. estou chocado demais para pensar nessas pessoas que morreram como profissionais, como jornalistas, como cartunistas.
morreram, até este instante, 12 seres humanos e poderiam ter morrido mais se fossem utilizadas bombas ou se houvesse um movimento grande de transeuntes pelas calçadas em meio a um fogo cruzado.

a frança entra em estado de alerta e nós também.
o que posso falar? o que não ofende? qual o grau de tolerância de meu interlocutor? será que ele está armado? devo acreditar no meu deus ou no dele? e se eu não quiser nenhum?
a intolerância não permite opções. a resposta sempre será a letra “a”. a primeira. a certa. a minha.

ao que parece, nesta manhã haveria uma reunião de pauta, quando se decide o que entra e o que não entra na próxima edição, e os terroristas sabiam disso.
sabiam que todos estariam juntos em uma determinada sala.
entre os chargistas mortos estão charb (também diretor da publicação), cabu, tignous e wolinski.
wolinski!!!
wolinski tinha 80 anos e um humor absolutamente anárquico. influenciou uma geração de cartunistas no mundo e, claro, no brasil. jaguar, ziraldo, millôr, alcy e tantos outros mamaram em seu humor libertário e em seu desenho rápido e descompromissado.
mais que cartunistas profissionais, os quatro eram homens de livre pensar. desenhando ou não, diziam o que queriam.
aí é onde a fronteira da liberdade faz sua dança mais frenética.
humoristas têm enfrentado as patrulhas do politicamente correto, do bom-mocismo e isso tem sido um exercício e tanto. isso pode, isso não pode, isso denigre negros, isso denigre os brancos, e aquilo os mancos, e aquilo os anões, e aquilo as mulheres, e aquilo os casados, e aquilo os solteiros.
mas ataque terrorista estava um pouco fora da curva.

toda violência é condenável mas um ataque como esse é um retorno à barbárie.
não se trata de discutir ideias mas, sim, de apagar aquelas às quais eu não aceito. o fundamentalista quer fazer do outro o cego que ele próprio é.
tudo o que o ser livre não quer, tudo o que um humorista não pode ser.

o mundo dá 12 passos rumo ao medo. a imprensa e, em especial os cartunistas, deram 4 rumo à certeza de que não podem se render.