Blog do Orlando

comic con experience é caldeirão de experiências boas e ruins
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Orlando

comic con experiences talvez fosse um nome mais adequado para o evento que aconteceu no são paulo expo de 1º a 4 de dezembro em são paulo.
de boas a ruins, tem para todos os gostos, de filas gigantes a desfiles de cosplays, de gibis a bandas de rock.
visitei o espaço gigantesco (150 mil metros quadrados) no dia anterior à abertura e às 19h quase tudo estava no chão ainda. vc pensa: não vai dar tempo.
deu.
no dia seguinte, quando as filas davam voltas e voltas para a entrada, dentro cheirava carpete novo e tinta fresca.
em plena quinta-feira, meio dia, o espaço era tomado por milhares de garotos e adultos que esperavam que aquele lugar se tornasse, por quatro dias, mágico.
seria cabotino de minha parte fazer uma análise do evento como um todo já que fiquei “confinado” ao espaço do artists’ alley, destinado aos criadores e produtores de quadrinhos.
no centro do evento, mais de 300 desenhistas e roteiristas expuseram seus livros, gibis e prints para um público que trazia dinheiro vivo para as compras e é a partir daí que faço minhas observações.

no artists’ alley existiam 4 categorias: os picas estrangeiros, os picas brasileiros, um mundo de desenhistas e eu.
os picas estrangeiros e os picas brasileiros produziam filas instantâneas sempre que se aproximavam de suas mesas. na grande maioria são experientes e têm toda a paciência do mundo para lidar com seus fãs que elogiam, pedem autógrafos, fotos e abraços.
todos têm seu momento menudo.
os outros desenhistas, enfileirados, produziam o grand bazaar do evento, disputando as centenas de milhares de reais que flanavam pelo espaço oferecendo lançamentos, seus produtos de linha, novidades ou nem tanto.
a comic con, antes de ser o evento épico e catalisador, é um evento extremamente comercial. tudo se vende, tudo se compra. e caro. uma água a 5 mangos, uma água de côco a 12, um x-burguer amassado do bob’s a 15, um cachecol do harry potter a 150, uma cabeça de plástico com pipoca dentro a 50, estacionamento a 40 pilas, só para ficar em alguns exemplos básicos.
por último, eu, possivelmente o único ilustrador/cartunista do evento. eu não faço quadrinhos.
isso pode não ter sido uma grande ideia já que o público da comic con é extremamente conservador. quer ver os seus heróis de sempre, quer mais do mesmo, quer rever os mesmos seriados, os mesmos filmes, cultuar os mesmos nomes e consumir os produtos já consagrados. há pouco interesse pelo novo pelo o que eu pude perceber.
diante de um desenho do batman beijando o super-homem, as expressões eram de espanto e vergonha. cutucadas em quem estava do lado.
fiquei sem entender até que uma jovem disse: “lindo isso! lindo! mas se eu apareço com isso em casa, minha mãe me mata.” e ela não era exatamente uma criança…
dentro da comic con não se vende nada alcoólico.
gordura trans, açúcares, anti-oxidantes, corantes e flavours têm para todos os gostos.
tampouco se vê publicações de crumb, allan sieber ou adão iturrusgarai. desenhistas de coisas bem fofas e meigas, aliás, se dão muito bem mesmo entre os adultos.
evidentemente me senti honrado em ter sido convidado a ter uma mesa exclusiva, bonitona e com um painel classe atrás de mim. mas senti falta de mais ilustradores/cartunistas participando e de uma rodada de discussões sobre esse segmento.

se foi uma bola dentro ter colocado o artists’ alley no centro do evento (no ano passado ele ficava na turma do fundão), o que o cercava não foi nada agradável.
de um lado o stand da netflix e do outro, o palco rock.
a netflix montou um palco com 3 atrações: um karaokê, um esquete de dublagem e um momento mímica animados por um grupo de 4 apresentadores que se revezavam nos berros e na tentativa de levar o público à histeria.
muita gritaria o tempo todo, distribuição de camisetas, adesivos e posters para o lado do público mais animado.
o portal do inferno se abria quando começava o karaokê que tinha 4 opções de música de seus seriados. todos escolhiam a mesma canção. what’s up, do grupo four non blondes, no sábado, tocou pelo menos uma centena de vezes num volume ensurdecedor.
não vou comentar as interpretações.
na outra ponta, o palco rock trouxe bandas de heavy metal com repertórios próprios e/ou covers.
ninguém conseguia conversar entre si ou com os possíveis compradores. no início da tarde todos estavam roucos e a bagaça iria ainda até as 22h…

pontos negativos também para os funis nas ruas ao redor do são paulo expo, pela falta de sinalização externa, pelo bate cabeça nas informações fornecidas pelos terceirizados que deveriam orientar o público, pela falta de esquema para se descarregar as caixas com impressos e falta de acessos opcionais. tudo é longe, se anda muito para tudo.
e o calor, claro.
na quinta e sexta o tempo estava nublado e houve quem reclamasse do frio.
com o sol a pino de sábado e domingo, a sauna estava em modo on.
calor, barulho, gente fantasiada e estava feito o carnaval geek.

de pontos positivos, a comic con ser um evento quase sem incidentes mesmo com a quantidade absurda de visitação, ser um evento que mostra que a crise pode ficar pro lado de fora da porta, de juntar gente que está a fins de produzir e gente que quer consumir e se divertir.
e, de fato, as pessoas se divertem muito mesmo passando horas em uma única fila.
uma cervejinha ajudaria muito.

 

 

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des.gráfica chega ao mis com quadrinhos, arte gráfica e muita conversa
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Orlando

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os quadrinistas brasileiros continuam mandando ver!
depois de quase 6 anos organizando feiras, coletivos, formas de captar e viabilizar projetos autorais, aterrisam no sagrado solo do mis, museu da imagem e do som de são paulo.
andré sturm, antenado como sempre, pede que rafael coutinho pense e organize um evento que substitua a feira plana que se mudou para outro local.
então tem feira, tem gráfica para imprimir trabalhos de 5 selecionados, quadrinhos, artes gráficas, artes plásticas e discussão.
sim, porque depois que se faz, precisa parar para colocar as coisas na balança, avaliar riscos, rotas e futuro.
a des.gráfica chega neste domingo, 13, para botar mais fogo na bagunça.
a seguir, entrevista com rafael coutinho, organizador que apaga fogo com gasolina:

blogdoorlando – pouquíssima gente consegue viver de quadrinhos no brasil. por que, na sua opinião, tanta gente produz tanta coisa?
Rafael Coutinho – Porque arte nunca prescindiu de remuneração. É óbvio que é fundamental, mas o desejo e as ideias se sobrepõem a todo resto, quando é realmente do desejo de seus produtores. E essa é uma época muito única pra ser artista, por todos os motivos zeitgeistianos que compõem nosso atual contexto. É mais fácil criar repertório específico hoje em dia, chegar rápido em um vocabulário multifacetado de referências, se manter motivado com produções muito específicas, acompanhar ao vivo autores que admiramos. No final do dia, acho que nem é muito saudável viver de uma coisa só hoje em dia. E gosto de olhar pra quadrinho e artes como olho pras outras profissões também, pra não ficarmos tão ensimesmados: é foda viver de qualquer coisa. É foda viver hoje em dia, ponto. Pela aceleração do mundo, pela quantidade de estímulos, pelo vazio inerente nas atividades e ferramentas sociais, pela própria distância que hoje existe entre experimentar e refletir sobre tudo isso, digerir. Enfim, acho que me distanciei um pouco da pergunta, mas acho que quadrinhos é tudo isso. É tentar dar ordem a isso, botar em sequência, enquanto o trem corre, olhando pela janela.
E acho que quadrinhos mudou muito do que era, e digo isso de um ponto de vista mais fundamental. Muita gente que produz quadrinhos agora não produzirá mais em alguns anos, porque o meio permite isso já. O sujeito produz, mantém um blog ou página no fb, depois pára uns anos, volta, retoma alguma coisa, depois pára, faz outras coisas bem variadas ligadas, e tudo bem. Se transformou pra muitos jovens em uma ferramenta de auto conhecimento, de militância dirigida pra esse ou aquele assunto que os une, dialoga com esse ou aquele meme ou discussão, e depois muda. Vejo isso tudo com bons olhos, acho que estamos passando a barreira que definia até onde a linguagem podia ir, e que tipo de formação ela exigia.

blogdoorlando – tivemos uma época em que o humor dava o tom, e heróis. hoje todos falam das coisas ao seu redor. seria uma forma de terapia?
Rafael Coutinho – O humor também era, não? Mas sim, acho que há uma mudança aí também, entre o desejo de se questionar o comportamento de uma nação e esse mais local, que impera. Estamos nessa era da fragmentação. Subdivididos em nichos de atuação, unidos pela timeline, e não mais pela Folha de São Paulo. Mas o humor ainda exerce um papel bem fundamental, acho. Só apareceram mais opções, em contraponto a uma época onde só existia o humor. Mas que isso não substitua a própria terapia, amigos. Se tratar é bom, hein? Tâmo precisando.

blogdoorlando – e tem esse monte de feiras e encontros. quadrinistas estão ansiosos para falar?
Rafael Coutinho – Hahahaha. Visto o tamanho das minhas respostas, acho que sim. Mas as feiras são um retrato de uma ansiedade por conexão com o público, com a troca entre colegas. E de um mercado que tem se formado através das feiras, resposta imediata as carências desse outro mercado formal que não dá conta. O mercado das feiras é uma realidade, escoa uma produção que não tem outro lugar. É realmente uma necessidade.

blogdoorlando – qual a diferença da des.gráfica para outros eventos de quadrinhos?
Rafael Coutinho – Nosso foco é a experimentação. Quando o MIS me convidou pra bolar algo com eles, pensei imediatamente nesse outro problema que as feiras encaram agora, com o boom de eventos voltados para o mundo das publicações independentes, onde vemos que alguns ali simplesmente nunca vão bem em termos de vendas. Nos quadrinhos isso é muito evidente. Eventos como a Parada Gráfica em POA ou a UGRA construíram uma identidade nesse meio de caminho entre produções editoriais mais próximas das artes plásticas, da manufatura, e de uma demanda do público por quitutes visuais que transbordam dos limites do livro que de alguma forma deu casa para quadrinistas com um perfil mais experimental, um autoral estranho, gente com objetivos mais elaborados pro que pode acontecer no âmbito narrativo.
Então a ideia de DES.GRÁFICA era criar esse espaço onde esse povo do fundão (no sentido mais carinhoso possível) pudesse estar na linha de frente, em destaque, com holofotes em cima. E fazer esse nova apresentação ao público desse material, provando que ele também pode ser pop e acessível, divertido, instigante. E acho que depois dessa fase de mais ou menos seis anos onde as feiras se firmaram como realidade no meio, a tendência é que cada uma se direcione mais pra um lado específico da produção. Somos esse evento dos quadrinistas experimentais, e acredito que o evento ajudará a todos descobrirem até onde essa experimentação pode ir. Há um universo muito amplo na linguagem que foi pouquíssimo explorado no Brasil, e um claro desejo crescente de se ir mais pra esse lado. Sair do convencional.

blogdoorlando – como surgiu o projeto?
Rafael Coutinho – De um convite do MIS e do André Sturm. Eles foram muito abertos e pediram as ideias mais ousadas que pudéssemos pensar. Já tinham sido a casa da Feira Plana, e queriam criar um evento de quadrinhos que fosse realmente do MIS. Criamos a convocatória nacional por projetos de quadrinhos experimental, compramos uma máquina digital maravilhosa pra imprimir eles e que será usada em novos projetos pra 2017, além da feira e abrimos o convite pra alguns animadores que transitam entre quadrinhos e animação e seguem esse caminho dentro do áudio visual. Eles toparam trazer também o Ilan Manouach, um grego maluco e com um trabalho maravilhoso, pra falar do trabalho que desenvolve como quadrinista plástico-conceitual, um cara que pensa quadrinhos de uma forma bem expandida e muito interessante. E mais um monte de pequenos detalhes que o MIS encarou e entrou 100% de cabeça, e isso fez toda a diferença pro evento virar o que virou.

blogdoorlando – findas as inscrições, quais os números?
Rafael Coutinho – Tivemos 79 inscrições na convocatória, que contou com cinco contemplados ao fim de um processo muito incrível de crítica e analise do corpo de jurados, composto pelo crítico português Pedro Moura, o quadrinista Pedro Franz, Raquel Gontijo – dona d’A BOLHA Editora, a artista plástica Jac Leirner e o também artista plástico Ralph Gehre. Teremos aproximadamente 100 expositores na feira, de todos os cantos do país. E claro, a ideia é amadurecer o projeto, continuar abrindo essa porta para os anos seguintes.

blogdoorlando – e como serão as mesas de discussão?
Rafael Coutinho – Vou apresentar um site de pesquisa de intensão de compras em publicações, o CMYX, feito com apoio do MIS, cujo objetivo é sanar alguns dos problemas que enfrentamos no mercado editorial independente – como saber quantas pessoas realmente querem o material, como chegar até elas, como evitar problemas provenientes de um sistema de produção de quadrinhos que ficou próximo demais do sistema primitivo de vendas via financiamentos coletivos, e até mesmo essa necessidade dos quadrinistas em virarem pequenos empreendedores da noite pro dia.
Depois da apresentação teremos um bate-papo geral sobre esse mercado e essa nossa realidade, e pro onde vamos a partir daqui. Depois disso haverá a apresentação do Ilan Manouach. E depois festa. É raro conseguirmos juntar tantos autores tão excelentes e empenhados nesse universo de produção.

blogdoorlando – qual o saldo que vc, pessoalmente, espera?
Rafael Coutinho – Já passou de todas as minhas expectativas. Queremos que o público abrace, venha em peso prestigiar, curtir, vai ter coisa pra quem quiser vir com filho também. Mas o trabalho todo foi muito prazeroso, a equipe do MIS foi incrível, e só de realizar o evento como concebemos já é uma vitória incrível. Tenho absoluta certeza que todo mundo vai curtir, tanto autores como público. Tá realmente muito bonito.

 

serviço:

13 de novembro, domingo
15h | Lançamento do site de pesquisa editorial CMYX – Uma apresentação da plataforma simples criada pela Des.Gráfica no qual cada autor pode inserir seus projetos para que os usuários possam demonstrar interesse de compra. Ele precede a impressão de fato, bem como o financiamento coletivo. A ideia é mapear o interesse do público nos publicações.
 16h | Conversa sobre o mercado editorial independente com participantes da feira, mediado por Rafael Coutinho.
 18h | Palestra com Ilan Manouach* mediada pelo quadrinista Pedro Franz
14 e 15 de novembro, segunda e terça-feira
Feira de Quadrinhos e publicações independentes | 13h às 20h 
A feira contará com 100 participantes de todos os cantos do país, além de algumas editoras conhecidas no meio mais independente, como Mino, Lote 42, Ugra, Narval, Antílope e Veneta. O Estúdio Invertido, que também participa da feira, ficará responsável pelas capas dos livros dos vencedores da Convocatória.

Video mapping de animação experimental | Local: Fachada do MIS | Horários variados
Os artistas confirmados são Paula Puiupo, Daniel Semanas, Paulo Stocker, João Lavieri, GUMA, entre outros.

13 a 15 de novembro de 2016
dia 13: das 14h às 21h
dias 14 e 15.12 : a partir das 13h (os ingressos para a primeira palestra serão distribuídos com uma hora de antecedência). Entrada na feira até às 19h
auditório MIS
ingresso gratuito

MIS – Museu da Imagem e do Som de São Paulo –
Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo – SP, Brasil. CEP 01449-000.
Telefone: 55 11 2117 4777

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com livro novo, laerte diz que desenhar é um pouco como transar
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Orlando

Laerte capa fechada em ALTA

desculpem, mas eu vou manter o artigo masculino. só assim posso continuar chamando laerte de O cara.
e fora o fato de ele já ter declarado que não se importa que seus velhos conhecidos o chamem da forma como sempre o chamaram, a verdade é que seu talento como artista e como figura pública ultrapassa em muito a questão dos artigos masculino ou feminino.
laerte tem uma obra extensa, inquieta, sempre surpreendente como podemos atestar em seu novo livro modelo vivo com lançamento neste sábado, 5, pela barricada, selo de quadrinhos da boitempo.
com organização do incansável toninho mendes, o livro é um pouco caótico. isso talvez reflita bem o mundo repleto de gangsters, palhaços, mulheres, dúvidas e questões filosóficas de laerte.
pontuadas por desenhos soltos e livres feitos em sessões com modelos vivos, dezenas de histórias e tiras pinçadas das revistas circo, piratas do tietê, cachalote, geraldão e chiclete com banana mostram o como e o porque de ele ser um dos mais importantes quadrinistas que o brasil já produziu.
o livro, mais que um recorte de sua obra, é uma dessas experiências com cheiro de frescor apesar do tempo.
poucos autores mantém esse ar de eterna novidade, por mais que ele ache o contrário.
a crueldade dos quadrinhos tem similaridade com o cinema. depois de feito, não tem volta.
quer dizer, tem: refazer tudo.
como prova o livro, laerte não precisa refazer nada.
nele, tem histórias antigas, tem modelo vivo. e um autor vivíssimo!
abaixo entrevista:

blogdoorlando – apesar de muitos artistas se destacarem na infância por desenharem bem, para eles o desenho é sempre um mistério, uma dificuldade.
como foi e como é para vc?
Laerte – Pra mim não era mistério, era mais uma delícia, um sentimento de poder. Minha memória guarda uma época em que percebi que desenhar era controlar histórias: mudá-las, prosseguí-las, repetí-las…e, mais tarde, criá-las. Há dificuldades, claro. Mas não chegam a entrar no campo do mistério.

Laerte 03

blogdoorlando – todo mundo acha que desenhar é só riscar que sai…
Laerte – ah, eu adoraria que fosse! Adoraria que nem precisasse riscar. Um aplicativo orgânico que transplantasse o desenho imaginado direto pro papel. Agora, tem uma coisa que muito desenhista tem, esse prazer no riscar, no cansar de riscar (você tem), que pra mim é difícil. Eu desenho quando não tem mais o que enrolar fora do papel.

blogdoorlando – seu novo livro tem coisas de várias épocas.
como vc vê esses trabalhos em retrospecto?
Laerte – com uma melancolia. Não gosto muito de ver o que fiz. Aparecem problemas em todo canto, dá um arrependimento, não sei. Não gosto não. Mas gosto de ver os desenhos de modelo.

Laerte 01

blogdoorlando – é comum a gente achar que desenhos soltos, rabiscos, têm mais vida do que trabalhos finalizados. no seu caso, o movimento é parte essencial.
Laerte – Espero um dia conseguir esse tom, esse ponto – a soltura do rabisco como resultado. O Fortuna chegava nessa soltura, mas fazia um caminho complexíssimo até chegar. Os originais dele tinham camadas geológicas de correções e emendas.

blogdoorlando – em suas histórias, o desenho serve de suporte para a ideia, para o roteiro que vc pensou.
como vc trabalha essa combinação?
Laerte – Varia de história pra história. Em geral me motiva muito mais a ideia. Algumas delas “pedem” uma solução gráfica especial, outras sugerem discretamente. Mas faço sempre várias tentativas de roteiro, construindo antes ou mesmo enquanto desenho. Quando a ideia é boa a ponto a ponto de me deixar excitada, mal posso esperar, vou logo desenhando e finalizando. Às vezes dá uns erros…

Laerte 04

blogdoorlando – em várias de suas histórias existem espaços, ruas, postes, cenas de observação.
qual a diferença entre o desenho de observação e o de modelo vivo?
Laerte – Modelo vivo é gente, isso muda tudo. É alguém como a gente. Com cenários em torno acabamos estabelecendo uma relação mais fria.

blogdoorlando – vc gosta de desenhar?
Laerte – Olha. Eu gosto. Mas não consigo ter muita paciência e carinho. É um pouco como transar.

Laerte 05

serviço:

Lançamento e sessão de autógrafos de Modelo vivo
Laerte Coutinho
5 de novembro | sábado | Das 15h às 17h
Comix Book Shop | Alameda Jaú, 1998 – SP – SP
R$49

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sebastião salgado, a vida de artista não é doce!
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Orlando

o fotógrafo sebastião salgado, do alto de seus 72 anos, decretou que a fotografia deixará de existir em 20 ou 30 anos.
todos sabemos, que além dos dinossauros, o que foi pro saco mesmo foram a linotipo, o past-up e os orelhões de rua.
o resto continua por aí de uma forma ou de outra.
é verdade que a fotografia virou outra coisa, um clique atrás do outro, imagens perdidas em celulares ou hds.
mas isso é fotografia?
são registros, anotações como as dos diários dos adolescentes. imagens com outra pretensão que não registrar caras e bocas.
decretar o fim da fotografia por conta da tecnologia ou por estar acessível a todos, parece exagero.

todo mundo pode riscar algo enquanto está no telefone, pode rabiscar muros, pintar camisetas.
isso não faz dessas pessoas artistas. pintores, ilustradores, cartunistas e, por que não, fotógrafos, são pessoas que usam sua sensibilidade e ferramentas para dizer algo diferente das fotos de família ou de turma no bar.
e essas ferramentas estão aí para serem usadas a nosso favor.
o perigo é o sujeito acreditar que uma super lente ou um mega blaster computador vai dizer algo. e isso acontece muito.
fotos ou desenhos ultra bem acabados mas sem sentido nenhum sempre existiram e vão continuar existindo pelo simples fato de que muita gente não tem o que dizer apesar do domínio técnico.

a fotografia, o desenho, o cinema, a tv, o teatro, a literatura sempre estarão passando por mutações. é inevitável.
o que temos a dizer é que continua sendo o mistério dessas profissões.
a profissão do artista é surpreender e isso nem sempre é doce.