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editoras não deveriam contar com um único cliente
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Orlando

a baixa performance da economia brasileira continua fazendo vítimas e uma delas é o mercado livreiro.
com a diminuição de editais como o o PNLD (didáticos) e o PNBE (literatura para bibliotecas escolares), do número de exemplares comprados pelos planos de adoção e com o atraso dos repasses pelo mec, a luz vermelha das editoras acendeu.
o governo brasileiro é o maior comprador de livros do planeta. segundo dados de 2013, essas compras correspondem a cerca de 37% do faturamento do setor.
só para se ter uma ideia do tamanho da encrenca, entre dezembro e fevereiro deste ano, 26 editoras entregaram 140 milhões de exemplares. R$1,15 bilhão que o mec se comprometeu a pagar a elas.

mas, vamos lá. no brasil existe um mercado livreiro? não.
diz-se que buenos aires tem mais livrarias que o brasil todo. um livro médio tem uma tiragem de 2 ou 3 mil exemplares para serem vendidos em 2 ou 3 anos.
isso é mercado?
o país tem mais de 200 milhões de habitantes e ainda falamos em tiragens desse naipe.
editoras e livrarias comercializam livros e livros são comercializados como se fossem panelas, barbeadores, arroz ou feijão. eles têm custos, uma cadeia produtiva, estratégias, prejuízos e lucros. o fato de serem “cultura” quer dizer muito pouco. é como a soja ou o tomate que são “alimento”. para o produtor, devem gerar lucro.
pois bem.
a indústria livreira “se encostou” nas compras proporcionadas pelo governo. ficaram dependentes desse cliente único e generoso.
não é para menos.
os títulos aprovados são produzidos e entregues diretamente ao comprador.
não existem intermediários, nem espera por um público que pingue nas livrarias, logística de distribuição, nem nada.
produziu, entregou, recebeu.
negócio da china que compensa mesmo com os descontos de 70 ou 80% pedidos pelo edital.
isso faz com que essa fatia seja tão disputada.

acho que existem algumas leituras:

1. as editoras se esqueceram que vivem num país capitalista. deveriam investir em seu negócio e nunca se acomodar com um único cliente.
2. o mercado exige que vc crie oportunidades e descubra novos e potenciais consumidores.
3. vc deve produzir o melhor e pelo melhor preço.
aqui, cabe um comentário: as editoras têm, cada vez mais, se esmerado em apresentar produtos com todo o tipo de diversidade e com um acabamento gráfico cada vez mais primoroso.
isso ninguém pode questionar.
ao mesmo tempo, por conta dos descontos que os editais impõem, os preços nas livrarias explodiram nos últimos anos.
me corrijam se estiver errado.
4. o governo acertou em apontar a diversidade como ponto de partida nas escolhas de suas compras. isso não era uma alternativa do mercado livreiro que, conservador, sempre apostou nas mesmas tendências e terrenos seguros. minorias e quadrinhos, por exemplo, que não faziam parte do menu da maioria das editoras, passaram a constar de seus selos.

mas acho que valem outras leituras particulares:

1. apesar de os programas de fomento à leitura serem uma espetacular possibilidade de crianças da rede pública terem acesso à leitura, nada garante que se tornarão leitores.
pior, no meu ponto de vista, esses programas fazem com que as crianças acreditem que livro é “uma coisa” que vc ganha na escola.
terminado o período escolar, esse quase adulto vai gastar seu dinheiro com tênis novos ou smartphones ao invés de ir a uma livraria ou sebo.

2. isso é culpa da escola ou do governo?
evidentemente, não.
a culpa é das editoras que não percebem que existe um abismo entre as políticas públicas e o mercado do qual elas, as editoras, fazem parte.

3. por não entenderem de seu próprio negócio, começou a choradeira. protestos, cartas e documentos de toda ordem chegam aos gabinetes do planalto questionando os cortes no orçamento e das compras diretas.
há algo errado aí.
editoras deveriam cuidar de seu negócio criando leitores, tornando seus livros objetos de desejo assim como todo o mercado faz.
enquanto tratar livros como aquela coisa que a criança ganha na escola e aquela coisa que o rico pode comprar, a conta não vai fechar.

4. a pátria educadora do atual governo precisa de parceiros que entendam o que significam 200 milhões de potenciais consumidores.

5. precisamos, claro, entender que existem editoras e editoras. anos atrás houve um frenesi nas compras de editoras brasileiras por outras estrangeiras e compra de editoras por outras especializadas em revistas populares. todas tinham os olhos brilhando pelas verbas públicas.
pouco fizeram além disso.
em contrapartida, surgiram centenas de pequenos selos que sentiram esse mercado evoluir e tentam, dentro de seus limites, deixar marcas e preencher nichos que as grandes não vislumbram.

6. mais radicais, explodem pequenos espaços como a feira plana, em sp, e a parada gráfica, em porto alegre, que conseguem reunir milhares de pessoas ávidas por algo que respire, que traga novidades, que movimente a pasmaceira do não-mercado das grandes.
de olho nisso!

7. as editoras, nestes próximos meses de aperto, vão continuar batendo na porta do governo, vendendo suas edições para seus mil e poucos leitores fiéis e se esquecendo de que existe tudo ainda para se inventar no brasil no que concerne à formação de leitores e, claro, consumidores para seus produtos.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


fábio moon e gabriel bá lançam adaptação de épico de milton hatoum em sp
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Orlando

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a ficção dois irmãos, do escritor amazonense milton hatoum, foi lançado em 2000.
trata-se da história de dois gêmeos, yaqub e omar, de origem libanesa e que vivem em manaus. hatoum também tem ascendência libanesa e nasceu na cidade.
o livro traz uma apaixonante história de conflito entre os dois.
fábio moon e gabriel bá são paulistanos e também gêmeos.
foram escolhidos pela editora companhia das letras para adaptar a saga para os quadrinhos. eles já haviam feito isso, com muita propriedade, com o conto o alienista, de machado de assis.
ao contrário dos irmãos criados por hatoum, eles não tem tantos conflitos, não se odeiam e consolidaram, juntos, uma carreira muito bem sucedida no mercado de quadrinhos nacional e internacional.
abaixo, entrevista com os dois sobre as dificuldades de se adaptar um livro denso e delicado como esse:

blogdoorlando – mais uma adaptação. agora, um livro de peso e não um conto. fora isso, um livro que tem uma cronologia que vai e vem.
qual o grande desafio?
Moon - Explorar em Quadrinhos essa narrativa não linear, esse fluxo de pensamento desordenado que comanda uma história que trata da memória dos personagens, foi o grande desafio. Na prosa, você tem todo o espaço do mundo para compor essa narrativa, você constrói com as palavras e a imaginação do leitor. Nós queríamos acrescentar uma nova camada, a dos desenhos, para recontar essa história sem perder a força ou a complexidade.
Bá - O livro é complexo, intenso, profundo, forte. E longo, não só pelas suas 266 páginas, mas por contar uma história que atravessa 50 anos da história de uma família, de Manaus e do Brasil. É um épico. O desafio era ajudar a contar este épico com as ferramentas que os Quadrinhos nos oferecem: cenas amplas, cenários bem trabalhados, desenhos impactantes, o silêncio que diz muito.

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blogdoorlando – como vcs foram convidados para esse projeto? serem gêmeos pesou na escolha?
Moon - Pesou no convite, com certeza. O André (Conti, editor de quadrinhos na Quadrinhos na Cia.) nos fez o convite inicial durante a FLIP em 2009, num jantar oferecido pela Companhia das Letras, quando viu o Milton e a gente no mesmo espaço. Olhou para os três lá juntos e sugeriu: “não seria incrível se vocês fizessem uma versão em Quadrinhos do Dois Irmãos?'' O Milton abriu um sorriso, os seus grandes olhos brilharam, todo interessado. Como eu já tinha lido o livro, sabia que ia ser difícil, falei que era muito complicado, mas a semente já tinha sido plantada.
Bá - Depois de outro jantar na casa do Luiz Schwarz, onde ele mesmo perguntou o que achávamos desta ideia, mais uma vez na frente do Milton, eu decidi ler o livro e ver qual o tamanho do problema. Li e me apaixonei pelo problema, e paixão a gente não segura. Nada como um bom desafio para motivar o trabalho.

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blogdoorlando – vcs já conheciam o trabalho do hatoum?
Moon - eu já tinha lido o Dois Irmãos quando saiu, em 2000, justamente pela curiosidade de ler uma história sobre gêmeos. Antes de começar a adaptação, tinha lido também Órfãos de Eldorado.
Bá - Eu não tinha lido nada. Naquela FLIP, o Milton me presenteou com uma cópia do “Relato de um certo oriente'', seu primeiro romance. Comecei a ler, mas o trabalho atropelou tudo. Já comecei três vezes, mas sempre aparece alguma coisa e eu abandono no meio. Aí começamos a trabalhar no “Dois Irmãos'' e eu fiquei com medo de misturar as histórias e parei. Agora que terminamos o livro, já li “Um solitário à espreita'', de crônicas, o “Cinzas do Norte'' e pretendo ler o “Órfãos do Eldorado'', pra depois voltar novamente ao “Relato''. O estilo e a temática do Milton são encantadores, quase um vício.

blogdoorlando – de alguma forma vcs se identificaram com os irmãos yaqub e omar?
Bá - Ao contrário dos gêmeos do livro, não existe conflito entre nós dois que não se resolva. Mas a gente sabe como as pessoas vêem gêmeos, como todos pensam que eles são iguais, são a mesma pessoa e pensam as mesmas coisas. Isso a gente conhece bem.

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blogdoorlando – a história trata de uma família de imigrantes libaneses e se passa em manaus. que intimidade vcs tinham com esses dois universos?
Bá - Nenhuma, e esse foi um dos desafios que nos atraiu para o projeto. É inclusive um dos encantos da história, esse Brasil diferente, remoto, uma outra realidade. Fugir do lugar-comum nos interessa, é atraente para o público nacional e estrangeiro. Mas precisávamos entender este universo, por isso viajamos para Manaus para conhecer a cidade e entendê-la, mapeá-la, imaginar a história naquele cenário. E as poucas conversas com o Milton ajudaram muito a compreender os sentimentos que a história carrega.

blogdoorlando – vcs foram ao salão do livro de paris com milton hatoum. como foi e qual a repercussão?
Bá - O Milton foi muito requisitado, participou de várias mesas, eventos, inclusive um conosco no pavilhão do Brasil. É sempre muito bom contar com a presença do autor e ele é muito generoso, nos deu total liberdade, sempre deixou claro que confiava no nosso trabalho e isso nos incentivou muito. O romance não é tão conhecido na França como é aqui, e acabou de ganhar uma nova edição de bolso, então acredito que a nossa adaptação tenha ajudado a criar este interesse na obra do Milton. A França está muito interessada em histórias de descendentes de árabes, está muito em voga. E tem o lado exótico de uma história que se passa no coração da Amazônia. A imprensa e o público estavam muito interessados na história e nos motivos que nos levaram a escolher fazer a adaptação.
Moon - Fomos muito bem acolhidos pelo público francês, pelos brasileiros vivendo no exterior e por toda a comitiva do salão. O Milton foi um dos autores que mais chamou atenção durante o Salão, e ao mesmo tempo estávamos na França, país que adora, consome e respeita muito os Quadrinhos.

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blogdoorlando – quanto tempo levou para ter o livro completamente pronto?
Bá - Das primeiras anotações até o livro pronto e impresso na nossa mão, 4 anos e 3 meses. Ficamos dois anos trabalhando no roteiro, tentando descobrir como íamos escrever a história, como reorganizá-la, até decidirmos que precisávamos começar a desenhar pra coisa desencantar de vez. Daí foram mais dois anos desenhando e terminando de escrever. Os últimos meses foram para fazer a capa e o projeto gráfico, aprontar o livro mesmo.

blogdoorlando – depois disso não dá uma certa ressaca?
Bá - Dá um alívio, uma leveza de quem tirou um peso enorme das costas. Durante toda a produção, qualquer coisa pode acontecer que pode te impedir de terminar o projeto e aí é como jogar tudo fora, como se não tivesse existido. Só existe quando está pronto. É uma sensação de realização, que ao invés de ressaca, deixa inebriado, meio tonto e feliz, bobo, e nos faz acreditar no que fazemos e que tudo é possível. E é desse jeito, meio bêbados e bobos de felicidade, que nós vamos encontrar o público em lançamentos e palestras. Terminar um livro nos lembra a razão que nos leva a fazer o que fazemos.
Moon - O contato com o público nos lançamentos do livro, ver as pessoas lendo e falando sobre o trabalho, é o que é realmente inebriante. A ressaca só vem depois. Agora começa a festa.

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serviço:

dois irmãos – baseado na obra de milton hatoum
onde: livraria cultura
av. paulista, 2073
conjunto nacional
quando: hoje, 13.04.2015
19h30: bate-papo com milton hatoum, fábio e gabriel
teatro eva herz
20h45: sessão de autógrafos
loja da companhia das letras
R$39,90

 

 

 

 

 

 

 

 


depois de perrengue, coletanea seres urbanos é lançada em fortaleza
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Orlando

fazer fanzines no brasil sempre foi uma briga. as publicações underground acabavam sendo produzidas na raça por jovens cheios de ideias, vontade e energia. sexo, drogas, rock’n’roll, sulfite e xerox.
com o tempo e novas possibilidades, o xerox deu lugar às gráficas rápidas que permitiram um acabamento quase profissional às publicações sem tirar suas principais características: a independência e a liberdade.
e, de repente, um ou outro zine acaba virando livro.
é o caso de seres urbanos – antologia do quadrinho underground cearense (1991-1998) que tem seu lançamento marcado para hoje em fortaleza.
viabilizado por um edital de incentivo à cultura do governo do ceará, passou por um perrengue no ano de 2013 depois de ter sua produção interrompida por ter sido considerado pornográfico. falei sobre isso aqui.

dois anos depois, seres urbanos chega ao público como um registro histórico e fundamental para a compreensão do que se produzia no submundo da capital cearense nos anos 1990.
abaixo, entrevista com weaver lima, um dos editores e participantes do grupo:

blogdoorlando – a realização desse projeto foi um parto. o que aconteceu depois da confusão toda com o edital?
Weaver - Continuamos as idas e vindas durante 3 anos tentando resolver a situação até que a Secretaria de Cultura abriu novamente outra edição do edital. Inscrevemos o projeto novamente e mais uma vez fomos contemplados. Desta vez, felizmente, não apareceu nenhum chato pra atrapalhar o processo e o livro saiu.

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blogdoorlando – quais as dificuldades de uma briga como essa?
Weaver - Ah, o pior mesmo foi o tempo gasto. E tbm se criou uma situação constrangedora a toa, foi algo completamente desnecessário. Esse livro já poderia ter sido lançado em 2012 mesmo. O Brasil tem isso das pessoas se esconderem atrás dos cargos institucionais pra complicar, travar, atrapalhar… Tem gente que, infelizmente, parece sentir prazer nisso. No dia a dia com os amigos, familiares são até boas pessoas, mas quando entram numa instituição começam a abusar de poder, perdem a noção. Enfim, foi um sufoco que fez a gente valorizar ainda mais ter o livro em mãos. rs

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blogdoorlando – qual é a importância de ter esse material reunido?
Weaver - É legal ter isso registrado no formato de um livro e mais acessível pra mais pessoas. Nem os integrantes do grupo tinham mais os zines. Muita coisa foi se perdendo ao longo dos anos. O livro serve pra registrar uma produção de HQ do circuito underground brasileiro dos 90 que os leitores de hoje em dia desconhecem, e que ia sumir completamente. O pessoal da Ugra Press tá lançando uma coleção intitulada Maldito Seja com autores que produziam zines de quadrinhos nesse período. Já sairam os livro do Henry Jaepelt, Law Tissot, Alberto Monteiro e vem mais por aí. Foi uma época muito rica. Quem tem um bom acervo desse período é o Fabio Zimbres, que agregava todo mundo em torno da sua coluna “Maudito Fanzine'' que saia na revista Animal. Se ele não fosse tão preguiçoso poderia fazer um livrão sobre a produção dos quadrinhos underground brasileiro. (agora te compliquei, Fabio! rs)

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blogdoorlando – seres urbanos deixaram filhotes? qual a cena hoje no ceará?
Weaver – Olha, Fortaleza sempre teve uma boa produção de zines de todos os tipos. Mas não filhotes ou influenciados pelo Seres Urbanos. São influenciados pelos mesmos autores que a gente, Robert Crumb, Wolinski, Angeli e por aí vai. Especificamente, de quadrinhos, sempre aparece algum zine novo. Desta turma o Guabiras é o mais ativo. Conheci recentemente o Ti que edita o Anarco Pato. Através dele tbm conheci o trabalho do Polyelo Martins, que faz o Nú, Coro e Osso. E com certeza, tem mais gente, que eu só vou lembrar depois de te enviar essas respostas. rs.

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blogdoorlando – o que os integrantes do grupo fazem hoje?
Weaver - Alguns pararam, outros voltaram a desenhar recentemente, outros estão fazendo outras coisas nada a ver com arte. Já tivemos uma baixa no grupo com o falecimento do kaos. Eu estou mais ligado a artes visuais. O Marcílio trabalha com web marketing. O Lupin continua desenhando cartuns e ligado a arte postal.  O Galba virou produtor cultural de eventos. O Mychel voltou a desenhar quadrinhos e tbm está pintando e o elvis trabalha num estacionamento de um hospital (tem uma HQ no livro sobre isso! rs).

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blogdoorlando – existem projetos conjuntos por vir?
Weaver - Depois da dificuldade que foi lançar esse livro com o nosso material mais ameno (mesmo selecionando nosso material pra inscrever num edital de cultura tivemos problema), estamos agora pensando em lançar um segundo livro com nosso material mais pesado. Seria um segundo livro com o nosso material Lado B. Este sim, um material pornográfico classe A. Mas estamos pensando se vale a pena a gente mostrar esse tipo de coisa agora que somos homens sérios e temos famílias. rs.

 

serviço:

lançamento: seres urbanos
quando: hoje, 9.04.2015 a partir das 19h
onde: livraria cultura
av. dom luís, 1010
fortaleza – CE
R$40

Compra pela internet: https://ugrapress.wordpress.com/

 

 

 

 

 

 


alguém diria je suis chico caruso no dia de hoje?
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Orlando

caruso 1

fora o panelaço ontem durante o discurso da presidente dilma à nação, talvez o assunto que tenha mais rendido na rede foi a charge de chico caruso publicada no dia 8, sábado.
surpreendente a quantidade de leituras, o que demonstra o estado de guerra em que estamos. fumaça e gases cobrindo nossos olhos.
a unanimidade é a de que a charge é incômoda.
há muito o trabalho de chico caruso parece ter se esgotado, girando em torno de si mesmo e das mesmas e batidas fórmulas que o consagraram nos anos 80 e 90. nesse período entrávamos na nova república com tancredo neves, sarney, itamar, collor, depois de ele ter se esbaldado com joão figueiredo, delfim e afins.
bons tempos.
o olhar viciado, as soluções fáceis estacionaram seu talento. ele ainda desenha muito mas de forma preguiçosa, como um aposentado que cumpre seu dever, pega o chapéu e vai pra casa.

bem, mas voltando à charge, me parece claro que a intenção era mostrar o quanto a presidente dilma está refém de uma situação.
se em uma ela está prestes a ser cozida por renan e cunha, na outra está com a faca no pescoço ameaçada por um radical.
nas duas situações ele propõe negociar.
acho que são leituras simples, diretas e, convenhamos, reais.
desde collor um presidente da nação não está tão pressionado pela opinião pública, pelo congresso e, sim, pela imprensa.

nesse ponto, temos todo tipo de teorias da conspiração.
chico caruso publica no globo e apresenta suas charges inanimadas na tv globo.
sim, e daí?
qual o alcance popular que elas podem ter?
lembrar que delfim neto colecionava suas charges e as emoldurava já nos anos 70.
charge nunca derrubou governo nem mudou o mundo.

outra grita foi a de que a charge foi publicada no dia da mulher.
péra! em outro dia poderia?
se fosse um presidente do sexo masculino estaria tudo bem?
e se fosse o alckmin não teria problema?
dilma está lá porque é a presidente da nação.
ah, mas se fosse o fhc ele não faria.
tenho livros e recortes com desenhos que provam o contrário.
o chargista trabalha com os atores do momento e ela, dilma, é a bola da vez.
o tranquilo itamar talvez tenha sido um dos presidentes mais sacaneados em charges e cartuns e saiu ileso.
a diferença é que ele tinha bom humor.
e teve o collor
chico caruso já tinha errado feio no episódio da boate kiss, em santa maria, rio grande do sul.

Chico Caruso 3

mas, como desenhista, o que me chama mais a atenção é que até antes de ontem todos “éramos charlie!”.
defendemos a liberdade de expressão e o direitos dos mártires franceses terem se manifestado mesmo que com opiniões grosseiras.
ficamos estupefatos pela polarização que acontece na europa e com o massacre de homens de imprensa do mundo livre.
eu não disse que sou charlie e não vou dizer agora que sou chico mas ainda acredito que a liberdade deva ser direito do cidadão, do artista, do político ou da fé.
a liberdade é direito, saber falar sobre ela é dever.