Blog do Orlando

a tragédia de charlie hebdo e 4 pequenas reflexões
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Orlando

o sangue dos jornalistas do charlie hebdo respingou em tudo quanto é redação de publicações do mundo inteiro e fez a rede ferver também.
ataque à civilização, ataque à liberdade de imprensa, endurecimento das relações ocidente e oriente, o recrudescimento da polarização entre a frança e mulçumanos, questionamento entre fé e religião, o velho embate entre direita e esquerda são alguns dos pontos levantados pelos internautas brasileiros.
por outro lado, há os que não compreendem o porque de a morte de 12 jornalistas terem mais repercussão do que as 160 da ocupação do morro do alemão, das 180 mil de sírios, os massacres na líbia ou no iraque, os flagelados da somália, etc.
de certa forma, o mundo já foi pior e mais sangrento. o que chamamos de civilização foi construído a duras penas e em camadas. os direitos e liberdades conquistados, aliás com muito sangue, são os estandartes que carregamos na esperança de um mundo mais justo e fraterno. daí um atentado desse naipe nos afrontar tanto. bárbaros continuam se matando, pensamos, e tudo bem. eles que se entendam. no nosso quintal, não.
lembrar que a “civilização'' foi construida por países colonizadores e opressores!

para os cartunistas, o impacto é fulminante seja pela perda de referências como o wolinski, seja pela nova régua que talvez tenha que ser usada daqui para frente para medirmos qual o limite de nossa liberdade.
algumas outras questões também me batem:

1.
jornais do mundo inteiro se unem contra a o ataque à liberdade de imprensa publicando capas e cartuns dos charlies.
lindo.
mas qual desses jornais e revistas bem estabelecidos publicaria espontaneamente um cartum com a santíssima trindade (deus, cristo e o espírito santo) fazendo “trenzinho”? ou de um cartunista e um mulçumano se beijando na boca?
eu arriscaria, sem muito medo de errar, que nenhum.
a religião é tabú dentro das redações.
não se mexe com a igreja, não se mexe com o clero e, mais recentemente, muito cuidado com evangélicos.
rafael campos rocha publica seu “deus, essa gostosa” no caderno ilustríssima da folha, laerte já publicou a tirinha “deus”, o quadrinista kipper publicou “deusinhos”, na folhinha. são exemplos do uso de temas sagrados sem sacrilégio. não há insulto ou ofensa. e, sejamos honestos, exceções na imprensa brazuca.
o cerco à liberdade de imprensa, no brasil, existe. mais velado aqui, mais explícito ali mas existe mesmo que parta do próprio jornalista ou cartunista.

2.
por outro lado, um cartum com padres dançando sem cueca ou de um cristo com o espírito santo entalado nos fundilhos não é para ser publicado num veículo da grande imprensa.
transgressões e certos tipos de experiências gráficas devem ser feitas em veículos próprios, independentes como foram o “o malho”, “careta”, “o pasquim” e “a casseta popular”, só para ficarmos em quatro exemplos.
inexplicavelmente essas publicações desapareceram e não deram lugar a outras.
gente querendo fazer humor escrachado e profano há de ter.
o que nos impede de criarmos novos veículos que reunam os malvados brasileiros é a pergunta que não cala.

3.
o atentado ao charlie hebdo aconteceu durante uma reunião de pauta que é quando se decide o que vai entrar ou não na próxima edição.
essa é uma cena!
senhores entre 40 e 80 anos sentados discutindo, trocando idéias, fazendo piadas!
no brasil, isso acabou. cada cartunista virou uma ilha e isso é péssimo.
tive a sorte de ainda pegar os fechamentos da página “vira-lata”, do angeli e os do jornal “movimento”.
neles, cartunistas como angeli, fortuna, laerte, alcy, os carusos, jotinha, nilson, etc. chegavam, conversavam e faziam na hora os desenhos que estariam na página em algumas horas.
não havia melhor escola.
quadrinistas ensaiam montar coletivos, publicar juntos, abrir editoras. mas quadrinhos são um exercício de paciência, leva tempo, não há muita chance para arrependimentos.
e, tirando o marcatti, não há ninguém rompendo a barreira da decência e bons costumes do irreverente brasil.

4.
na reunião de pauta havia pelo menos dois senhores da terceira idade: cabu, de 75 anos e wolinski, de 80.
talvez poucos na frança ou em outro lugar se mantenham produtivos e criativos com essa idade.
no brasil há, mas você imaginar qualquer um deles se deslocando semanalmente para uma reunião na redação é quase impossível.
quase tão impossível quanto você encontrar algum “cabeça branca” entre as dezenas de iniciantes que compõem nossas redações hoje.
wolinski continuava inquieto e inspirador.
mesmo de uma forma torta e trágica, continuará dando o exemplo do velhinho que saia de casa para se dedicar a algo em que acreditava.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


cartunistas deram 4 passos rumo à certeza de que não podem se render
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Orlando

toda violência é condenável.
a é território sagrado, a liberdade também.
e, da mesma forma que um avião cai por uma sucessão de erros, atos terroristas também acontecem por uma série de fatos que se acumulam ao longo do tempo.

hoje, pela manhã, três terroristas encapuzados invadiram a redação do semanário charlie hebdo armados com fuzis e gritando “vamos vingar o profeta!”.
em 2012 a publicação estampou um cartum que mostrava o profeta maomé. pelas leis islâmicas maomé não pode ser retratado, muito menos numa situação satírica.
apesar dos apelos do governo francês, o desenho foi publicado e a redação do charlie hebdo foi incendiada.

a fé é território sagrado mas a religião tem lá seus meandros. a religião pode fazer com que a fé vire ódio e intolerância.
a liberdade é território sagrado mas tem uma fronteira de linha tênue que faz uma dança que pode ser vista com vários olhares.
eu poderia falar de liberdade de imprensa e todo esse escudo que usamos para dizer o que os outros não querem ouvir. mas não, prefiro falar da liberdade de modo amplo. estou chocado demais para pensar nessas pessoas que morreram como profissionais, como jornalistas, como cartunistas.
morreram, até este instante, 12 seres humanos e poderiam ter morrido mais se fossem utilizadas bombas ou se houvesse um movimento grande de transeuntes pelas calçadas em meio a um fogo cruzado.

a frança entra em estado de alerta e nós também.
o que posso falar? o que não ofende? qual o grau de tolerância de meu interlocutor? será que ele está armado? devo acreditar no meu deus ou no dele? e se eu não quiser nenhum?
a intolerância não permite opções. a resposta sempre será a letra “a”. a primeira. a certa. a minha.

ao que parece, nesta manhã haveria uma reunião de pauta, quando se decide o que entra e o que não entra na próxima edição, e os terroristas sabiam disso.
sabiam que todos estariam juntos em uma determinada sala.
entre os chargistas mortos estão charb (também diretor da publicação), cabu, tignous e wolinski.
wolinski!!!
wolinski tinha 80 anos e um humor absolutamente anárquico. influenciou uma geração de cartunistas no mundo e, claro, no brasil. jaguar, ziraldo, millôr, alcy e tantos outros mamaram em seu humor libertário e em seu desenho rápido e descompromissado.
mais que cartunistas profissionais, os quatro eram homens de livre pensar. desenhando ou não, diziam o que queriam.
aí é onde a fronteira da liberdade faz sua dança mais frenética.
humoristas têm enfrentado as patrulhas do politicamente correto, do bom-mocismo e isso tem sido um exercício e tanto. isso pode, isso não pode, isso denigre negros, isso denigre os brancos, e aquilo os mancos, e aquilo os anões, e aquilo as mulheres, e aquilo os casados, e aquilo os solteiros.
mas ataque terrorista estava um pouco fora da curva.

toda violência é condenável mas um ataque como esse é um retorno à barbárie.
não se trata de discutir ideias mas, sim, de apagar aquelas às quais eu não aceito. o fundamentalista quer fazer do outro o cego que ele próprio é.
tudo o que o ser livre não quer, tudo o que um humorista não pode ser.

o mundo dá 12 passos rumo ao medo. a imprensa e, em especial os cartunistas, deram 4 rumo à certeza de que não podem se render.

 

 

 

 

 

 

 


ciclofaixas improvisadas podem colocar ciclistas em risco em sp
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Orlando

são paulo é uma cidade que cresceu desordenadamente e hoje paga um preço alto por isso.
na verdade, ela continua crescendo pra cima, com um bum de empreendimentos imobiliários que não se via desde o milagre econômico nos anos 70.
onde havia três ou quatro casinhas, sobe um espigão com algumas dezenas de apartamentos, garagens e muitos, muitos carros.
a ineficiência do transporte público somada à facilidade de crédito para a compra de um automóvel para chamar de seu, fez da cidade uma verdadeira arapuca em que não se consegue ir para lá ou para cá sem que os nervos fiquem à flor da pele.

o prefeito haddad, para alegria de uns e ódio de outros, comprou uma briga e decidiu apertar os carros entre faixas exclusivas para ônibus e outras destinadas a bicicletas.
entre ciclovias e ciclofaixas, a cidade conta com uma malha de mais de 230 km de extensão ainda timidamente usadas para desespero de motoristas afunilados em seus corredores.
ainda que aumentando em número, a maior parte de ciclistas usa esses espaços para o lazer durante os fins de semana.
medo, calor e as sinuosas ladeiras da capital são alguns dos motivos alegados por aqueles que “iriam” para o trabalho de bike caso não tivessem ainda que brigar por espaço com ônibus ou conseguissem chegar lindos e cheirosos ao escritório.

se as faixas aumentarem e forem implantadas ações que dificultem o uso de automóveis, em alguns anos as bicicletas poderão, definitivamente, fazer parte da paisagem urbana paulistana como em outras cidades cosmopolitas do planeta. menos carros, menos barulho, menos poluição.
isso já seria o suficiente para que essa mudança acontecesse.

mas, como todo plano de curto prazo, há falhas. e falhas perigosas que podem colocar em risco a vida de usuários das ciclofaixas.
estas, diferentemente das ciclovias que são planejadas e que possuem um piso uniforme e seguro, são apenas uma tinta vermelha aplicada em cima do péssimo asfalto da cidade. buracos, depressão, bocas de lobo, pedriscos e toda a sorte de imperfeições fazem parte da “pista” de duas mãos que, fosse usada de forma massiva, não comportaria duas bikes no mesmo espaço.

exemplo é a rua joão moura, a meio caminho da estação vila madalena no sumarezinho. fiz o trajeto à noite e voltei na tarde seguinte. é um perigo.
uma distração e a roda pode escorregar ou travar em alguma das centenas de imperfeições da pista.
quando um ciclista vem, o outro é obrigado a invadir o espaço dos carros. a joão moura é uma rua de tráfego intenso e não muito bem iluminada à noite.
a poucos metros da estação, antes de uma curva e do semáforo da av. heitor penteado, a faixa termina. dali pra frente vc que se vire.
o uso de bicicletas é um hábito saudável. faz bem para o coração e para as pernas.

faz bem para as pernas mas nem por isso as ciclofaixas precisam ser feitas nas coxas.

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orlando pedroso lança filosofias em sp e solta o verbo no próprio blog
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Orlando

Capa Filosofias 72

em novembro de 2003 abri uma página no fotolog. ali passei a postar trabalhos pessoais, feitos à mão em grandes formatos e que nunca haviam sido publicados.
em maio de 2006 resolvi fazer do espaço um tipo de diário onde eu pudesse expressar sentimentos e pontos de vista que poderiam partir de experiências pessoais, de histórias ouvidas ou histórias criadas por livre associação.
em um momento, muitos desses micro-contos passaram a ter vida própria e eram criados a partir de fragmentos de conversas, de palavras soltas, de sensações emprestadas.
nesses 8 anos produzi mais de 730 frases. 190 delas estão no livro filosofias baratas me são as mais caras editado pela editora global e lançado hoje, em são paulo, com preço especial.
o prefácio é do frasista gaucho fraga e o projeto gráfico do carioca marcelo martinez.
para não queimar o meu filme e me auto entrevistar, pedi para algumas pessoas que acompanham meu flog e meu trabalho há anos fazerem algumas perguntas. vamos lá:

Marcelo Martinez – Como era sua rotina na criação dos desenhos? Sei que vc costumava fazer no início do dia, como um “esquenta” antes dos outros trabalhos, mas… existia alguma regra mínima? Só um por dia ou podia fazer mais? Havia algum tempo-limite auto-impingido?
orlando - eu chegava muito cedo ao estúdio e havia criado uma página no fotolog, onde postava trabalhos inéditos que vinha produzindo paralelamente ao profissional.
eram desenhos grandes que eu fotografava e postava sem muito critério.
como adoro me dar obrigações, decidi que faria um desenho por dia para o fotolog e as frases começaram quase que por acidente.
eu abria um bloco, olhava o papel, ele pra mim e saia algo. desenhava, pintava, fixava, escaneava e postava no flog. isso durava uma hora e pouco, provavelmente. aí o dia começava. fiz isso religiosamente por meses. uma frase por dia.
aí é aquele momento em que a criatura domina o criador e as frases brotavam do nada, no sono, no banho, na espera do dentista.
o rigor e a disciplina do início deram lugar a algo, digamos, mais inspirado.

Aponto 72

Fabio Moon – Você é um artista de diversas técnicas, do lápis às canetas nanquim, das tintas ao photoshop. Quanto da escolha do material para cada trabalho é consciente, e quanto é por acaso, pela proximidade da mão no momento da criação?
orlando - eu gosto de experimentar, de sujar a mão e a descoberta de possibilidades é um exercício fascinante. há mistérios, como a aquarela, por exemplo. tenho dificuldade, tenho medo.
mas uso as tintas de forma não acadêmica, adapto ao meu jeito e às minhas limitações.
O que me interessa é desenvolver o que eu chamo de “inteligência gráfica” que é o que permite seu trabalho ser identificável independente do material que se use.

Fabio Moon – No caso em questão, como você chegou na escolha dos matérias usados no livro: frases em “giz?'' preto, desenhos em tonalidades quentes (mesmo quando temperados com alguns verdes e azuis) e essa cara forte do “feito à mão''?
orlando - desde sempre eu gostei do gestual, da marca do pincel no papel. eu havia descoberto o lápis sangüine. vi o argentino crist trabalhando com ele e fiquei apaixonado. aí fiz uma miscelânea: lápis carvão preto, sangüine e lápis caran d’ache aquarelável.
fui descobrindo o que e como fazer durante o processo.
a tipologia, por exemplo, foi mudando dia-a-dia e ficou mais solta e agressiva.

Sim meritissimo

Xandolino – Como foi o processo de ilustrar as frases? Você juntava um punhado delas para ilustrar depois ou a concepção visual já vinha na sequência do texto?
orlando - eu considero o “filosofias” um livro de texto, literatura. os desenhos não tem importância nenhuma a não ser em alguns poucos casos em que estão entrelaçados para a compreensão, como no caso dos enforcados ou do seu pinto.
a princípio eu fazia as frases na hora. depois elas começaram a se acumular nos caderninhos e eu as ia finalizando conforme o tempo e disposição. passada a fissura, mantive uma freqüência mas sem me estressar.

Spacca – “Não sou eu quem me navega, quem me navega é o mar” definem você e a sua arte?
orlando - mais ou menos.
é verdade que dou muita chance para o acaso, pros bons e maus ventos mas gosto de ter o controle. justamente o legal de nosso trabalho é vc ter um certo rigor, disciplina e ainda dar chance para o improviso e o erro.
eu, aliás, acho que as grandes descobertas acontecem exatamente aí.A quimica

 

Spacca – Num poema desenhado, ou num desenho poemado, quem ilustra quem?
orlando - nesse caso específico, faço questão de diminuir a ilustração a uma quase insignificância.
no filosofias o texto sempre veio antes. ele que reina.
o desenho é, nesse caso, aquilo que nós profissionais detestamos: um tapa buraco, um enfeite.
apesar de achar que tem alguns desenhos bacanas, confesso que tive esse desejo sádico de fazê-los enfeites.
me perdoe.

Xandolino – As frases sempre lhe vieram prontas, como aparecem no livro, ou havia um processo de ‘lapidação’ até chegar na estrutura ideal? O mesmo aconteceu com as ilustrações?
orlando - algumas vêm prontas, como se alguém soprasse no ouvido. outras vem em fragmentos. anoto e retomo. em alguns caso dá certo mas em outros boto pra dormir mais um pouco. muitas vezes por meses. há os casos daquela que vc acha pronta, lê no dia seguinte e pensa: que merda é essa? o que eu queria dizer?

Cabelereiro

Fabio Moon – Quem é mais importante no livro: a palavra ou a imagem? Quem carrega quem? Ou quem carregou, lá no início, quando essa brincadeira começou?
orlando - o mais importante é o conjunto, a combinação inédita de frase e desenho mas o texto sempre vem antes. ele é o que carrega a idéia, a rima, a sacada.
sempre fui fã de frases. adorava o leon eliachar que publicava na revista manchete lá no início dos anos 70, millôr, stanislaw ponte preta, barão de itararé e, mais tarde, dalton trevisan.
lá pelas bandas de 2006 eu estava lendo e relendo suas micro histórias. ele é capaz de contar uma com começo, meio e fim em duas ou três linhas.

Ricardo Antunes – O Orlando é um ilustrador que gosta de poesia e texto ou um poeta que gosta de ilustrar?
orlando - o orlando é salada mista. não é um poeta. isso seria pretensão.
gosto de desenhar, gosto de brincar com palavras, gosto de fotografia e artes gráficas.
se existe uma mágica, é a de juntar tudo isso e dizer: sou eu!

Para ele

Xandolino –  Ao longo dos anos, enquanto concebia as ‘filosofias baratas’, quais outros autores você conheceu que lhe inspiraram ou que até tinham um estilo semelhante mas você não conhecia?
orlando - sempre volto aos que citei acima.
os relançamentos dos livros do millôr recentemente e a coletânea do leminsky foram gratas surpresas.
e sempre tem os queridos luis solda, de curitiba e o fraga, de porto alegre (que aliás fez o prefácio do livro), que são mestres do frasismo.
o seu trabalho mesmo, xandolino, conheci por essa afinidade e gostei muito.

Marcelo Martinez – A série das “Árvres” pintou no meio da produção do “Filosofias”, não? Vc pretende continuar com as filosofias, abrindo espaço para eventuais outras séries no meio, ou o vasto material produzido (que acredito que já daria um segundo volume) já satisfaz sua sede filosofal?
orlando - eu faço várias coisas ao mesmo tempo e isso não é um grande problema para mim. o importante é eu estar “embalado”. Um desenho pede outro e quando vc vai ver, tem uma centena deles.
continuo fazendo frases e, acredite, postando no mesmo fotolog de sempre.
pra quem não sabia onde isso iria dar, já tenho um bom número, não?

Decidiu ficar

Rubens Menezes –  Está no título que essas filosofias lhe são as mais caras, e apenas dias atrás você lançou “Com a palavra, O Ilustrador'' em parceria com a Ale Kalko e o Negreiros, pela Mandacaru, além disso de longa data você mantém um blog no UOL com mais opiniões escritas do que ilustrações. Nós estamos vendo o começo de uma nova fase para o Orlando Ilustrador, um Orlando Escritor? E vem mais por aí?
orlando - por um motivo ou outro, sempre escrevi. não com método, não com intenções literárias mas sempre escrevi.
aí volto à história das limitações. não consigo me ver escrevendo um romance, por exemplo. sou muito imediatista e acho difícil que tenha fôlego para escrever algo além de pequenos contos.
ao mesmo tempo, o projeto da mandacaru e o blog me fazem refletir, puxar pela memória (que, cá entre nós, não é das melhores) e juntar peças. às vezes dá certo. :>)

Rubens Menezes – Já faz um tempo que te vemos variar e experimenta novos suportes, indo de papel kraft em formato grande até o iPad. Qual é o seu suporte predileto? Onde você se sente “jogando em casa'' quando está desenhando?
orlando - pois é, a gente se sente confortável em alguns formatos e isso pode ser um perigo. é ótimo quando vc precisa apagar um incêndio e resolver um desenho para um jornal ou revista mas se arriscar é fundamental.
a cobertura da flip foi um desses desafios. eu tinha um ipad fazia mais de ano mas nunca tinha feito nada nele que não rabiscar uma coisinha ou outra.
aprendi a lidar com o programa um pouco mais de uma semana antes do evento e a adrenalina de vc ter que resolver ideia, desenho, técnica, envio, etc, é indescritível.
no trabalho, definitivamente, eu gosto de estar na zona de guerra.

Fraga – Ilustração, cartum, foto, frase, oficinas. Nessa altura do seu baita portfólio, o que ainda falta experimentar?
orlando – nossa, tanta coisa… uma relação homoafetiva, por exemplo… :>)
mas, veja, estou chegando naquela curva de idade em que vc tem a clara sensação de que não vai dar tempo de tudo. nem de produzir tudo, de viajar muito, de falar outras línguas, de conhecer mais gente, de não ter que pensar em grana, de ler mais livros, visitar mais museus e galerias.
meio pessimista, mas real. eu, aliás, me considero um otimista cético.

Fraga – Há cada vez mais desenhistas e menos mercado. Se fosse convidado pra ministro da economia/cultura/ trabalho, que agitos tentaria na área?
orlando - cada vez fica mais claro que as coisas só acontecem com dinheiro. num país com economia forte tem para todo mundo. o dinheiro, evidentemente, não traz criatividade mas atrai e banca criativos.
vc vai dizer que na miséria também tem gênios e eu vou concordar. várias das artes brasileiras vêm dos morros, do agreste e de outras áreas menos favorecidas.
viver dessa arte é que é o nó.
a grana permite que a arte seja produzida e consumida.Dizimo

 

Ricardo Antunes – O tema mais recorrente em suas frases ilustradas são as relações afetivas, em especial o quanto é complicado amar. O amor e a paixão vão continuar sendo sempre uma boa fonte de inspiração para a ilustração/poesia/música?
orlando - sim, sempre serão. e é incrível como a gente precisa falar sobre isso.
mergulhando no processo, vc começa a se interessar por tudo quanto é assunto e a ser um observador mais atento a detalhes. um olhar, um adjetivo, uma lembrança, amor, sexo, traição, afetividade, carinho. uma pitada de piada ou uma rima improvável e o caldo está feito.

Ricardo Antunes – É frequente encontrar ótimos ilustradores que também escrevem bem, provavelmente por lerem muito e pela pesquisa constante. Qual a importância do texto para você como ilustrador?
orlando - ilustrador é um bicho estranho. se esconde, tem dificuldades em demonstrar afeto, de manter um círculo de amizades. talvez a maioria de nós se esconda atrás de textos alheios e se sinta protegido aí.
as listas na internet mostraram que muitos de nós escrevem, conseguem colocar uma ideia em pé e defendê-las.
isso é muito bom e pode ser um começo.
muitos já se arriscam a produzir suas próprias histórias para livros infantis, por exemplo.
saber ler é outro ponto fundamental para a profissão. sem saber ler e interpretar um texto, o desenhista pode desistir de ser um ilustrador.

Gostava

Cecília Laszkiewicz – Lavou a alma?
orlando - cada trabalho legal é uma forma de lavar a alma. o filosofias ficou guardado muito tempo esperando ser publicado e isso aconteceu na hora certa. ficou lindo, como eu queria.
o formato, as cores, o quanto as pessoas se identificam com os textos fazem dele algo muito especial.

Cecília Laszkiewicz – A frase que faria pra essa matéria é :  
orlando:
disse
tudo,
disse
como
queria.
enquanto
ele
chorava
o
povo
dançava
e
ria.

 

Filosofiasflyer2

vendas pela internet a partir de quinta-feira, dia 4.

 

 

 

 

 

 

 

 


chupar pode ser gostoso mas copiar é fundamental
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Orlando

Perereca

um dos grandes dramas dos novatos é achar seu estilo.
a palavra causa tremores e a obrigação de se achar uma forma absolutamente pessoal de desenhar pode ser uma tortura especialmente em tempos como os nossos em que temos tudo à mão mas pouquíssimas referências.
explico: muitos dos profissionais (de imprensa, especialmente) começaram a desenhar e a desejar publicar porque viam páginas duplas, desenhos maravilhosos e bem editados em jornais e revistas.
hoje, talvez, tenhamos mais títulos nas bancas mas, ironicamente, menos espaço para publicar e os que publicam também estão aprendendo como os novatos que ainda brigam consigo mesmo em seu próprio quarto.
por outro lado, temos em um simples monitor, o mundo. museus, exposições, publicações, blogs e sites. mas não é a mesma coisa.
a publicação na banca demonstra que alguém pode viver de seu desenho, que ser profissional é estar lá e com as contas pagas.
profissionais também vivem esse drama. vivem comparando seu trabalho com os dos colegas, vivem se questionando se o desenho não está envelhecendo, se a fonte de ideias está secando.
eu mesmo tinha mais de 10 anos de profissão e vivia às turras com meu traço, com a não intimidade com certos materiais e com uma inevitável inveja branca quando via algum desenho matador publicado aqui e ali.

pois bem, tenho falado muito sobre isso com garotos que me procuram para mostrar portifolio.
todos, sem exceção, se desesperam na tentativa de achar um traço para chamar de seu, para desenhar mãos, desenhar pés, dar expressão, usar perspectiva e eu digo simplesmente que tudo já está inventado e o que nos resta é copiar. sim, copiar.
copiar é diferente de chupar.
copiar é estudar o trabalho de outro para entender como ele chegou lá.
num “piratas do tietê”, do laerte, por exemplo, tem tudo para se começar bem. tem anatomia, uma infinidade de expressões, profundidade, perspectivas, navios, movimento, claro/escuro, arquitetura e mãos, muitas mãos.
copiar o laerte é um bom começo.

modelo vivo é sempre outra boa opção mas nem sempre se pode ter um profissional à mão. podemos, então, observar os passageiros do metrô, do ônibus, transeuntes na rua, parentes em casa. modelos não precisam, necessariamente, estarem pelados.
e se a questão é anatomia, vamos aos gregos. nas estátuas gregas encontramos todos os músculos e posições que precisamos para entender o corpo humano. um bom livrou ou o querido google resolvem fácil.

quando falo em copiar, os olhos se arregalam mas, como disse, copiar é diferente de chupar. vc copia para aprender, para entender, não para mostrar para os outros ou colocar no portifolio.
se a gente copiar um, o outro, mais outro, mais aquele e tantos quanto puder dos quadrinhos, da ilustração até os pintores clássicos, mais chance de se criar um repertório próprio. ele será a soma de tudo o que se copiou mais o que se descobriu de si próprio passado por uma peneira.
o que pingar no papel é nosso estilo.

coincidentemente estou lendo “vida”, a biografia do guitarrista dos stones, keith richards e o que me chamou a atenção logo de cara (fora o fato de ele ter tomado todas e ainda assim se lembrar de coisas) é a obsessão por tentar tocar igual aos guitarristas de blues de chicago. ele e mick jagger queriam chegar à crueza daquele som e, para isso, colocavam a bolachona na vitrola e faziam infinitas sessões de escuta e tentativas.
ele não queria ser um compositor. queria ter uma banda que soasse como um jimmy reed, como jimmy rogers, pat hare, caras que tocavam com muddy waters e chuck berry.
escutar, escutar, copiar as notas, tentar reproduzir.
vc só fica bom repetindo à exaustão.
keith não perseguia seu estilo. queria ficar bom como os heróis americanos que ele escutava nos compactos simples que conseguia com amigos em londres.
anos depois, numa dessas encruzilhadas, percebeu que conseguia compor algo, que era bom em criar riffs, que podia decidir por uma afinação mais aberta e, finalmente, ter sua assinatura em algumas das músicas mais importantes do rock mundial.
keith richards todo mundo conhece. e ele começou copiando.
o truque está em saber o momento de se desgarrar de seus mestres e passar a ter uma identidade, um dna reconhecível.

no desenho, é a mesma coisa. treino, observação, repetição, curiosidade.
se dar a liberdade de errar e tirar proveito disso.
o estilo, aliás, pode estar escondido atrás de erros e não na tentativa de se fazer tudo certinho mas isso a gente só descobre fazendo.
e fazer dá um certo trabalho.