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des.gráfica chega ao mis com quadrinhos, arte gráfica e muita conversa

Orlando

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os quadrinistas brasileiros continuam mandando ver!
depois de quase 6 anos organizando feiras, coletivos, formas de captar e viabilizar projetos autorais, aterrisam no sagrado solo do mis, museu da imagem e do som de são paulo.
andré sturm, antenado como sempre, pede que rafael coutinho pense e organize um evento que substitua a feira plana que se mudou para outro local.
então tem feira, tem gráfica para imprimir trabalhos de 5 selecionados, quadrinhos, artes gráficas, artes plásticas e discussão.
sim, porque depois que se faz, precisa parar para colocar as coisas na balança, avaliar riscos, rotas e futuro.
a des.gráfica chega neste domingo, 13, para botar mais fogo na bagunça.
a seguir, entrevista com rafael coutinho, organizador que apaga fogo com gasolina:

blogdoorlando – pouquíssima gente consegue viver de quadrinhos no brasil. por que, na sua opinião, tanta gente produz tanta coisa?
Rafael Coutinho – Porque arte nunca prescindiu de remuneração. É óbvio que é fundamental, mas o desejo e as ideias se sobrepõem a todo resto, quando é realmente do desejo de seus produtores. E essa é uma época muito única pra ser artista, por todos os motivos zeitgeistianos que compõem nosso atual contexto. É mais fácil criar repertório específico hoje em dia, chegar rápido em um vocabulário multifacetado de referências, se manter motivado com produções muito específicas, acompanhar ao vivo autores que admiramos. No final do dia, acho que nem é muito saudável viver de uma coisa só hoje em dia. E gosto de olhar pra quadrinho e artes como olho pras outras profissões também, pra não ficarmos tão ensimesmados: é foda viver de qualquer coisa. É foda viver hoje em dia, ponto. Pela aceleração do mundo, pela quantidade de estímulos, pelo vazio inerente nas atividades e ferramentas sociais, pela própria distância que hoje existe entre experimentar e refletir sobre tudo isso, digerir. Enfim, acho que me distanciei um pouco da pergunta, mas acho que quadrinhos é tudo isso. É tentar dar ordem a isso, botar em sequência, enquanto o trem corre, olhando pela janela.
E acho que quadrinhos mudou muito do que era, e digo isso de um ponto de vista mais fundamental. Muita gente que produz quadrinhos agora não produzirá mais em alguns anos, porque o meio permite isso já. O sujeito produz, mantém um blog ou página no fb, depois pára uns anos, volta, retoma alguma coisa, depois pára, faz outras coisas bem variadas ligadas, e tudo bem. Se transformou pra muitos jovens em uma ferramenta de auto conhecimento, de militância dirigida pra esse ou aquele assunto que os une, dialoga com esse ou aquele meme ou discussão, e depois muda. Vejo isso tudo com bons olhos, acho que estamos passando a barreira que definia até onde a linguagem podia ir, e que tipo de formação ela exigia.

blogdoorlando – tivemos uma época em que o humor dava o tom, e heróis. hoje todos falam das coisas ao seu redor. seria uma forma de terapia?
Rafael Coutinho – O humor também era, não? Mas sim, acho que há uma mudança aí também, entre o desejo de se questionar o comportamento de uma nação e esse mais local, que impera. Estamos nessa era da fragmentação. Subdivididos em nichos de atuação, unidos pela timeline, e não mais pela Folha de São Paulo. Mas o humor ainda exerce um papel bem fundamental, acho. Só apareceram mais opções, em contraponto a uma época onde só existia o humor. Mas que isso não substitua a própria terapia, amigos. Se tratar é bom, hein? Tâmo precisando.

blogdoorlando – e tem esse monte de feiras e encontros. quadrinistas estão ansiosos para falar?
Rafael Coutinho – Hahahaha. Visto o tamanho das minhas respostas, acho que sim. Mas as feiras são um retrato de uma ansiedade por conexão com o público, com a troca entre colegas. E de um mercado que tem se formado através das feiras, resposta imediata as carências desse outro mercado formal que não dá conta. O mercado das feiras é uma realidade, escoa uma produção que não tem outro lugar. É realmente uma necessidade.

blogdoorlando – qual a diferença da des.gráfica para outros eventos de quadrinhos?
Rafael Coutinho – Nosso foco é a experimentação. Quando o MIS me convidou pra bolar algo com eles, pensei imediatamente nesse outro problema que as feiras encaram agora, com o boom de eventos voltados para o mundo das publicações independentes, onde vemos que alguns ali simplesmente nunca vão bem em termos de vendas. Nos quadrinhos isso é muito evidente. Eventos como a Parada Gráfica em POA ou a UGRA construíram uma identidade nesse meio de caminho entre produções editoriais mais próximas das artes plásticas, da manufatura, e de uma demanda do público por quitutes visuais que transbordam dos limites do livro que de alguma forma deu casa para quadrinistas com um perfil mais experimental, um autoral estranho, gente com objetivos mais elaborados pro que pode acontecer no âmbito narrativo.
Então a ideia de DES.GRÁFICA era criar esse espaço onde esse povo do fundão (no sentido mais carinhoso possível) pudesse estar na linha de frente, em destaque, com holofotes em cima. E fazer esse nova apresentação ao público desse material, provando que ele também pode ser pop e acessível, divertido, instigante. E acho que depois dessa fase de mais ou menos seis anos onde as feiras se firmaram como realidade no meio, a tendência é que cada uma se direcione mais pra um lado específico da produção. Somos esse evento dos quadrinistas experimentais, e acredito que o evento ajudará a todos descobrirem até onde essa experimentação pode ir. Há um universo muito amplo na linguagem que foi pouquíssimo explorado no Brasil, e um claro desejo crescente de se ir mais pra esse lado. Sair do convencional.

blogdoorlando – como surgiu o projeto?
Rafael Coutinho – De um convite do MIS e do André Sturm. Eles foram muito abertos e pediram as ideias mais ousadas que pudéssemos pensar. Já tinham sido a casa da Feira Plana, e queriam criar um evento de quadrinhos que fosse realmente do MIS. Criamos a convocatória nacional por projetos de quadrinhos experimental, compramos uma máquina digital maravilhosa pra imprimir eles e que será usada em novos projetos pra 2017, além da feira e abrimos o convite pra alguns animadores que transitam entre quadrinhos e animação e seguem esse caminho dentro do áudio visual. Eles toparam trazer também o Ilan Manouach, um grego maluco e com um trabalho maravilhoso, pra falar do trabalho que desenvolve como quadrinista plástico-conceitual, um cara que pensa quadrinhos de uma forma bem expandida e muito interessante. E mais um monte de pequenos detalhes que o MIS encarou e entrou 100% de cabeça, e isso fez toda a diferença pro evento virar o que virou.

blogdoorlando – findas as inscrições, quais os números?
Rafael Coutinho – Tivemos 79 inscrições na convocatória, que contou com cinco contemplados ao fim de um processo muito incrível de crítica e analise do corpo de jurados, composto pelo crítico português Pedro Moura, o quadrinista Pedro Franz, Raquel Gontijo – dona d’A BOLHA Editora, a artista plástica Jac Leirner e o também artista plástico Ralph Gehre. Teremos aproximadamente 100 expositores na feira, de todos os cantos do país. E claro, a ideia é amadurecer o projeto, continuar abrindo essa porta para os anos seguintes.

blogdoorlando – e como serão as mesas de discussão?
Rafael Coutinho – Vou apresentar um site de pesquisa de intensão de compras em publicações, o CMYX, feito com apoio do MIS, cujo objetivo é sanar alguns dos problemas que enfrentamos no mercado editorial independente – como saber quantas pessoas realmente querem o material, como chegar até elas, como evitar problemas provenientes de um sistema de produção de quadrinhos que ficou próximo demais do sistema primitivo de vendas via financiamentos coletivos, e até mesmo essa necessidade dos quadrinistas em virarem pequenos empreendedores da noite pro dia.
Depois da apresentação teremos um bate-papo geral sobre esse mercado e essa nossa realidade, e pro onde vamos a partir daqui. Depois disso haverá a apresentação do Ilan Manouach. E depois festa. É raro conseguirmos juntar tantos autores tão excelentes e empenhados nesse universo de produção.

blogdoorlando – qual o saldo que vc, pessoalmente, espera?
Rafael Coutinho – Já passou de todas as minhas expectativas. Queremos que o público abrace, venha em peso prestigiar, curtir, vai ter coisa pra quem quiser vir com filho também. Mas o trabalho todo foi muito prazeroso, a equipe do MIS foi incrível, e só de realizar o evento como concebemos já é uma vitória incrível. Tenho absoluta certeza que todo mundo vai curtir, tanto autores como público. Tá realmente muito bonito.

 

serviço:

13 de novembro, domingo
15h | Lançamento do site de pesquisa editorial CMYX – Uma apresentação da plataforma simples criada pela Des.Gráfica no qual cada autor pode inserir seus projetos para que os usuários possam demonstrar interesse de compra. Ele precede a impressão de fato, bem como o financiamento coletivo. A ideia é mapear o interesse do público nos publicações.
 16h | Conversa sobre o mercado editorial independente com participantes da feira, mediado por Rafael Coutinho.
 18h | Palestra com Ilan Manouach* mediada pelo quadrinista Pedro Franz
14 e 15 de novembro, segunda e terça-feira
Feira de Quadrinhos e publicações independentes | 13h às 20h 
A feira contará com 100 participantes de todos os cantos do país, além de algumas editoras conhecidas no meio mais independente, como Mino, Lote 42, Ugra, Narval, Antílope e Veneta. O Estúdio Invertido, que também participa da feira, ficará responsável pelas capas dos livros dos vencedores da Convocatória.

Video mapping de animação experimental | Local: Fachada do MIS | Horários variados
Os artistas confirmados são Paula Puiupo, Daniel Semanas, Paulo Stocker, João Lavieri, GUMA, entre outros.

13 a 15 de novembro de 2016
dia 13: das 14h às 21h
dias 14 e 15.12 : a partir das 13h (os ingressos para a primeira palestra serão distribuídos com uma hora de antecedência). Entrada na feira até às 19h
auditório MIS
ingresso gratuito

MIS – Museu da Imagem e do Som de São Paulo –
Avenida Europa, 158, Jardim Europa, São Paulo – SP, Brasil. CEP 01449-000.
Telefone: 55 11 2117 4777

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Sobre o autor

Orlando Pedroso é artista gráfico e ilustrador, trabalhou com praticamente todas as publicações da grande imprensa. Foi colaborador da Folha de S. Paulo de 1985 a 2011. Ilustrou mais de 60 livros infanto-juvenis e é co-autor de “Livro dos Segundos Socorros” e “Não Vou Dormir” – finalista do prêmio Jabuti de 2007 nas categorias “ilustração” e “melhor livro”. Foi vencedor do Prêmio HQ Mix de melhor ilustrador nos anos de 2001, 2005 e 2006. Expôs nas mostras individuais como “Como o Diabo Gosta”(1997) , “Olha o Passarinho!”(2001), “Uns Desenhos” e “Ôtros Desenhos” (2007). Em 2008, faz uma exposição retrospectiva de 30 anos de trabalho como artista convidado do 35º Salão de Humor de Piracicaba.- É autor dos livros Moças Finas, Árvres e do infantil Vida Simples, e membro do conselho da SIB – Sociedade dos Ilustradores do Brasil.

Sobre o blog

Este blog trata de artes gráficas, ilustração, cartum, quadrinhos e assuntos aleatórios.

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