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spacca faz barba, cabelo e bigode de d. pedro II na livraria cultura, em sp
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Orlando

um dos trabalhos mais difíceis e emblemáticos na vida do desenhista é se reinventar. seja pelo excesso ou falta de talento, por condições do mercado, por oportunidades que passam pelo caminho.
o paulistano joão spacca de oliveira é um que faz isso desde os seus tenros 15 anos.
reza a lenda que ele foi procurar emprego numa agência de publicidade com as mãos vazias. chegando lá, perguntaram sobre seu portifólio e ele disparou à queima-roupa: “o que vc quer que eu desenhe?
arrogante ou confiante, o fato é que o spacca é um desses caras que enfrenta o trabalho de frente e é bom em tudo.
rascunha bem, caricatura bem, cartuniza bem, finaliza bem e pesquisa muito, muito bem.
para chegar a um quepe ou a uma polaina corretos, rabisca 200 vezes se for necessário até que o objeto, vestimenta ou cenário lhe sejam íntimos.
no caso de pesquisas como as feitas para “as barbas do imperador” que lança neste sábado, não foi diferente.
muitos esboços, informações cruzadas, precisão histórica.
abaixo, entrevista com o rato de sebo, spacca:

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blogdoorlando – vc é um artista que começou cedo na publicidade, migrou para o jornalismo, passeou pelo quadrinho de banca e, depois, para para a pesquisa histórica.
como vc vê essa ciranda?
Spacca – Ótima pergunta, essa nunca me fizeram! O trabalho atual, de certa forma, soma tudo o que fiz ou tentei fazer (você esqueceu do desenho animado): com os storyboards, aprendi noções de enquadramento de cinema e tive que desenhar de tudo; na animação, desenvolvi o desenho de personagens; no jornal, lidei com a política; no quadrinho, ensaiei meus primeiros roteiros; e hoje conto em HQ a história dos governos passados.

blogdoorlando – seu nome se tornou popular quando ocupou o espaço da charge na folha e nas páginas do niquel náusea. qual era a diferença entre esses espaços e onde eles se encontravam?
Spacca – A charge da Folha foi uma das coisas que lutei para conquistar, e o que eu queria era justamente cair na “fogueira” da redação, ser testado todo dia, aquela coisa tensa. E eu atribuía uma importância muito grande para a atuação política por meio do desenho (influência de Henfil, Angeli etc) e achava que aquilo era uma coisa de grande responsabilidade. A Níquel era quase o contrário: liberdade total para experimentar, uma revista feita entre amigos que gostavam das mesmas coisas. E, na época, como existia a Chiclete, parecia muito natural ser cartunista e fazer revista também. Depois que acabou é que percebi o quanto aquela experiência foi uma coisa rara.

aureliano chaves, ulysses guimarães e collor

aureliano chaves, ulysses guimarães e collor

blogdoorlando – o spacca do cartum e da caricatura tem uma liberdade no traço e nas idéias que dão espaço ao rigor da associação de idéias e pesquisa do spacca chargista e desenhista de roteiros históricos.
o que esses dois desenhistas têm em comum?
Spacca – Bem, apesar de fazer as caricaturas dos debates da SIB, não sou especializado em caricatura. Se for comparar o Spacca chargista e o desenhista histórico, acho que a obsessão pela exatidão é a mesma. Lembro que nas charges eu ficava “editando” o desenho depois de pronto, mexendo o balão pra lá e pra cá, avaliando o peso de elementos do cenário. Talvez não pareça que naqueles desenhos eu tivesse tanta preocupação, porque o estilo era mais dinâmico – eu me inspirava no Glauco, no Henfil, no Tex Avery. Mas, pelo que me lembro de mim mesmo, eu era bastante tenso para criar e desenhar, embora aquilo saísse rápido. Minha concepção de desenho na época tinha a ver com o que o Herman Lima disse uma vez do chargista – que o desenho “saía fumegando” das mãos do artista.
Hoje, porém, desenho mais lentamente e capricho mais, talvez porque tenha passado a admirar outros artistas, e busco um resultado melhor. Ou porque as histórias que faço têm partes dramáticas, ou delicadas, e sinto que o desenho precisa ser diferente para dar conta dessas passagens mais emocionais.

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blogdoorlando – por que a opção pelas histórias com personagens reais?
Spacca – Honestamente, não sei. Sempre gostei de biografias. Gostava de ver filmes contando a história de artistas, Toulouse Lautrec, Mozart, van Gogh. Mesmo em ficções como “Os Três Mosqueteiros”, fiquei fascinado quando descobri que o Cardeal Richelieu havia existido de verdade. E o Júlio César e a Cleópatra de Asterix… Me dá um prazer muito grande estudar um personagem a fundo, sua psicologia, suas relações, como ele pratica uma profissão que não é a minha. É como uma grande caricatura, ou uma grande charge.

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blogdoorlando – quanto tempo vc trabalha na concepção de um livro como santô ou as barbas do imperador?
Spacca – O Santô não é um padrão muito normal… Foi meu aprendizado. Comecei a pensar nele aos 15 anos, e concluí o roteiro aos 39. Os outros foram uma média de dois anos cada um. O “Barbas” também foi atípico, deu uma arrastada: quatro anos. Mas peguei outros trabalhos durante. Não achei ruim que tenha levado tanto tempo, ele e eu amadurecemos no caminho. :)

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blogdoorlando – d. pedro II sempre foi um personagem ligado às artes e à tecnologia. fotografou e viajou muito.
isso o faz um governante diferente? no que isso mudou o brasil?
Spacca – D. Pedro II teve uma história muito estranha, diferente de qualquer coisa que existiu. Pra começar, era um rei fora da Europa; era culto, tinha aqueles interesses variados (por línguas mortas e tecnologia de ponta), mas também, visitando hospitais e quartéis, parecia mais um secretário de obras públicas, se preocupando com coisas prosaicas como os encanamentos e a cozinha; tinha aquela nobreza e dignidade, e ao mesmo tempo era de fácil acesso; patrocinava cientistas, músicos, pintores e literatos, consciente de que – palavras dele – queria “formar uma elite”, isto é, ele tinha uma política cultural, para por meio da cultura “organizar moralmente uma sociedade”. Agora, no que isso mudou o Brasil, não faço idéia – teria que especular que outra alternativa existia. Os outros países da América latina eram repúblicas turbulentas e instáveis, mas isso se deve a muitos outros fatores além do governante – as diferenças entre Espanha e Portugal, por exemplo, que as colônias herdaram.

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blogdoorlando – como vc evita as armadilhas da “história oficial”?
Spacca – Estou sempre me opondo a “histórias oficiais”, não tanto por ser oficial (de cima, contada por vencedores), mas sobretudo quando é apenas uma versão distorcida, errada, exagerada, simplista etc. Um dos remédios é tentar ser abrangente, procurar ver a mesma história contada por outros atores, e considerar o entorno, as outras histórias relacionadas. Por exemplo, a história do Brasil durante 300 anos fez parte da história de Portugal, e a de Portugal está entrelaçada com a dos outros países europeus, com o Oriente, com a história da Igreja, com o império muçulmano etc. Pelo menos uma noção do que se passa em volta você tem que ter. Outro, é evitar ficar preso numa escola, numa linha de interpretação – história econômica, marxista, ou do cotidiano, ou das idéias etc. Minha visão de “historiador amador” é semelhante à de quem faz um filme de época, e tem que se preocupar com figurino, cenário, armas antigas, transportes, etc; ou seja, para recriar a História, tem que pensar em tudo o que o ser humano experimenta e precisa… Parece muita coisa, mas é o que os literatos sempre fizeram para escrever seus romances.

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blogdoorlando – esses temas são propostos pela editora ou vc que se adianta na pauta?
Spacca – cada um tem uma história. Santô foi projeto meu, Debret foi uma idéia minha para uma HQ com o tema “viagem”, “D.João” foi convite, “Jubiabá” foi escolha minha, para um convite para fazer um livro do Jorge Amado; e “Barbas” surgiu como complemento natural do D.João, sugestão da Lília Schwarcz.

blogdoorlando – “as barbas” está em fase de lançamento. qual o outro projeto que v já tem e vista?
Spacca – A Lília quer fazer “República” para completar a trilogia (é a chamada “República Velha”, nome que ela não gosta), ainda não tem nada escrito e não sabemos como será, só algumas idéias.

Flyer

 

 

 

 

 

 


edu grosso deixa a coordenação do salão de humor de piracicaba
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Orlando

edu, de grosso não tem nada. é alto, magro e de uma educação que às vezes até irrita.
some-se a isso o talento para o humor e um traço absolutamente particular.
com 54 anos, avô de dois netos, o piracicabano, funcionário da prefeitura da cidade caiu no olho do furacão quando substituiu a então coordenadora do salão de humor mais antigo e tradicional do país que foi afastada de suas funções pela secretaria de cultura.
zetti era uma figura querida pelos cartunistas que acabaram por boicotar o evento de 2010. um mau tempo se instaurou entre cartunistas e a organização do evento, cada um procurando dar seus motivos.
colaboradores da primeira hora se afastaram, o salão acabou por apostar nos novatos que pouco tinham a ver com a história do salão e edu grosso teve papel fundamental na re-organização dele.
no dia 26 de fevereiro o jornal de piracicaba anunciou que o cartunista estava se afastando, por vontade própria do cedhu, o centro nacional do humor gráfico de piracicaba.
sem alardes, como é perfil do artista.
ele continua dando seu plantão, pitacando aqui e ali na organização da 41ª edição do salão que acontece no próximo agosto e que ainda não tem um novo coordenador nomeado.

foto: jornal de piracicaba

foto: jornal de piracicaba

entre elogios e críticas, direto e elegante, ele responde à entrevista:

blogdoorlando – vc é funcionário da prefeitura de piracicaba. desde quando?
Edu Grosso – Desde o começo dos anos 80. Houve uma interrupção de cerca de 3 anos quando mudamos para Santos e trabalhei em agências de publicidade e no jornal “A Tribuna de Santos”, num departamento responsável por ilustrações e artes de anúncios. Em seguida retornei a Piracicaba e fui recontratado.

blogdoorlando – como vc conciliava sua atividade na prefeitura com a de cartunista?
Edu Grosso – Aproveitando os horários noturnos e os finais de semana. Tem também aquela coisa de estar sempre ligado e fazendo rascunhos e anotando idéias.

blogdoorlando – como vc viu a saída da zetti? vc acompanhou isso de perto?
Edu Grosso – Acompanhei de perto. Somos colegas de serviço, trabalhamos na mesma Secretaria e em espaços físicos próximos, além da minha colaboração anual – como da maioria dos funcionários da Secretaria, na realização do Salão.
A permanência da Zetti ficou impraticável e, do que era possível perceber, os desentendimentos – que não eram recentes – se acumularam e interferiam na boa organização do Salão. Antes de assumir o CEDHU, junto com o Gilmar – companheiro de trabalho e também desenhista gráfico – procuramos Zétti e propusemos trabalharmos naquele ano (2010) mais próximos dela – tipo assessores – e procurar enfrentar a crise… mas a idéia não vingou.

blogdoorlando – historicamente o salão de piracicaba é o mais importante do brasil. qual sua consideração sobre salões de humor e qual foi sua função nessa transição?
Edu Grosso - O Salão de Piracicaba é custeado e organizado pela Prefeitura de Piracicaba. Ao mesmo tempo que garantiu a sua realização e permanência ao longo de 40 anos, traz algumas dificuldades. É preciso levar em conta um ambiente burocrático, com interesses diversos, às vezes pouco profissional.
Sem dúvida os Salões de arte são – ou deveriam se transformar – em espaços importantes em aspectos como: acesso e popularização da arte, valorização do artista, resgate de trabalhos do passado, apresentar o novo, etc.. O Salão de Piracicaba – com altos e baixos, tem contribuído para algumas destas questões.
A transição – se dá pra chamar de transição o que aconteceu – foi na raça. O ano de 2010, com a perspectiva do boicote dos cartunistas foi bem difícil. Praticamente começamos do zero: inventar um site oficial para o evento; começar a recuperar o espaço físico do CEDHU; convencer os artistas a participarem; alinhar os funcionários da Secretaria para a organização do Salão; encaminhar algumas pendências como a impressão do catálogo de 2009… tudo isto recheado com a polêmica saída da Zetti. A minha função principal foi responder os questionamentos das mudanças e dar credibilidade ao trabalho que se iniciava.

blogdoorlando – mesmo que a prefeitura viabilize a execução do evento, vc não acha tímidas as ações de aproximação com a população piracicabana?
Edu Grosso – Deve ser uma preocupação constante. Não concordo muito com essa ideia – como outras – que se cristalizaram ao longo do tempo. Nos últimos quatro anos o público visitante cresceu. Levamos algumas exposições em lugares bem interessantes e novos, como a Rodoviária Intermunicipal ou o Poupatempo Central. Lembro também que o Salão fica cerca de 45 dias aberto para visitas.

blogdoorlando – de que forma a prefeitura, secretários e as comissões de organização interferem no conceito do salão?
Edu Grosso – De muitas maneiras. A principal opinando e decidindo sobre as diversas pautas nas reuniões da comissão organizadora com representantes de todos estes seguimento.

blogdoorlando – os salões de humor não conseguem mais ter uma influência política nem abrem portas do mercado para novos cartunistas.
vc consegue vislumbrar uma fórmula nova para eles?
Edu Grosso – Em relação ao Salão de Piracicaba sei de relatos recentes e positivos sobre “abrir portas do mercado” apresentados por cartunistas participantes do evento. A discussão é importante e ampla – os tempos são outros, as possíveis formas de publicação e remuneração do artista gráfico se transformaram – em alguns casos se extinguiram. A idéia dos primeiros salões da imagem romântica do cartunista barbudo e desenhos numa pasta, aguardando um editor conhecido e poderoso, é ainda bem presente.
Aqui, junto a esta minha aldeia caipira – tradicionalista, corporativista, ao mesmo tempo globalizada – junto ao Salão, imagino que é preciso colocar tudo sempre em discussão. Inventar relações com profissionais e instituições relacionadas. Devem existir fórmulas e aprendizados novos. O Salão – como instituição viva, deveria ter estes mecanismos de diálogo.

blogdoorlando – no episódio do afastamento da zetti muitos cartunistas se sentiram sem voz. Vc acha que houve pouca habilidade das partes em lidar com a situação?
Edu Grosso – Não vi desta forma: os cartunistas ficaram sem voz! O Salão aconteceu, havia uma crise que foi superada… mas sem dúvida faltou um pouco de “boa” habilidade. De qualquer maneira algumas coisas foram revistas de maneira diferente, e creio para melhor.

blogdoorlando – não seria saudável cartunistas serem chamados para opinar sobre os rumos do salão?
Edu Grosso – Com certeza, o cartunista é parte do processo e grande interessado, mas não precisam ser chamados para dizer o que pensam, os canais são inúmeros.

blogdoorlando – não falta mais troca? Palestras, oficinas e debates não contribuiriam para a formação dos novos artistas?
Edu Grosso – Sim. Investir no conhecimento – seja na formação ou aperfeiçoamento deve ser prioridade. Outra questão importante também é a relação da arte com a educação, no caso o evento Salão de Humor como instrumento de aprendizado.

blogdoorlando – parece ser fato que cartunistas e caricaturistas, ao contrário de antigamente, passaram a repetir fórmulas para faturar um prêmio ao invés de buscar inovação.
vc concorda com isso?
Edu Grosso – Sim isto é visível e há muito acontece, as vezes em várias edições. Algumas soluções e abordagens – sejam na forma e no conteúdo – viram uma certa marca repetida.

blogdoorlando – qual o motivo de sua saída da coordenação do evento?
Edu Grosso – O pedido de desligamento do cargo havia sido feito já em 2012. Fizemos o Salão dos 40 anos, edição 2013. Em outubro de 2013, finalizado o evento, apresentei novamente a minha vontade. Alguns motivos: acúmulo de responsabilidades – burocráticas, artísticas, logísticas – dentro da organização do evento e uma sensação de esgotamento  e repetição do formato da realização do Salão nestes últimos anos. Outras questões existem, mas são internas.
De modo geral acho que vai de encontro a perguntas importantes e relacionadas como:
Para que serve um Salão de Humor? Como organizar um evento como o Salão de Humor de Piracicaba? Como trazer outras experiências de outros profissionais para a organização do Salão de Piracicaba? Como efetivar a participação das leis de incentivo fiscal para o benefício do evento? Como encaminhar a discussão da transformação do Salão num projeto anual, valorizando as finalidades do CEDHU Piracicaba?

blogdoorlando – qual o movimento com relação à sua substituição? Já há alguém indicado?
Edu Grosso – Até o momento não há uma indicação oficial.

blogdoorlando – vc só está saindo da coordenação do salão ou está deixando o emprego público de vez?
Edu Grosso – Continuo no emprego público. Saio da coordenação.

 

quem é:
Edu Grosso nasceu em Piracicaba/SP em 1959. Após uma iniciação clássica (desenho e pintura com o artista piracicabano Alberto Thomazi) na adolescência, passa a uma carreira auto-didata na área do desenho gráfico e da pintura contemporânea. Participa de mostras oficiais e individuais no Brasil e exterior.

 

 

 

 


bá e moon têm daytripper adotado na universidade do tennessee
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Orlando

Capa daytripper

o programa “life of mind” da universidade do tennessee escolhe todos os anos um livro para que seus 4.500 novos alunos o leiam, façam um ensaio e participem de uma série de debates em torno dele.
é uma forma de integrar os alunos e dar início à sua vida universitária. o programa já tem mais de 10 anos.
neste ano, segundo anunciado nesta semana no site da universidade, o livro escolhido tem características especiais: é um livro de quadrinhos e é de autoria de brasileiros, os irmão gabriel bá e fábio moon.
daytripper, lançado em 2011 encadernado, é uma coletânea de histórias criadas separadamente.
lançado em 11 países, daytipper apresenta muita saúde. já foram vendidos mais de 60.000 exemplares nos eua, 20.000 na frança e 18.000 no brasil.
neste mês está previsto o lançamento de uma edição deluxe com capa dura, mais páginas e extras.
abaixo, entrevista com os quadrinistas:

blogdoorlando – daytripper recebeu o eisner award for best limited series de 2011. vcs achavam que poderia acontecer algo além disso com o livro?
Gabriel - A gente não começou a escrever a história pensando nisso, a grande oportunidade era poder publicar a nossa história na Vertigo. O importante era fazer o melhor trabalho possível. O Daytripper teve uma repercussão muito boa ao longo dos 10 meses em que ele saiu em série, o que foi nos animando. Quando os dez capítulos foram reunidos na edição encadernada, a repercussão foi maior ainda, mostrando a força da história completa (que antes ficou um pouco diluída mês a mês). Nesse momento começamos a acreditar que tínhamos realmente contado uma história especial.

Fábio - Receber o Eisner foi a coroação de um trabalho longo, algo que a gente não pensava muito no início, mas que pareceu natural no momento que aconteceu. Os outros prêmios também ajudaram a construir o sucesso do livro, mas o Eisner é mais simbólico, pois a cerimônia acontece na Comic Con de San Diego e nós assistimos a várias edições, vimos que ali era o momento final do conto de fadas, o ápice. Um história com final feliz precisava terminar com o Eisner. Era o sonho realizado, o caminho completo.

Gabriel - Se tivesse parado no Eisner, já estava mais do que bom, mas cada nova conquista é um novo capítulo nesta história, uma nova alegria. Sempre nos surpreende quando o livro é publicado em um novo país, em outra língua. Cada retorno dos leitores se identificando com a história, ao redor do mundo todo. O livro já foi publicado há três anos e ainda continua nos surpreendendo, quebrando barreiras e inaugurando novos territórios.

blogdoorlando – o livro foi selecionado pela the university of tenessee para ser objeto de estudo no ut’s 2014 life of the mind. como rolou isso?
Gabriel - No final de 2013 alguém da Universidade entrou em contato conosco pra avisar que o livro estava no processo de seleção para o programa e perguntar da nossa disponibilidade para uma palestra no mês de Agosto, se estaríamos nos Estados Unidos. Infelizmente não poderíamos ir para o Tennessee, mas ficamos felizes com a possibilidade de ter o nosso livro adotado por uma Universidade. A essa altura, não tínhamos nenhuma noção do que se tratava realmente o programa.

Fábio - Em Fevereiro deste ano, eles entraram novamente em contato conosco para avisar que o livro havia sido selecionado, mas que eles estavam tentando entrar em contato com o pessoal da DC Comics, editora do Daytripper. Nós colocamos as duas partes em contato e tudo caminhou bem. Foi só a partir do contato com a DC que começamos a descobrir mais detalhes sobre o programa, que todos os alunos ingressando no primeiro ano iriam receber o livro. De repente, o que parecia o objeto de estudo de uma classe se tornou o ponto de partida da vida universitária de toda uma geração de calouros. Foi bem empolgante.

blogdoorlando – no anúncio da universidade, não faltam adjetivos destacando os méritos da história e dos desenhos.
Gabriel - Deve ser importante para justificar a seleção do livro mostrar as qualidades da história, os pontos fortes, mesmo não contando nenhum detalhe. Acho que é para atrair o público. Não vou tirar os méritos da história, mas também acho que por ser a primeira vez que escolhem uma HQ para este programa, talvez eles precisem provar no anúncio que é uma grande história. É aonde eu vejo ainda um pequeno preconceito em relação aos Quadrinhos.
Ou eles realmente gostam do livro. Quem é que vai saber?

Fábio - acho que eles realmente gostam do livro.

blogdoorlando – outra coisa destacada é como o livro trata de situações brasileiras e universais ao mesmo tempo.
Gabriel - Nós contamos a história no Brasil para poder passar com autenticidade as situações retratadas ali, os personagens, as ações, os locais. Conseguindo esta sinceridade, a história se torna mais universal.

blogdoorlando – quando vcs criam histórias pensam nessa universalidade?
Gabriel -  Um dos focos das nossas histórias sempre é a relação entre os personagens, sentimentos que os leitores podem se identificar, independente de sua nacionalidade. Então, não importa tanto se o personagem principal é um jornalista ou escritor, se ele vive em São Paulo. O leitor vai se identificar com a insegurança sobre o trabalho, a relação de pai com filho, a descoberta do amor, a força de uma amizade verdadeira. Essas coisas acontecem em qualquer lugar.
Fábio – Nós sempre tentamos escrever histórias pensando também em quem não é leitor de Quadrinhos, para os outros, para essa parcela enorme do mundo que ainda não sabe ou não tem o costume de ler Quadrinhos, e para isso escolhemos tratar de temas mais cotidianos que pudessem interessar qualquer pessoa. Esses problemas do dia a dia, e principalmente esses sentimentos particulares das relações humanas, estão na vida de todos.

blogdoorlando – vcs acreditam que essa é mais uma prova da força que os quadrinhos podem ter na educação?
Gabriel - Ao mesmo tempo que é uma linguagem que possibilita contar qualquer história de uma maneira única, é também uma ótima experiência de leitura, muito forte e pessoal. A maneira como a história é contada unindo os textos e as imagens exige uma dedicação do leitor e cria uma forma de narrativa singular, que mostra muita coisa, passa a informação e também cria imagens que existem entre os quadros, dentro da cabeça do leitor. É muito interativo e um estímulo de criatividade.

blogdoorlando – quanto vcs creditam esse sucesso à editora que representa vcs?
Gabriel - Como eu falei no início, a oportunidade de publicar uma HQ na Vertigo era imperdível, uma chance única de contar uma história autoral na editora que dá a maior janela para isso no mercado americano de Quadrinhos. A visibilidade da série mensal foi muito grande e certamente ajudou no seu sucesso. E isso também é usado para promover a HQ no mundo inteiro, em países onde ela é publicada por outras editoras, pois a Vertigo é um selo que já carrega uma qualidade, um status, por todas as grandes séries e autores que publicou ao longo dos anos.
Fábio – Acho que depois que a história foi reunida em uma edição encadernada, a editora tem um papel um pouco menor no sucesso e a história tem mais mérito, pois o livro atingiu muito mais gente, inclusive muita gente que nem sabe o que é a Vertigo.

aqui, o anúncio oficial da seleção:

http://tntoday.utk.edu/2014/04/07/daytripper-2014-life-of-the-mind-book/

 

 

 

 

 

 


supernova procura novos espaços para a utilização de ilustração
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Orlando

um dos maiores desafios lançado aos ilustradores nos últimos anos é saber como abrir novas frentes de trabalho.
jornais, revistas e publicidade, tradicionais flancos de mercado para esses profissionais já não conseguem absorver toda a oferta de criativos disponíveis. esses meios passam por um momento de reflexão tentando, eles também, entender o que acontece e para onde as coisas estão indo.
menos leitores, menos espaço, menos anúncios, menos verba acabam por engessar um mercado que depende de um giro e investimentos muito rápidos.

glauco diógenes vive em são paulo, é sócio do estúdio supernova, é ilustrador e designer. percebeu que não poderia ficar esperando o mercado se encontrar e se re-direcionar e foi à luta prospectar outras possibilidades.
prospectar é uma palavra que ele adora e foi no futebol onde ele achou um nicho praticamente virgem e inexplorado.
entenda o que é na entrevista abaixo:

Blogdoorlando – Ilustradores têm procurado não depender mais de publicações ou de encomendas. como vc está vendo isso?
Glauco Diógenes - O mercado de publicações em todo o mundo passa por um processo de reconstrução importante, que infelizmente durante muito tempo foi procrastinado, a adaptação e entendimento desse novo consumidor de informação ficou obsoleto, deficitário, a abertura da economia, o acesso a outros conteúdos de grande qualidade em plataformas distintas e devices junto com os blogs, vlogs, veio e “engoliu”  o modelo antigo, ele vai continuar existindo em nichos
cada vez menores e extremamente competitivos, também no que diz respeito a precificação de projetos e novos gestores nesse mercado que durante muito tempo perdeu atratividade, há uma oferta enorme de qualidade artística mundial no Brasil, especialmente depois do “Boom” e  “Glam” criados em torno da profissão de ilustrador e designer durante o final dos anos 80 e início dos 90. Percebo uma onda nova vindo aí, que vai ordenar esse contexto, no entanto sobreviver de projetos, tanto em ilustração quanto em design é cada vez menos uma realidade sustentável e vamos ter de nos adaptar.

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Blogdoorlando – Vc acha possível que profissionais do desenho possam ser donos de seus próprios projetos?
Glauco Diógenes - Eu não só acho possível, como acho uma questão de sobrevivência, simples assim. E isto já vem acontecendo de uma forma bacana e ao que me parece irreversível no mundo e no Brasil, basta ver o que o Rafael Coutinho tem feito com o Beijo Adolescente, o Gustavo Duarte com suas HQS, os irmãos Moon e Bá,  Rafael Grampá e mais recentemente o Samuel Casal e o Ramon Rodrigues com a Gráfica Clandestina, isso pra citar os que me lembrei agora. É a nossa resposta pro novo mercado, pro novo cenário, voltamos as origens de uma certa forma, só que agora a concorrência está muito maior e pulverizada. Em tempo: sempre haverá mercado para a ilustração, arte, design, mesmo aqui, e com todos os problemas que já estamos carecas de saber; o que mudou foram os meios de distribuição e o poder que as novas ferramentas possibilitam a cada um empreender seu próprio negócio e o posicionamento que a sua “marca” vai ter nesse mercado. Infelizmente ainda existe muita crise existencial, muito “dodoísmo”, muito debate inócuo; ter escolhido ser ilustrador, designer, foi por amor a arte, ao ofício, ao fazer, tenho ideais, me emociono quando vejo um grande projeto como muitos de nós; mas preciso ser mais racional, preciso saber me adaptar ao novo, o potencial de ilustração brasileira é super competitivo mundialmente, precisamos gerir nosso nomes e nos enxergarmos como marcas: gestão, branding, marketing (honesto e bem feito) e leis, tem de entrar no nosso cardápio junto com a coleção nova de pincéis ultra bacanas da Winsor & Newton.

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Blogdoorlando – Seu estúdio está investindo no marketing futebolístico. como é isso?
Glauco Diógenes - Sim, estamos implementando um terceiro pilar que se integraria a comunicação institucional e ao marketing dos clubes, trata-se da gestão da marcas dos times através do Design, não é exatamente branding,
embora tenhamos princípios trazidos dessa disciplina. O ponto nevrálgico do projeto, está focado em parâmetros consistentes de organização visual para a criação e desenvolvimento dos uniformes dos clubes com design assinado, encomendas de famílias tipográficas exclusivas, novas pesquisas de materiais, consultoria e solidificar o carro chefe de vendas que são as camisas, isso tudo em parceria é claro com as fornecedoras de materiais esportivos, que são importantes, mas tem muito poder e autonomia para definir o que é legal ou não para sua marca, é mais ou menos como se a gráfica fizesse também parte de criação; ok, aí o gestor vai dizer: “eu não tenho grana pra ter uma departamento ou uma mini lab funcionando aqui dentro do meu clube, mas eu preciso ter alguém, ou alguma empresa que faça essa gestão por mim”. E aí que nós entramos, não dá pra deixar “correr solto” como acontece atualmente, os resultados são pífios, a cada pré-lançamento de camisa as redes sociais fervem, é preciso escutar as expectativas das pessoas.

A partir daí expandiremos para os fornecedores licenciados, desenvolvimento de identidade visual, materiais de escritório, intranet, internet, aplicativos móveis, games, a gama de possibilidades é infinita, mas os clubes ainda sequer engatinham nesse sentido, a idéia de que o popular e o tosco andam juntos é um dogma brasileiro, uma lástima, há muito trabalho a ser feito, mas acredito que aos poucos vamos conseguir mostrar os resultados reais dessa ferramenta poderosa, os clubes europeus já traçaram o caminho há pelo menos duas décadas e colhem os frutos, você anda na rua e cada vez mais a molecada consome as marcas de fora em detrimento das brasileiras.

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Blogdoorlando – O futebol, apesar de girar milhões de reais, nunca se preocupou muito com o desenvolvimento de marcas e do visual.
Glauco Diógenes - Sim, o que é uma incongruência total, uma anomalia, se você considerar que o futebol é uma atividade lúdica, um espetáculo visual, uma “ópera ultra pop”, a minha visão do futebol é de um grande teatro, o palco, as estruturas e o figurino tem de ser impecáveis, para que tudo funcione bem, é o básico; isso tem muito a ver com os gestores que ainda estão a frente dos clubes e a estrutura feudal, arcaica do sistema político dessas instituições, o futebol é um retrato da sociedade brasileira numa fração microscópica, as mesmas idiossincrasias, as mesmas trocas de favores, gente corrupta, gente vaidosa, que prefere muitas vezes fazer um trabalho patético e ser o único autor, trazer os holofotes para si, ao invés de fortalecer uma parceria e oferecer um produto melhor, etc, embora tenha muita gente boa também, competente, querendo fazer, isso impossibilita um desenvolvimento mais acelerado e mais profissional do meio, tem de estar disposto a encarar tudo isso, eu ainda estou.

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Blogdoorlando – como surgiu a idéia dos produtos para a tok & stock?
Glauco Diógenes - Tenho uma relação super bacana com a empresa há 10 anos, desenvolvi algumas coleções menores, 3 linhas de ecobags, em 2006 já havia feito uma pequena coleção de copa também, mas o fato de termos um mundial acontecendo no Brasil, e a proposta de trabalho que tenho dentro do contexto credenciaram a fazermos uma coleção importante com design assinado. Havia conversado com os diretores de tendência e design da empresa há cerca de 2 anos, então criamos o conceito inteiro, o brasão que dá nome a coleção e faz um trocadilho com o nome da marca e foi registrado no INPI, além de todas as ilustrações sem grandes restrições, entre a apresentação da idéia inicial e aprovação dos protótipos levamos um ano e cinco meses, uma das coisas mais legais desse desse trabalho, foi a possibilidade de integrar as disciplinas, pois pra deixarmos a coleção homogênea foram necessárias adaptações das artes para as diversas superfícies de cada produto, definitivamente um projeto de Design e Ilustração voltado para aplicação em superfícies.

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Blogdoorlando – vcs estão trabalhando em outros projetos nesse segmento ou pretendem abrir o leque?
Glauco Diógenes - Sim, temos mais duas coleções pré aprovadas e outros projetos em fase de prospecção dentro do mercado de Home Design, no que se refere as linhas com Design Assinado, também estamos desenvolvendo projetos de ilustração para estamparias, já assinei um tapete de linha especial para a By Kami – http://supernova.cx/ilustracoes/by-kami/ , e sou um dos sócios do coletivo (D.A.M + http://www.damplus.com.br) –  que integra Arquitetura, Design Visual para ambientações e mobiliário, vencemos um concurso promovido pela rede Accord de Hotéis em 2013, e alguns orçamentos também estão já foram aprovados, nossa proposta é de um design brasileiro, autoral, mas com projeção glogal.
Em março estreei a coluna D.F.C – Design Futebol Clube - na revista Placar e no Facebook através de uma fã page: https://www.facebook.com/designfutebolclube, apresentamos o Design para o público em geral, especialmente de futebol, um marco importante por ser completamente fora do segmento, nessa primeira edição tratamos das disputas dentro da Alemanha entre o Bayern de Munique e o Borussia Dortmund para decidir quem tem o design mais relevante de todo a Bundesliga ( liga de futebol alemã) , no ano passado o Borussia levou a melhor, e utilizou isso como ferramenta de marketing para potencializar a marca internacionalmente e tirar um “sarro” de leve do seu principal rival, enfim, tem bastante coisa bacana rolando, as expectativas para 2014 são as melhores possíveis.

gd 06

SUPERNOVA é um estúdio de design multidisciplinar criado em 2005 e que faz apresentações corporativas, branding, customização de ambientes, design gráfico, webgames, vídeos, ilustrações, projetos editoriais, websites, apps para facebook, mobile e tablets.

contato:

http://www.supernova.cx/

glauco.diogenes@supernova.cx


cuiabá 40 graus, purgatório da tristeza e do caos
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Orlando

Cuiaba 72

passei uma semana em cuiabá.
foi minha segunda visita à cidade para dar oficinas no sesc arsenal um espaço pra lá de bacana e aconchegante. um tipo de oásis em meio ao calor e caos que a cidade vive.
cuiabá é uma das sedes da copa, abrigará 4 jogos na arena pantanal e está em obras.
por obras entenda-se uma cidade completamente revirada, com terra e entulho por todo e qualquer canto.
gente trabalhando, muito pouco.

o avião desce no aeroporto marechal rondon debaixo de chuva.
como parou longe do saguão, o povo deveria ser transportado por um ônibus e é isso o que tivemos: UM ônibus para levar mais de 200 passageiros em três viagens.
depois de meia hora de espera dentro da aeronave chegamos às esteiras para recuperar as bagagens. duas minúsculas rodando vazias mesmo depois desse tempo todo.

a taxista jô estava com uma plaquinha com meu nome.
nossa, que demora – disse ela – achei que o avião tivesse voltado.
as portas de vidro do aeroporto se abrem e o cenário é bizarro. tapumes, máquinas, terra, pedriscos, fila de carros.
jô deixou seu veículo largado num canto e perguntou se eu não me incomodava de “dar uma corrida” até ele porque se ela viesse até a porta me pegar, a volta e a fila seriam piores.
bóra lá enfiar os pés e rodinhas da mala no barro.

o que se seguiu daí em diante foi de chorar.
como disse, a cidade está revirada e tem avenidas e vias interditadas por obras e tubos espalhados. tapumes por todo canto.
no dia seguinte, o congestionamento era capa dos jornais cuiabanos.

passamos em frente ao estádio inacabado. tentei entender o que é aquilo. não tem o formato de um estádio padrão fifa e nem sei se isso é bom ou ruim mas parece que a parte de dentro está sendo feita e falta a casca redonda que daria o acabamento.
posso estar falando uma grande bobagem e devo estar mesmo mas a verdade é que no padrão ou não, no entorno não há estacionamento, não há ruas nem avenidas prontas e as pequenas vielas ao redor mantém as características de qualquer periferia do brasil: casas mal ajambradas, portões de ferro, grades e muitos, muitos botecos. nada pra inglês ver.

levamos cerca de uma hora para chegar ao hotel, o mesmo em que fiquei da outra vez.
agora ele está cercado de edifícios recém inaugurados e, claro, de obras inacabadas na avenida.
diferente de anos atrás, essa avenida se mantém congestionada durante boa parte do dia em ambos os sentidos. muito carro, pouco espaço, muito calor.

peguei um taxi cujo motorista era o único cuiabano otimista que encontrei.
isso aqui vai estar tudo pronto até a copa, disse ele.
rapaz, faltam 70 dias e a cidade está de pernas pro ar, retruquei.
boto fé, replicou ele, esse prefeito e governador estão fazendo o que deveria ter sido feito há 50 anos.
pode até ser, mas eu não acredito que alguém colocasse a mão no fogo por isso. quem fez qualquer obra em casa sabe que 70 dias são nada.

os cinco dias de oficina foram ótimos com pessoas bacanas, simpáticas, dispostas e céticas.
as obras não vão estar prontas, o vlt (veículo leve sobre trilhos) não vai estar funcionando, os turistas não terão o que ver em cuiabá e farão o trajeto hotel – estádio – hotel – chapada/pantanal em meio a tapumes e terra revirada.

a copa manteve, nos custos, o padrão fifa.
em cuiabá, a copa deverá seguir o padrão brasil mesmo.

 

 

 

 

 


uso indevido, cópia e plágio, essas nossas colegas.com
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Orlando

quando vi o email que meu amigo fabio sgroi mandou, não me contive.
comecei a rir.
juro.
liguei pra ele e perguntei como ele tinha descoberto isso.
“tô ilustrando um livro sobre hipertensão e estava pesquisando. achei as duas imagens por acaso.”

vejam só senhores editores, blogueiros, saitêiros, ilustradores e etecéteras, tudo está na rede e sempre há um maluco como o sgrói que junta o lé com o cré.
o site http://proqualis.net/hipertensao/ está publicando randomicamente esta ilustração:

imgres

é uma ilustração antiga e, sinceramente, não me lembro pra quem ou pra onde foi feita.

mas o mais legal da história é que alguém deve ter achado o desenho meio matado e o refez para o site http://missaoeducafisica.blogspot.com.br/2012/07/a-hipertensao-e-uma-das-doencas.html:

hipertensao

eu sempre tenho uma  inveja branca de desenhos ou idéias que algum colega tenha feito e não escondo isso de ninguém.
às vezes vejo uma boa idéia perdida num desenho tosco ou um desenho maravilhoso que não diz nada mas aqui temos duas histórias diferentes: uma de uso indevido, sem autorização. outra, de plágio.

são delitos graves? são.
mas, confesso, o email do fabio sgroi mais me fez rir do que sentir raiva.
é patética a situação que vivemos hoje.
todo mundo (da minha idade, pelo menos) tem uma história de algum diretor de arte propondo uma “idéia” sacada de algum livro gringo.
hoje tudo virou cartaz de porta de churrascaria, tá tudo na rede, disponível, facinho, doce, etc.
eu ri mas deveria chorar.

 

 

 

 

 

 

 


gráfica clandestina é oficina e galeria sobre rodas
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Orlando

samuel casal e ramon rodrigues inventam mais uma.

depois de migrarem do computador para goivas, madeira, tinta e papel, compram um velho carrinho de doces e montam uma “gráfica rápida” que transporta suas ferramentas e experiências para onde quiserem.

por enquanto, principalmente em florianópolis onde vivem.

a gráfica clandestina é o resultado da inventividade e dinamismo dos dois. se pedra que rola não cria limo, samuel e ramon têm tudo para se reinventarem a cada dia. abaixo, entrevista com os dois artistas:  

galeria

blogdoorlando – o que é a gráfica clandestina?

Ramon - É uma gráfica primitiva/galeria de arte itinerante. Mas não é só isso, a própria gráfica é um objeto que foi tratado por nós como um projeto artístico. A Gráfica Clandestina tem o papel de demonstrar todas as etapas da concepção de uma xilogravura e para isso ela tem que atrair visualmente o público, tem que fazer as pessoas se interessarem por ela, mesmo antes de saber o que ela realmente é.

samuel - nós já havíamos feito experiências montando oficinas e trabalhado em público e sempre tinha um pouco dessa sensação de estarmos levando o atelier até as pessoas, portanto foi se criando essa vontade de transformar esses projetos em uma unidade realmente móvel.

grafica

blogdoorlando – o que vcs fazem nela?

Ramon - Nós demonstramos como é feita a xilogravura, desde a gravação até a impressão. A xilogravura é uma técnica primitiva de impressão. Basicamente criamos carimbos de madeira que depois são entintados com tinta gráfica e prensados contra o papel. A gravação de uma matriz de é realizada com goivas (pequenos formões, específicos para esse fim) e a impressão pode ser feita de diferentes maneiras (a Gráfica Clandestina utiliza uma prensa horizontal). Cada um dos quatro lados do carrinho tem uma função, onde pode ser realizada uma das etapas fundamentais da xilogravura: área de gravação da matriz, a área onde a matriz é impressa, a parte para secar a gravura e no final a galeria, onde as gravuras são penduradas já com as molduras.

Samuel - a GC não foi concebida apenas como um objeto decorativo, queríamos desde o começo integrar e criar o máximo de funções para o carrinho, para ele ser uma plataforma de trabalho, e não só um veículo para transportar o material.

gravacao e galeria

blogdoorlando – vc gravam na hora ou só imprimem matrizes prontas?

Ramon - Rola uma gravação na hora. Tem uma parte da GC que serve para isso. Mas só saímos uma vez e não tivemos tempo hábil de fazer a matriz inteira para imprimir na hora.

blogdoorlando – vcs usaram um carrinho antigo de pipoca, é isso?

Ramon - Na verdade era um carrinho de um senhor que o havia construído à mão, para vender doces, mas nunca utilizou.  Nós o compramos e reformamos tudo, da mesma forma que ele.

Samuel - estava abandonado em um galinheiro, e só encontramos ele por causa de um anúncio feito pela filha do Seo Orêncio. Ele ficou muito satisfeito com o negócio e até prometeu um dia aparecer e comprar uns doces com a gente.

blogdoorlando – que tipo de roteiro vcs fazem para sair pra rua e como escolhem os lugares? Ramon - Ainda é muito recente e estamos planejando as próximas aparições da GC. Como eu disse, só saímos uma vez com ela. Na primeira saída escolhemos a Universidade do Estado de Santa Catarina e foi bem legal. Não tem muito um tipo de lugar que achamos que deveríamos ir. Até porque a Gráfica Clandestina fica fora de contexto em qualquer lugar, e isso é ótimo.

Samuel - na estréia tivemos desde convite para feira até workshop, só não teve pra aniversário de criança… Pela internet teve até proposta para tour em SP e interior feito por uma prefeitura.

GC

blogdoorlando – a idéia é sair pra rua todos os dias? qual o critério?

Ramon - Não, a ideia é fazer aparições, sem um lugar fixo ou um roteiro muito definido. Podemos ir a qualquer lugar, pois todo o processo acontece sem energia elétrica. Podemos dar um workshop em uma escola e em outro dia ir estacionar em um bar no final de tarde, ou algo assim.

Samuel - A idéia era ver ela pronta e funcionando. Testamos ela rodando na rua, sendo transportada e como ela se comporta no trabalho, agora vamos ver o que acontece. O importante é ela ser independente e de certa forma, clandestina.

gravura samuel

blogdoorlando – qual tem sido a receptividade do público?

Samuel - Nós construímos ela de uma forma muito pessoal, tínhamos uma certa expectativa da reação do público, mas foi nosso mesmo o maior desejo de concretizar o que estávamos imaginando tanto no conceito como na estética. Quando ela foi vista na rua pela primeira vez, foi muito incrível, algumas pessoas pararam do lado da gráfica, ainda fechada, e passavam a mão nela e perguntavam o que era, o que faríamos com ela. A sensação, e muitas vezes era o que as pessoas realmente verbalizavam, que parecia que tinha saído de um filme. Foi quando vimos que tínhamos conseguido.

blogdoorlando – quais os próximos passos?

Samuel - Ainda não sabemos ao certo, A GC é uma plataforma bastante rica, pode ter uma função educacional, comercial, conceitual… Não tem limites, ela atrai as pessoas, não só pelo que ela pode produzir, pela xilogravura, mas pelo que ela representa, pelo resgate do antigo, pelo faça-você-mesmo, pela surpresa. Pra resumir, a GC não tem limites…se não chover, é claro…

 

contatos:

samuelcasal@hotmail.com

ramonrmelo@gmail.com

 

 

 

 

 

 

 

 

 


chupa, cabral!
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Orlando

PortoVelho

com a recusa do governador carioca, alckmin vai propor trazer água do madeira!


trabalho de homem seta não é edificante
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Orlando

ensaio fotográfico pinhole de cecília laszkiewicz

ensaio fotográfico pinhole de cecília laszkiewicz

tiago estava prostrado. era perto de 16 horas e ele estava naquela esquina desde as 8 da manhã. se podia tirar uma foto, respondeu com um movimento curto de cabeça dizendo que sim.
agradecemos e desejamos bom trabalho.
“pra vcs também”, disse ele.

mais pra frente, outro tiago.
trabalha durante a semana numa empreiteira “fantasma“. está lá há 4 meses como ajudante de obra e já quer sair.
acabou de descobrir que a empresa faz um registro fajuto, não paga 13º, não recolhe fundo de garantia nem lhe dá nenhuma garantia.

b04

marcos, também está torrando no sol fazendo ponto em frente a um restaurante na av. pompéia, em sp. está sem almoço e sabe que vai sair de lá sem comer.
o dono do restaurante disse que ele que não espere nada.
brigado com a família, pergunta onde vai sair a “reportagem”.
não quer correr o risco de ser descoberto por parentes.
à noite vai para um abrigo público e só então vai comer algo.

leda, franzina e sem os dentes da frente, está desempregada e cuida dos pais e das crianças durante a semana.
sábado, cochilava numa ilha da r. abegoaria na zona oeste, debaixo de um sol escaldante em seu horário de almoço.

b08

estes são somente quatro das centenas de homens e mulheres seta recrutados por empresas imobiliárias para ficarem sábado e domingo das 9h às 18h em esquinas faça sol, faça chuva balançando propagandas de apartamentos e escritórios que estão sendo levantados na cidade de são paulo.
o bico é uma variante do tradicional “homem sanduiche” do centro da cidade.

são 35 reais “seco”, como disse o segundo tiago. se quiserem comer ou beber algo, têm que trazer.
morador de itaquera, só topa o sacrifício porque vem com a mulher que fica na esquina seguinte.
os 140 reais do fim de semana ajudam na conta da luz.
“35 é muito pouco. se fosse pelo menos 50… vê quanto custa um apartamento desses…”, acrescentando que não reclama do “serviço“.
e agora tem esse banquinho. foi uma conquista. antes nem isso. parece que saiu uma reportagem no fantástico e aí deram onde a gente se sentar.”

mas essa não é a regra. na maior parte dos casos os seteiros ficam de pé por longas horas ou encostados em postes sem proteção alguma.

b09

os empreendimentos imobiliários avançaram com toda a sede em muitos bairros da cidade e, do dia para a noite, casas e sobrados dão lugar a centenas de apartamentos, garagens e carros. muitos carros.
se tratarem suas construções como tratam seus garotos-propaganda, teremos que torcer muito para que a terra jamais balance por aqui.

a lei cidade limpa proíbe a propaganda de empreendimentos imobiliários na rua mas não é específico com relação aos homens seta.
dentro da lei ou não, adolescentes e idosos são submetidos a um trabalho ultrajante e humilhante. neste fim de semana, como em todas as outras, eles estarão lá largados nas esquinas da cidade tentando driblar um tempo que não passa.

b11

homens-seta existem no país que diz que “país rico é país sem pobreza“.
o primeiro tiago, imóvel, olhar caído, deve concordar com isso. talvez ele não tenha comido nada até aquela hora, talvez ele só esteja esperando os setentinha que vai receber na van antes de capotar num sono profundo até chegar em casa.
a certeza é que ele nunca vai sentir o cheiro da tinta do apartamento que ele, na humildade, anuncia numa esquina de são paulo.