Blog do Orlando

david bowie, a coroa britânica e uma fita cassete
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Orlando

Let's Dance 72

 

antes de conhecer o som vi a imagem.
era um poster da revista pop. um sujeito magrelo, cabelos laranja espetados e um macacão prata com listras pretas e laranja.
david bowie. david bôuie que eu achei que era david bouiê.
pendurei na porta do quarto que dividia com meus outros 3 irmãos.

o primeiro disco foi pin ups, covers de outras bandas.
eu que cuidava de minhas espinhas com deep purple e black sabbath fiquei ensimesmado. a capa com aquele fundo azul e um ser meio assim assim com um olho de cada cor.
na sequência comprei aladdin sane. choque. os riffs, a voz, jean genie que eu tocava nas festas e, de novo, a capa com aquele ser estranho.
eu tinha 14 anos.
um amigo mais velho me apresentou space oddity, hunky dory e deep purple teve que esperar um pouco.

diamond dogs era uma estranheza e foi o primeiro disco que me foi roubado. comprei outro anos mais tarde.
young americans, station to station, low, heroes, lodger foram acompanhados meio de longe. eu estava meio distraído e escutava uma ou outra coisa pelo rádio.
até scary monsters e seu clip bizarro com aqueles efeitos de quem estava descobrindo o computador. clipes, aliás, nunca foram o forte do david jones. quase sempre eram bregas, desajeitados e chatos.

em 1983, morando em londres, percebi a força do furacão bowie.
um cara que era a fins de minha namorada deu para ela uma fita cassete de let’s dance que tenho até hoje.
david bowie ditava as regras de moda e comportamento.
ternos, cabelos, o jeito cool de andar e olhar. e ia ficando cada vez mais bonito, mais charming, mais stáile.
dividia o pódium com michael jackson e marvim gaye.
a morte de marvin, em 1984, causou uma comoção sem tamanho.
imagino hoje como deve estar o reino unido sem o verdadeiro dono da coroa britânica.

hoje, david bowie is dead.
deixa um legado monstruoso e encerra uma era de elegância e inteligência.
sobra uma saudade estranha, alguns discos e uma fita cassete do cara que era a fins da minha mina.

 

 

 

 

 

 


luiz gê lança coletânea de charges sobre a ditadura no brasil
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Orlando

Ge - capa

luiz geraldo martins é referência de primeira grandeza nos quadrinhos. é também cartunista, ilustrador, diretor de arte, músico, cenógrafo e escreve bem pra dedéu.
luiz gê, como é conhecido, aos poucos vai retomando sua vida de artista gráfico depois de anos lecionando no curso de design do mackenzie. lançou uma adaptação de o guarani, relançou a saga da avenida paulista, voltou a colaborar com arrigo barnabé numa ópera e reúne, agora, charges produzidas para a página 2 da folha de s. paulo entre meados da década de 70 e meados da de 80.
esse período compreende o final dos anos de chumbo e o início da distensão política.
nas charges estão o humor afiado e ácido assim como o traço preciso e milimétrico que sempre o acompanhou.
“ah, como era boa a ditadura vem“, aliás, em boa hora quando grupos conservadores pedem a volta dos militares ao planalto.
nas 288 páginas de textos e charges é possível montar o cenário da época e, tristemente, perceber que nem tudo mudou de lá para cá. pelo contrário. muitas das charges são atualíssimas e poderiam ser publicadas em qualquer jornal de hoje.
vários personagens continuam atuando na política como os sarneys, collors e malufs.
“ah, como era boa a ditadura'', editado pela companhia das letras, é uma compilação de recortes de jornal que o próprio gê guardou em pastas. muita coisa deve ter se perdido mas a essência está ali.
abaixo, entrevista com o artista:

blogdoorlando – como vc se tornou chargista da folha?
Luiz Gê – Estávamos na ditadura e tentávamos mandar o recado contra ela de todas as formas, primeiro através da guerrilha gráfica da revista Balão, e, logo, na imprensa alternativa que nos colocou em contato com todo mundo da imprensa. Logo fiquei sabendo que haveria um espaço para a charge na Folha e fui para lá fazer contato com o diretor de arte. Imediatamente ele me colocou para ilustrar e logo em seguida comecei a produção na página dois. Eu ainda não dominava a linguagem e fui aprendendo no dia a dia. O mais importante é que ali, apesar de fortíssima autocensura inicial, que dificultava sobremaneira a criação, eu ficava em uma posição de ajudar na luta.

Ge 01

blogdoorlando – sua praia eram os quadrinhos. quais foram suas influências na charge?
Luiz Gê – Nossa geração era toda de humoristas, por influência de cartunistas brasileiros desde a década de cinquenta como o Borjalo e um dos meus favoritos, o Carlos Estevão. Na época, o pessoal do Pasquim era muito influente e Ziraldo, Jaguar, Fortuna, entre outros, eram referências para todo mundo. Mas haviam desenhistas estrangeiros em uma gama muito grande. De Steinberg à Ron Cobb, passando por Sempé e Ralph Steadman, todos eles eram muito fortes.

Ge - 02

blogdoorlando – o quanto o ambiente da redação mudou sua percepção da notícia de quando vc era simplesmente um leitor?
Luiz Gê – Acho que não dá para responder em apenas algumas linhas. O negócio é que na Folha a gente percebia a possibilidade real de interferir na realidade, de influenciá-la e muda-la. Era muito gratificante verificar que isso ia acontecendo com cada vez mais força. Mas éramos uma geração engajada e lida, o que significava um arcabouço para aquilo que fazíamos. Ninguém lia os jornais de forma ingênua, tínhamos um espírito bastante crítico, o que exige que você esteja sempre se formando, não apenas se informando e acreditando em notícia bestamente.

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blogdoorlando – vc é um perfeccionista obcecado. como era trabalhar com o relógio na prancheta?
Luiz Gê – Era angustiante. Tudo era corrido e concorria para que um monte de coisas desse errada. Mas o mais duro era quando uma charge boa não era aprovada e v tinha que colocar uma ideia mais fraca no lugar. Isso era duro. Você tinha mais ou menos uma hora para ter uma ideia, se ainda quisesse fazer a arte final. Era como andar na corda bamba. O que garantia um bom resultado? Haja criatividade… No entanto, no livro não há praticamente seleção. Nessa fase eu acho que estava produzindo legal, com fluência.

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blogdoorlando – seu livro retrata uma fase muito particular de nossa história. como vc vê a charge hoje?
Luiz Gê – Fase particular, mas que pelo visto a turma não conhece, ou esqueceu, e tem falado muita besteira. Por isso o livro.
Eu acho que atualmente eu gosto só da charge do Laerte. Ser chargista é uma coisa que exige autonomia, se não você vira um repetidor de linha editorial ou coisa do tipo. Por isso é que eu gosto da charge dele, que passa uma visão independente. Agora, acho que tem chargistas fazendo coisas na internet que eu não vejo. Já me falaram de alguns que são engraçados.

Ge 05

blogdoorlando – mas há saída?
Luiz Gê – Assim que acabou a ditadura eu já pensava em fazer um outro tipo de charge envolvendo outros aspectos da realidade, mas aí eu cumpri meu ‘serviço militar em tempo’ de guerra e saí do jornal. Os caras continuam fazendo aquilo que fazíamos na ditadura quando fazia sentido focar no circo lá de Brasília, pois naquela época aquilo era o poder absoluto. Hoje isso não faz mais sentido. Além do poder econômico financeiro (o verdadeiro poder) que passa praticamente incólume por tudo isso, há inúmeros aspectos a serem focados como a justiça devagar quase parando, mídias de todos os naipes, empresas privadas nacionais e multinacionais fazendo o que bem querem e raramente ou muito rapidamente checadas pela mídia. Não dá para colocar a culpa das mazelas só em um único fator e achar que toda a realidade se resume a isso. É preciso dar nomes aos bois, citar empresas, por exemplo, que abusam e não cumprem com a ética. Enfim, criticar o sistema também, pois o sistema capitalista hoje, com sua necessidade infinita de expansão e sem o menor controle sério, está colocando o mundo cada vez mais na beira do precipício. Em suma, acho que a coisa ficou meio bitolada nessa área.

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blogdoorlando – fora os que morreram, praticamente todos os personagens dessa época continuam atuando na política. a que se deve isso?
Luiz Gê – Quem não conhecer a história da ditadura não pode entender o Brasil atual. A ditadura deixou uma herança que cobre todos os setores da vida atual. Do desmonte da educação, da polícia repressora militarizada, de instrumentos legislativos e judiciários jamais revistos, das construtoras  e empresas corruptas, das concessões televisivas ideologicamente comprometidas, até o próprio sistema eleitoral e figuras como Sarney, Collor e Maluf. A ditadura entregou o poder a Sarney, presidente do PDS, o seu próprio partido, e as eleições para presidente só ocorreram 5 anos depois. Quem é que a Globo coloca no poder? Collor, outro político que passou do PDS para outro(s) partido(s) na última hora. A justiça que, diga-se, teve setores que colaboraram contra o próprio estado de direito na ditadura, se faz impotente com  figuras notórias como o Maluf “procurado” até pela Interpol, mas condena sem provas figuras não gratas à elite que hoje vem pedir… a volta da ditadura! Ou absolve os torturadores e militares terroristas que mataram tanta gente naquela época. Somos o único país que não acertou essas contas. A passagem da ditadura para a chamada democracia se deu da mesma forma como a nossa independência… disfarça-se a velha colônia que permanece impávida com todos os seus vícios. Permanecemos uma colônia, ainda falta muita luta para sermos um país verdadeiramente democrático.

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blogdoorlando – vc voltaria a fazer charge profissionalmente?
Luiz Gê – Eu estou com muita vontade de fazer meus quadrinhos, mas a situação brasileira está exigindo um certo engajamento outra vez. Tenho pensado muito nisso.

 

 

serviço:
ah, como era boa a ditadura
de luiz gê
288 páginas
quando: hoje, 7 de dezembro de 2015
a partir das 19h30
onde: livraria cultura
av. paulista, 2073 – conjunto nacional
preço: R$59,90

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


amely apaga velinhas hoje à noite em são paulo com livro e exposição
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Orlando

tira aniversario

amely, a boneca inflável mais metida do brasil completa 10 anos.
criada pela cartunista curitibana pryscila vieira, a personagem permanece firme, forte e charmosa sem se importar com rugas e dores no corpo.
para comemorar, amely recebe os amigos e fãs hoje na galeria ornitorrinco onde expõe tiras e esculturas além de lançar o livro que leva seu nome e que foi editado pela contenido.
leia uma entrevista com a cartunista aqui.

tira ciclo da vida

dia 18 de novembro, quarta-feira, às 20 horas.
Galeria Ornitorrinco
Av. Pompeia, 520 – Vila Pompeia- São Paulo/SP
(11) 2338-1146
preço do livro no lançamento: R$99 (na livraria custará R$120)

 

 

 

 

 

 

 

 


cabelo, brinco, assédio e outras #
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Orlando

 

Orla presidiario

aos 5 ou 6 anos eu queria ter o cabelo comprido do roberto carlos que assistia no programa jovem guarda aos domingos na casa de minha avó.
depois quis ter o cabelo comprido dos beatles e depois o dos hippies que pipocavam no início dos anos 70.
fiz um desenho de um hippie todo colorido no meio de um mundo decadente e cinza. minha tia falou: é isso mesmo, eles vivem no meio do lixo!
aí entendi, do alto de meus 14 anos que a vida não ia ser fácil.
liberto do corte “meio americano” imposto por meu pai, deixei o cabelo crescer. deixei crescer muito. longos e abundantes cachos castanhos que, se não estavam presos por um rabo de cavalo, batiam no meio das costas. deixei costeletas também, como as do robert plant. depois deixei barba mas a barba coçava e isso me incomodava muito.
em 1978, resolvi colocar um brinco.
nessa época vc ia num lugar tipo o mappin e comprava uma peça que se encaixava num revolver e, pimba, em um segundo a bijuteria estava instalada e dormindo no lóbulo auricular.
não doía. era só o sustinho do estalo da máquina.
agora, A COISA era chegar em casa, encontrar os amigos e encarar a estranheza.
meu cabelo era comprido, fazia uma cortina e a peça que escolhi era uma pequena e discreta bolinha azul turquesa.
ok, era azul turquesa mas era discreta, entendam. pequena.
meu pai viu durante um almoço.
me olhou com aquela cara de “era o que me faltava” e, na escola, entre ais e uis, o comentário de minha professora preferida: vc pôs um brinco? nãããoooo….

mas na rua a coisa foi mais impressionante.
andando pela theodoro sampaio, era muito comum alguém gritar de dentro do ônibus: ô viado! ô, bichinha!
não havia tatuados na rua, nem ao menos se andava de bermuda pela avenida paulista.
uma noite, tipo 23h, esperando um ônibus na praça da sé, um carro para do outro lado da rua. o ponto ficava em uma das laterais da catedral. o sujeito fica ali dentro olhando. eu na minha.
dois minutos, cinco minutos, sei lá quantos minutos, um senhor baixo, barrigudinho, meio careca, com seus 60 anos cria coragem de sair do carro, atravessa a rua e vem ao meu encontro.
somente a poucos passos o cegueta percebeu que aquela cabeleira pertencia a um garoto, não a uma garota, e perdeu o pé. pediu mil desculpas, disse que tinha sido um terrível engano e voltou correndo para o carro.

em 1986 compramos uma chácara.
passei a ser conhecido entre os peões e pessoal das casas de material de construção como orlando brinquinho. pra saber onde era, era só perguntar onde era o sítio do brinquinho.
hoje, todos os filhos de caseiros têm brincos, alargadores, tatuagens e andam de bermudas.
de 1978 pra cá, são passados 37 anos. nada, perto da eternidade.

e teve o amigo gay que veio tentar a sorte. continuamos amigos.
sei que não corri risco de vida, nem carrego mágoas ou dores.
são histórias como outras quaisquer e que doeram muito menos do que outras que poderiam ter uma # na frente também.
volto a falar disso.

 

 

 

 

 

 

 


lhamas de lorena kaz descem os andes e vão ao cinema
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Orlando

capa lhama

lorena kaz, carioca de 32 anos, é filha do diretor de arte gê e sobrinha de zélio e ziraldo.
nada mais natural que ela também enveredasse pelas estradas tortuosas das artes gráficas.
ilustradora e quadrinista, vem procurando seu espaço num universo povoado, majoritariamente, por marmanjos com poucos amigos.
na entrevista abaixo, ela fala sobre isso e sobre seu livro “uma lhama no cinema” que sai pela editora conrad.

blogdoorlando – de onde saiu esse personagezinho lhama?
Lorena Kaz – Sempre gostei de lhamas, não sei a explicação. Já morei no Equador e vi muitas, mas acho que o amor vem de antes. Depois que comecei a desenhar lhamas, vejo muitas outras pessoas declarando grande apreço por elas, comecei a achar que a lhama representa de alguma forma o universo alternativo, o debochado, o anti-herói.
A vontade de desenhar esta lhama que se fantasia e criar a página “Uma lhama por dia'', veio na volta de uma viagem à Bolívia. Procurei presentes engraçados de lhama na Bolívia mas não achei nada muito diferente do convencional, então decidi que eu ia desenhar uma lhama especial para cada familiar e fazer camisetas. Comecei a postar as lhamas para os familiares no facebook e amigos e fãs entraram na onda, pedindo mais e mais lhamas diferentes.

Lhama 01

blogdoorlando – e como surgiu a idéia de colocá-la como personagens de filmes?
Lorena Kaz – Inicialmente as lhamas realizavam tarefas rotineiras, andavam de bicicleta, liam jornal, eram uma representação da vida cotidiana, com o tempo e com a crianção da página “Uma lhama por dia'' os fãs começaram a pedir cada vez mais personagens e personalidades e a lhama foi ficando mais pop. Levei para a Conrad a ideia de fazer um livro de 365 páginas, com uma lhama por dia! Mas a minha editora Luciana Figueiredo propôs de separarmos as lhamas por temas como cinema, esportes e música. Para o primeiro livro, a escolha do tema “cinema'' foi unânime.

blogdoorlando – aliás, qual sua relação com cinema?
Lorena Kaz – Gosto muito de cinema e tenho carinho especial pelos filmes dos anos 80 por representarem a época da minha infância. Desenhei muitas lhamas dos anos 80 no livro, como o Marty McFly lhama do “De volta para o futuro'', “Goonies'' e “Indiana Jones'', acho que quem tem entre 25 e 45 anos pode achar uma graça especial no livro!

Lhama 02

blogdoorlando – vc tem desenvolvido vários projetos paralelos. como andam? e como vc está vendo o atual momento do mercado editorial?
Lorena Kaz – Estou fazendo um livro de quadrinhos também com a Conrad e planejamos lança-lo em maio do ano que vem. Este livro é muito especial para mim, é um trabalho profundo, sensível e consistente, baseado em estudos sobre dependência emocional e o feminino. Tenho muito orgulho deste trabalho que estou realizando e acho que ele vem em um momento muito oportuno, por conta deste “renascimento'' do sentimento feminista. Fora o livro de quadrinhos “Morrer de amor e continuar vivendo'' tenho mais um projeto de quadrinhos e dois livros infantis que estão declaradamente “parados por conta da crise''. Conheço muitos editores que se interessaram nos projetos mas não tem como produzi-los neste momento. Sei que a crise está forte no mercado editorial pois estou vendo muitos colegas da área sem frila ou emprego. Acho que seria um bom momento para lançar estes livros fora do Brasil, mas parece que não é tão simples.

blogdoorlando – como vc vê a participação das mulheres numa área que é predominantemente masculino?
Lorena Kaz – Estamos vendo um “boom'' incrível de mulheres nos quadrinhos! Tem muitas meninas tomando coragem para começar e me sinto um pouco precursora por ter começado a desenhar quadrinhos ha cerca de 12 anos.
Nunca fui discriminada profissionalmente por ser mulher, mas sim por fazer quadrinhos. Não acho que seja difícil apenas para uma mulher publicar quadrinhos em uma grande editora ou vender quadrinhos, isto é uma tarefa muito difícil para qualquer um no Brasil, independente do sexo.
Não sei como foi na época do Pasquim ou na Chiclete com banana, se as mulheres não eram bem vindas, então não posso falar historicamente da cultura do machismo nos quadrinhos mas desde que me entendo por gente, nunca me senti discriminada dentro da área de quadrinhos, muito pelo contrário, sempre me senti especialmente bem vinda.

Lhama 03

OBS:
Tenho uma teoria sobre a escassez das mulheres nos quadrinhos, que não está ligada ao machismo dentro da área de quadrinhos especificamente, mas sim ao formato da família dentro da sociedade.
Acho que o trabalho de fazer quadrinhos é muito minucioso, exige muita dedicação e um pouco de um comportamento obsessivo.
O casamento, na sua forma tradicional, consistia na mulher cuidar da casa, da família, da comida, da roupa e de todas as condições para que o homem pudesse dedicar todo o seu tempo ao trabalho.
Assim foi com tantos cientistas, artistas e pintores, considerados geniais, que tiveram a oportunidade de se dedicar obsessivamente ao seu trabalho por serem homens. Tinham o aval da sociedade e a mulher para cuidar deles.
Além de tudo, diz se que fisiologicamente (por uma questão evolutiva, para cuidar dos filhos ou vice-versa) as mulheres tem maiores habilidades para relações sociais e realizar múltiplas tarefas simultaneamente, o que combinado com a jornada dupla de trabalho, dificulta bastante que passem muitas horas seguidas em concentração obsessiva.
Com novos formatos de família e mais tolerância em relação ao papel dos indivíduos na sociedade, vem a possibilidade de as mulheres se dedicarem ao trabalho tanto quanto os homens.
E também há uma abertura do mercado para as mulheres, em relação aos novos formatos de quadrinhos que vão surgindo.
O gosto da sociedade está mudando. As pessoas já podem cada vez mais expressar seus sentimentos e emoções.
Antigamente, eram quase um monopólio, os temas de fantasia (super heróis, cowboys, ficção científica, aventura, violência, etc), além de quadrinhos eróticos e piadas sujas que muitas vezes objetificavam a imagem da mulher.
Hoje existe um pouco mais de abertura para a sensibilidade do autor.
Também a valorização do desenho autoral e não necessariamente incrivelmente técnico e detalhado, a valorização do ponto de vista do autor, do argumento e da ideia em relação ao trabalho manual exaustivo, facilitam que o quadrinho possa ser feito de forma mais rápida e que uma mulher consiga ter um trabalho de autora de quadrinhos e cuidar dos filhos sem precisar, talvez, passar várias noites em claro.
O que vejo em geral, é que o quadrinho autobiográfico e sensível prende muito mais as mulheres do que o quadrinho de fantasia. É claro que existem muitas exceções e cada vez o sexo do indivíduo importa menos e o define menos. Mas com mais exemplos de trabalhos femininos, mais meninas vão se sentir a vontade para fazer e mostrar o seu trabalho e isto é um ciclo vicioso.

 

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O livro vai custar R$19,90.
Tem um poster autografado para as primeiras 100 pessoas que comprarem o livro no lançamento.
Também, as primeiras 20 pessoas que levarem 2 amigos ganham uma bolsa e as que levarem 3, ganham bolsa e um desenho da lhama personalizada.